domingo, 23 de outubro de 2022

O olho que tudo vê

 

O olho que tudo vê

 

Cansado de ser levado a sério desde que pediu para que realmente o levassem a sério, foi cabisbaixo como se não chovesse.

Seus passos pesados o conduziram até o riachinho mais escondido que conhecia, para ali sentar-se um pouco.

Lembrou-se daquela tarde, que poderia tê-la esquecido.

Antes nem tivesse ido ao barbeiro naquela tardinha de sol em que a canseira deixara-o pusilânime o bastante pra nem querer discutir com quem estava disposto a considerá-lo um tolo por achar que o deixariam de considerá-lo um tolo porque tinha achado que o levariam a sério só porque pedira que não o vissem como idiota.

Desde então, os fregueses da barbearia pediam a ele que opinasse sobre o diabo a quatro. E ninguém se importava de fazê-lo de supetão, bastava que o vissem de bigode sendo aparado para que tomassem o que dizia como se da sua boca saíssem comentários indiscutíveis, cuja sabedoria dependia efetivamente da franja bem aparada.

Debaixo daquela chuvarada, o sapientíssimo solitário da franja bem aparada estava contrafeito de pensar que precisava refletir com menos seriedade nos problemas que afligem todo mundo.

Em confronto, tinha dois lados.

Não era alegre nem triste o tempo todo. Saía-se mal quando sofria por não conseguir pensar além da alegria e da tristeza.

Sem saída, a amargura o prendia. E mais amargo, mais infeliz.

Como a desdita era aguda quando garoava, gostava que chovesse forte. Como ele não vagou a esmo, foi ao ermo mais próximo, foi àquele riachinho sem nome, ao fiapo d’água no meio do mato, chovia forte.

Esgotado, nem o preocupou querer outra saída que não fosse ouvir o murmúrio do riachinho.

Tão sério, foi sem isca e vara.

Na ressaca do remorso, a solidão o abrigava à margem.

Com os pés fora da água, queria silêncio. Bem que o mundo poderia sossegar-se, para ouvir a chuva caindo.

Se tinha bigode e franja bem aparados, por que ansiava que não o censurassem por atirar pedrinhas na linha d’água do riachinho perdido no meio do mato?

Parou com as pedrinhas quando viu baratas saindo do chão.

As baratas vinham à tona da terra molhada por uma fissura no solo, e não paravam mais de sair daquele buraco.

Não eram formigas, pareciam.

Em alvoroço, era horrível. Eram inúmeros indivíduos alvoroçados. Tantas baratas brotando da terra, era um exagero, algo incomum.

Sentado na margem, tomando-as por saúvas, começou a pisotear as baratas. E tanto pisou que a terra molhada desbarrancou e ele caiu na água barrenta do riachinho esquecido no meio do mato.

ꟷ Se faço o que posso, por que me desfazer do possível?

E poderia ter ouvido música, feito um lanche, ter ido brincar com os cães, tirado as roupas do varal, chupado jabuticabas no pé, ou fechado os olhos.

Cansado de ser levado a sério, o homem sério jamais admitiria que nada tinha feito de divertido, que nem boiar no riachinho embarreado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de outubro de 2022.

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