terça-feira, 4 de outubro de 2022

Criancice

 

Criancice

 

Quando a campainha alertou qual era minha circunstância, que eu estava distraído para o mundo pelas tentações do celular, assustei-me que o palavrão foi mais defesa inútil do que ataque boçal.

Com o pastel à porta, desamarrotei roupas e rugas com a sacudida que sei providencial. Se bem que o pigarro foi para aliviar a garganta, não um recurso costumeiro de pessoa acomodada.

Tinha que me recompor para não ser visto amarfanhado na euforia de paspalho, porque eu estava babando com as minhas sacadas. Sim, gente esperta também zanza por gráficos e tabelas na perseguição das relações misteriosas que inventam a realidade.

O rapaz que entregava os pastéis percebeu meu esforço de mostrar uma carinha simpática, pois eu não estava muito a fim de compartilhar um tostão da minha riqueza interior.

Nem um pouco miserável com as ideias estapafúrdias, eu brincava como criança. Juntava voto envergonhado com voto mentiroso, antevia estradas íngremes, vislumbrava poços sem fundo, temia pelo equilíbrio mental de gente afim ao meu gênio.

A minha alma tem uma queda pelo sossego, um fraco pela paz, tem forte tendência a pedir abraços a quem dá um passinho atrás logo que me vê ansioso por um chameguinho o mais espontâneo possível.

Tolo carente de beijinhos, fingi que não me acanhava de oferecer a face a quem não a aceitava tão oferecida.

O moço era neto do doutor Zequinha, o dentista do grupo escolar.

Zequinha cujas brocas lapidavam dentes como pedras brutas, putz!

Por lembrar a maestria do avô, pedi notícias do pai.

Outro Zequinha, outro dentista, e outro partidário de tratamento sem aplicação de anestesia. Pois é, as pessoas têm que conhecer a dor pra valorizar as verdadeiras agulhadas da vida.

Vertiginosa feito ferroada, a gengiva latejou que massageei o rosto de tal maneira que o moço não notasse meu desconforto. Acho até que ele entendeu que eu queria puxar assunto.

ꟷ Isso de entregar pastel é coisa temporária. Só estou ajudando um amigo. Assim que conseguir uma bolsa, volto pra faculdade de odonto. Porque o senhor sabe como é, isso de virar dentista é tipo uma tradição da minha família, né? E quem tem cabeça boa tem mais que se inspirar nos bons exemplos, principalmente quando eles têm o mesmo sangue que eu tenho. E com o sangue não se brinca de jeito algum.

Não tive tempo de falar o que fosse, já que ele, montando na moto, ficou grato pela gorjeta que achou merecida pela rapidez na entrega.

Em tempos bicudos não dá para ignorar um realzinho sequer, mas fiquei sem saber quanto era meu troco, pois o rapaz virou um cisco mal lhe entreguei o meu suado dinheirinho.

Ainda por cima, o fanfarrão fez o desaforo de buzinar sem ao menos olhar-me a gesticular como idiota no meio da rua.

Gritei. Pedi que parasse. Sem mais o que fazer, chorei de raiva.

Como fui tonto!

Ninguém ouve direito quando usa capacete.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de outubro de 2022.

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