quinta-feira, 20 de outubro de 2022

As capicuas

 

As capicuas

 

Arrancaram-me um dente, mas não sinto dor.

Quando ainda o tinha na boca, evitava bebida gelada, rango quente e falar com empolgação. Embora vazia, a boca torta sorria.

Não imagino o horror que seria sofrer alguma disfunção neurológica que me tornasse insensível a dores. Tal condição não me paralisa, pois o dente foi arrancado na semana passada.

Dente é torrão de areia mascado como chiclete?

Para me desembaraçar da ansiedade, procuro controlá-la. Como se as complicações fossem um dente a doer sem mais nem menos, corto pela raiz a ideia da goma perdida do tutti-frutti açucarado.

A dor que poderia sentir acaso me distraísse, dela não guardo maior pavor que o momento da extração. Porque houve calafrios e apertei os braços da cadeira, pela aflição que eu poderia ter sentido.

Não senti, não sinto e não sentirei, pois acredito que a antecipação da dor faz muito para me convencer a parar com refrigerante, balinhas e bolos. Só preciso confiar em mim quando apresentarem bandejas de brigadeiros ou uma mesa coberta por copos de tubaína.

A semana passada mostrou-me a fortaleza que sei que posso ser: o dente extraído foi pro lixo, eu não o pus embaixo do travesseiro nem o joguei no telhado.

Se acreditasse na força dessas coisas eu as faria sem pestanejar. Contudo, não é porque não sou supersticioso que debocharei de quem as faça. Sou simpático a simpatias que não atormentam ninguém.

Aliás, agora me lembro.

Há duas semanas, outro dente foi subtraído a esta minha boca que tanto devora doces.

Da cadeira, observei os objetos, notei números e notei também que havia dezenas repetidas. Essas que se repetiam eram capicuas.

Mas as dezenas, aquelas com as quais não me importei de levar na cachola atulhada de fios soltos, elas mereciam outro olhar, a visão de que eu poderia torná-las a senha para um futuro menos escuro.

Se nas últimas semanas o futuro iluminado não me comovia, outro dia, nesta passada quarta-feira, não senti a agulhada na gengiva, senti pulsante o pensamento de que voltaria a sentir dor quando o efeito da anestesia passasse de vez.

Ontem, depois de terem-me extirpado mais um dente, o terceiro em quinze dias, estava parado na calçada, não era hora para esquecer as capicuas que li nas plaquinhas.

Queria apostar, mas eu lembrava das agulhas, das pontas finas das agulhas, lembrava as agulhadas. Cáspite! Eu queria aqueles números, os que o otimismo identificou como os duplos da sorte.

Não me queria abatido, frustrado pela memória fraca, entrei na fila e nela fui avançando, senha após senha.

A tarde estava linda, tinha sol dourado brilhando no céu anil, mas o tempo fechou. Virou em chuva o que era esplendor.

Fulano falou:

ꟷ O Cara Lá De Cima devia ter vergonha de pregar peça na gente honesta que sai de casa sem sombrinha.

Beltrano emendou:

ꟷ Pedro, o aporrinhador? Esse eu não conhecia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de outubro de 2022.

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