A
força da palavra
Naquela classe, no terceiro ano do primário,
em 1973, tudo decorria sem maiores surpresas. A professora seguia de carteira
em carteira; e, à pergunta feita, cada um dos alunos respondia de pronto.
Um queria dirigir táxi como o pai fazia.
Tal qual um tio, outro iria vender roupas
de porta em porta.
Aquela daria aulas que nem a sua querida
professora.
Mas a turma era heterogênea. Havia alunos
que se destacavam por serem mestres em chamar a atenção pela criatividade.
Como o seu irmão queria ser astronauta, fulano
disse que precisava comprar um deserto pra poder construir uma plataforma de
lançamento de foguetes para que aquela viagem à Lua fosse realizada.
Fulana falou que aquilo era impossível, porque
não tinha deserto no Brasil nem ninguém tinha ido à Lua do jeito que a tevê tinha
mostrado, pois nave espacial rodando em volta da Terra tinha que cair por causa
da gravidade que faz a maçã cair na cabeça da gente, se bem que ela não conhecia
quem tivesse levado maçanzada na cabeça, porque era bem difícil de ver porque
os americanos sempre foram bambambãs em fazer truques para a mentira virar
realidade.
Já que fulana se preocupava com a
realidade passada na televisão, a professora disse que a aluna podia virar
jornalista pra contar como a História era contada sem os macetes do cinema.
Se beltrano concordava com fulana porque
era inteligente, beltrana falou que achava ridícula essa gente que ficava
embaixo de árvore sem fazer nada de bom, por isso seria médica, pra tratar de
quem era biruta de ficar esperando a maçã cair de madura na ideia do lelé da
cuca.
Nem sicrana nem sicrano tiveram vez, pois
a professora achou que tinha chegado o momento do seu aluno mais tagarela, mais
sabichão, mais espontâneo, ela achou que ele tinha de responder logo:
ꟷ Então, menino, o que você vai ser
quando crescer?
O garoto coçou a cabeça. Não sabia o que
tinha de dizer. Se falasse que queria ser advogado como o avô, isso agradaria à
mãe mas o pai não iria gostar porque filho tem que seguir a profissão do pai,
que seria virar dono de padaria.
Notando que a professora estava para
perguntar-lhe se ninguém o impressionava, se nenhum professor o inspirava, o
menino disse que queria ser presidente.
ꟷ Hein? Repita, pois eu acho que ninguém
ouviu direito.
Com uma voz que mal dava para ser ouvida
na carteira ao lado, ele repetiu o que havia dito:
ꟷ Presidente. Quero ser presidente,
professora.
De bom coração, embora pasma, a professora quis saber o que ele, feito presidente, faria pelo
“nosso glorioso” país.
O menino viu as lâmpadas acesas, viu os
passarinhos pousados no muro e, ainda que estivesse sendo encarado pela
professora, falou que andaria de carro dirigido pelo fulano, usaria as camisas
vendidas pelo beltrano, faria escola para ensinarem como fabricar foguete pra
ir à Lua sem cair no quintal da casa da fulana.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de outubro de 2022.
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