Sumidade
Aquele homem nem disfarça, gosta mesmo
de ser do contra; sobre seja lá o que seja, diz-se que é pessoa livre,
autônoma, independente, um pensador que não se sujeita; no fundo, se o carimbo
de gente livre for examinado de perto, é evidente que a tinta ꟷ nem a cor verde
nem a azul são empregadas, só o vermelhoꟷ não infunde fundamentos nem enraíza
fundamentações, apenas mancham o caráter, contaminando a leitura da sua aura, essa
aura em cujo espírito o ser humano de ideias precisamente dignas e sóbrias gera
a identidade oportunista de quem sabe ganhar a vida, ainda que não assuma o
otimismo.
Tal otimista não avalia como
estapafúrdias as opiniões que dispara assim que a comichão acossa-o. Seus dedos
são rápidos na digitação, seus olhos são pródigos em leitura enviesada, em seus
lábios abunda a saliva do satisfeito. Pelo êxito alcançado: milhares de curtidas
a cada postagem, milhões de neurônios recompensados pelo reconhecimento do seu
afeto fundamental, que é contrariar a corrente majoritária que impregna com
sensatez a mente da nossa gente.
“Tem brasileiro que samba ao ter sofrido
outra derrota”: a primeira ideia estapafúrdia que o otimista que sabe contradizer-se
teve durante a noite passada foi que a ventania uivante garantia que o final das
eras aconteceria assim que a chuvarada caísse, rios transbordassem, ruas
restassem alagadas e não fosse mais leviandade afirmar que os raios eram raios tão
somente raios.
Duvidar do apocalipse no seio da
madrugada? Céus!
Sendo um temporal, cadê que não se escutaram
os estrondos? Isso foi o que foi, que o mais assustador da noite foi que houve
relampejos, os clarões terríveis, e nada disso foi evidência que o fim do mundo
iria ser escuro, silenciosamente apagado, aquele breu só.
Afeiçoado a repentes apocalípticos, o
homem foi às compras.
Lá ele encontrou quem gosta de
felicitá-lo ao encontrarem-se; e por nada, por qualquer coisa, como se a
felicidade girasse feito o girassol, ao léu desses encontros circunstanciais.
A segunda ideia idiota, ele a pensou assim
que se livrou do abraço: que o sol da lágrima não aquece a língua da gente
porque não é sol, é sal, é amargo, e o sal da lágrima não é dor nem sofrimento,
nem sequer dá paixão à alma.
A terceira idiotice veio da segunda, que
ele não tinha como assumir a autoria daquela besteira, porque ele diz o que diz
e esquece, vai em frente, como se a chuva caída de madrugada não tivesse acarretado
o alagamento da rua nem que os bombeiros não vieram socorrer as duas mulheres, a
cacatua, a calopsita e aquele gato angorá, que, por conta daquele olho
esbranquiçado, é o Simão.
Comentaram que o homem que gosta de ser
do contra não merecia audiência, que ele era uma pessoa nefasta, alguém indigno
de dó, até porque ele repassou: “a gente quer bem o próximo quando está bem, o contrário
é vulgaridade hipócrita”.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 30 de maio de 2023.