domingo, 9 de outubro de 2022

O mundo dos sonhos

 

O mundo dos sonhos

 

Depois de outra jornada com mais tarefas que mãos, queria dormir.

Como seis horas mais tarde teria outro dia com menos alegrias que aborrecimentos, que eu caísse no sono o quanto antes.

O mundo não tem que atender minhas expectativas apenas porque prefiro muito mais rir a engolir a seco de vez em quando.

Nem a realidade condiciona os acontecimentos pra que à minha voz sobrevenha uma rouquidão cavernosa nem levo uma vida muito louca para gargalhar com o pastelão da torta na cara.

A minha cama é firme, mantém os quatro pés pousados no carpete de madeira. Nela eu me deito quando estou cansado, com sono ou pra uma escapadinha das palhaçadas do cotidiano.

Por que não conseguia dormir?

Sem que a luz da rua invadisse o quarto pelas frestas da veneziana, era certo que a escuridão estava brincando comigo.

Uma luzinha me fez correr as cortinas para que o breu cortasse no nascedouro a tolice de me transformar num insone só pela suposição de que era noite de lua cheia.

Quando estou exausto, irrita-me ficar acordado.

Se há no mundo lugar melhor pra pensar na vida, desconheço outro que me cative mais que a minha cama. Mas no quentinho das cobertas, avesso a seguir pensando no que fiz de bom ou nos erros que poderia ter evitado, o que eu mais precisava era roncar.

Ainda que não houvesse claridade alguma, o sono não vinha.

Não vindo o sono, a impaciência tornava exasperante o diálogo de mim comigo. Enclausurado na ideia de que deveria estar dormindo, eu sabia que deveria ter necessariamente adormecido.

Estúpido foi confirmar que a escuridão a me envolver deixava ver o quanto estava escuro. Já o teto, podia senti-lo mais baixo.

Não apenas o teto. Como não conseguia vê-los, também os móveis davam a sensação de que espreitavam.

Ora, tudo seguia no lugar de sempre: a natureza morta continuava parada; quem estava irritado já se exasperava.

A cabecinha fazia do quarto um lugar desconcertante, um casulo do qual sairia o mesmo apesar de um tanto mudado.

Vivo, e não sou indiferente ao que vivo.

Se o tempo existe pra asseverar que o caráter faz o destino, não o contrário, lutarei quando for preciso, arrancarei do flanco os aguilhões, confrontarei quem me passa para trás na fila.

Quero respeito, mas fraco, covarde, ingênuo, não levanto a cabeça, não ergo a voz, não esbravejo nem esperneio, não sacaneio, nada faço por mim que me proteja dos outros, que me alie aos vulneráveis, a mim me aproxime de quem também é passado pro fim da fila.

Quem chega depois de mim, esse é chamado à frente. Quem passa à frente chama quem chega outra vez depois de mim, isso deixa a fila bem maior à minha frente.

Em pé na fila, meus pés me incomodam, minhas canelas formigam, flexiono os meus joelhos, endireito a minha coluna, meus olhos pedem colírio, urgente é ter o que não tenho.

Quero me livrar do que tarda a passar, hei de alvorecer.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de outubro de 2022.

Nenhum comentário:

Postar um comentário