Possesso
Se nunca disse, já deve ter escutado
alguém dizer “não posso ouvir o nome daquela desgraçada”, porque a essa maldita
estão associadas reações, no mais das vezes coléricas pelos transtornos que a
menção evoca, que nem lhe ocorre amenizar o tanto de “ódio e nojo àquela filha
de uma figa”.
Não julgo a pessoa pelo excesso de bile
que o fígado produz, pois não sou nem quero ser juiz. Não alimento o engano de
achar que tenho cabeça boa, ajuizada, no lugar, centrada.
Reconheço que eu sou um sujeito
esquentadinho. Como resistência de chuveiro, esquento fácil. Viro uma coisa
difícil de engolir, tanto que muita gente sabe o meu nome e há quem invente
codinomes, dos mais apropriados até os bizarros.
No tempo que eu não fechava a boca
sequer no minuto de silêncio, os professores me chamavam de Chacrinha.
Eu achava o máximo que houvesse algo
comparável com o Velho Guerreiro. Como era uma criança magra, eliminei o
barrigão. Pela voz fininha de menino tímido, não podia ser a buzina. Continuei
Chacrinha mesmo sem saber por quê.
Loiro aguado de cabelão pelo ombro,
virei Vanusa.
Por que tem ouvido, adolescente escuta?
Eu ouvia. Talvez fosse pra ser ofensivo,
mas eu ouvia sem me irritar com os adultos mais babacas. Entre nós, os meus
amigos e eu, ríamos da venerável autoridade que professor possuía na sala de
aula.
Sei lá o que acontece comigo quando recordo
um ou outro nome.
Lembro-me das roupas, dos gestos, dos
tiques, muita coisa me vem à mente, menos a voz. Imagino a lousa cheia de
lição, visualizo a figura de régua na mão, e nada da voz querer revelar-se.
Quando dou com antigos mestres, eles
ainda me são estranhos.
Passaram-se os anos. Foram-se as
décadas. 20 virou 21.
Hoje, escarro quando não estão vendo ou tusso.
Aprendi que minha garganta livra-se de incômodos com tossidinhas ou
expectoradas sutis.
De todo modo, procuro passar
despercebido.
Cultivo a invisibilidade porque eu gosto
de andar por aí sem que me identifiquem. Mas é difícil sair à toa, pois muita
gente sabe meu nome; e tem um pessoal que inventa alcunhas como se isso me
irritasse.
Caramba, não cuspo fogo se me chamam de
Dodói.
Sem dúvida, minha gastrite é folclórica.
Não vou a almoços imperdíveis, pois
churrascos são marcados por gente que consegue comer até duas fatias de uma quatro
queijos com borda recheada. O quê? Meus sábados só acabam comigo lambendo os dedos.
Muitos me acusam de misantropo
enrustido. Se estivessem no meu corpo, saberiam que sofro um bocado depois de
uma calabresa assada em forno à lenha.
Pode até ser que eu lhes pareça um bom
de bico, mas não mentiria a queimação que realmente me tira do sério.
Doido, eu?
A cachola segue ligada ao tronco pelo
pescoço, por isso não chupo manga quando assobio.
A careca brilha pela pele oleosa, não porque
passe babosa.
Não acredito que me achem virado num
Dodói Doido, grilo da cuca!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de outubro de 2022.
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