Bisnaguinha,
bisnaguinha
Firme na campanha por tripas menos
assanhadas, tenho para hoje que me satisfaço nesse desejo de comer bisnaguinha.
Sem exagero, não resisto. Corro
comprá-la porque não espero para comer bisnaguinha, trago-a, como-a. Até sem
café, gosto de comê-la.
Ou isso ou acabaria em suposições, nas
expectativas frustradas de quem gosta de dizer que sofre o que não sofre, mesmo
que nem tenha medo de matar a vontade.
Eu não mato nada, nem mesmo as minhas vontades.
À vontade com o que penso: sacio o
desejo, não o mato, pois desejo não some porque o satisfaço ao dar-lhe em
objeto o que o funde.
Vou fundo no prazer de saciar a vontade
de comer bisnaguinhas. E o pacote está à disposição, o tempo não me atropela. Posso
ir fundo e não recuo de gostar de comê-las. E uma a uma, como-as.
Não mato a vontade porque não me desejo
violento.
Espero que me tenha feito entender pelo
que disse, que as marcas de violência estão à vista, pelo quê? Por me recusar a
dizê-las.
‘Matar a vontade’ é fala que não uso.
Como pessoa que não sustenta a violência
e dela não se alimenta, creio que permaneço sob controle, pacificando-me até
onde sei que eu posso alcançar com as esperanças de gente ponderada.
Digo que me vejo como essa pessoa sincera
que reconhece o valor de quem inventou a bisnaguinha. E não apenas, uma vez que
também houve quem a pôs à venda, quem a aprimorou e quem se empanturrou dos
lucros.
Não me sujeito a vender aos outros a
ideia de que vou deixar para comer mais tarde a bisnaguinha que posso comer
agora.
Não sou mesquinho quando não como por
gula. Que o pacote ainda tenha bisnaguinhas pro lanchinho noturno, isso me agrada.
Gosto de me deitar depois de golinhos de
café. Contentam-me dois dedinhos daquele que a garrafa térmica nem manteve
quente.
Eu não me admoesto por deitar-me satisfeito
com uma bisnaguinha comida sem pressa. Porque posso comê-la sossegado, gosto de
ir pra cama sem achar que estarei faminto de madrugada.
Agrado-me ao pensar que a saciedade é um
sentimento bom, pois me alegra, faz meu espírito sopesar os ânimos
conflitantes.
Se como além da conta, contrario quem eu
quero aparentar ser. Me complico ao dar aos demais a imagem de gente que come
bisnaguinha como quem gosta tanto que, pela gula dos olhos, pouco sabe dominar-se.
A bisnaguinha não me domina. Sei que
não, pois eu a mastigo sem fazer cara de que estou gostando de mastigá-la. Até
porque nem passa por mim o pensamento de contar depois de quantas mastigadas
engulo a bisnaguinha abocanhada.
Ao fim e ao cabo, comprei bisnaguinhas,
mordi-as, mastiguei-as, e mastiguei-as tanto que nem precisei sentir a mente surpreender-me
ao fabricar bisnaguinhas que nem sabia que estivessem faltando.
Considerando o que nem pensei que me
faltasse, falto-me. Todavia não quero que as bisnaguinhas estraguem, porque
acho bom não jogá-las fora.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 30 de outubro de 2022.