quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Possesso

 

Possesso

 

Se nunca disse, já deve ter escutado alguém dizer “não posso ouvir o nome daquela desgraçada”, porque a essa maldita estão associadas reações, no mais das vezes coléricas pelos transtornos que a menção evoca, que nem lhe ocorre amenizar o tanto de “ódio e nojo àquela filha de uma figa”.

Não julgo a pessoa pelo excesso de bile que o fígado produz, pois não sou nem quero ser juiz. Não alimento o engano de achar que tenho cabeça boa, ajuizada, no lugar, centrada.

Reconheço que eu sou um sujeito esquentadinho. Como resistência de chuveiro, esquento fácil. Viro uma coisa difícil de engolir, tanto que muita gente sabe o meu nome e há quem invente codinomes, dos mais apropriados até os bizarros.

No tempo que eu não fechava a boca sequer no minuto de silêncio, os professores me chamavam de Chacrinha.

Eu achava o máximo que houvesse algo comparável com o Velho Guerreiro. Como era uma criança magra, eliminei o barrigão. Pela voz fininha de menino tímido, não podia ser a buzina. Continuei Chacrinha mesmo sem saber por quê.

Loiro aguado de cabelão pelo ombro, virei Vanusa.

Por que tem ouvido, adolescente escuta?

Eu ouvia. Talvez fosse pra ser ofensivo, mas eu ouvia sem me irritar com os adultos mais babacas. Entre nós, os meus amigos e eu, ríamos da venerável autoridade que professor possuía na sala de aula.

Sei lá o que acontece comigo quando recordo um ou outro nome.

Lembro-me das roupas, dos gestos, dos tiques, muita coisa me vem à mente, menos a voz. Imagino a lousa cheia de lição, visualizo a figura de régua na mão, e nada da voz querer revelar-se.

Quando dou com antigos mestres, eles ainda me são estranhos.

Passaram-se os anos. Foram-se as décadas. 20 virou 21.

Hoje, escarro quando não estão vendo ou tusso. Aprendi que minha garganta livra-se de incômodos com tossidinhas ou expectoradas sutis.

De todo modo, procuro passar despercebido.

Cultivo a invisibilidade porque eu gosto de andar por aí sem que me identifiquem. Mas é difícil sair à toa, pois muita gente sabe meu nome; e tem um pessoal que inventa alcunhas como se isso me irritasse.

Caramba, não cuspo fogo se me chamam de Dodói.

Sem dúvida, minha gastrite é folclórica.

Não vou a almoços imperdíveis, pois churrascos são marcados por gente que consegue comer até duas fatias de uma quatro queijos com borda recheada. O quê? Meus sábados só acabam comigo lambendo os dedos.

Muitos me acusam de misantropo enrustido. Se estivessem no meu corpo, saberiam que sofro um bocado depois de uma calabresa assada em forno à lenha.

Pode até ser que eu lhes pareça um bom de bico, mas não mentiria a queimação que realmente me tira do sério.

Doido, eu?

A cachola segue ligada ao tronco pelo pescoço, por isso não chupo manga quando assobio.

A careca brilha pela pele oleosa, não porque passe babosa.

Não acredito que me achem virado num Dodói Doido, grilo da cuca!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de outubro de 2022.

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