Um
quarto de absurdos
Desligo a TV, pois estão comentando o
que não acho interessante. Quando a liguei, mostravam números num gráfico
vistoso. Precisei de um segundinho pra entender que as fatias da pizza estão relacionadas
com abstrações políticas, nada a ver com os preços de farinha, tomate, queijo e
orégano, nem com a gorda gorjeta do garçom.
Porém, a razão precípua pra desligá-la é
o silêncio pra cochiladinha depois que a gente descobre que está encrencada com
a hora.
E o sono não apaga na mente a realidade
do momento.
O real tem prioridades que o meu fastio
com as eleições inventa de fechar a cara, pois os analistas projetam, por um
mais um, que a parte significativa do eleitorado, que ajoelhará sem errar a reza
nem mesmo ao imprecar pra cacete contra demônios que juntam pormenores sobre pormenores
que mais confundem que explicam, esse quinhão exige de mãos juntas que tudo
seja cobrado, tintim por tintim, a quem dorme no ponto.
Triiim! Triiim!
O alarme do celular soa como o clássico
telefone de disco.
Triiim! Triiim!
Seu Rodrigues, o histórico do momento
pede coragem para ficar na soneca a cada cinco minutos? Deixe-se ficar ou
desligue-a.
Triiim!
Deve ser porque ando bebendo muita água
que estou com sono, e não julgo correto dizer que quem quer dormir um pouquinho
mais seja um camarada preguiçoso.
Sujeito preguiçoso encara dois litros de
água por dia?
A água limpa o corpo, tira do sangue as toxinas
e conduz o oxigênio ao cérebro sem maior consumo de energia; e o menor gasto de
energia permite à mente trabalhar melhor sem que o cansaço prevaleça.
Logo, o sono é por esgotamento mental,
não por fadiga.
Quando estou fatigado, procuro dormir na
posição que nem me faça sentir o travesseiro, o colchão, os cobertores e a
bexiga.
E o danado do diabo que se mija de tanto
rir?
A consciência sabe o que é preciso pra conservar
o colchão seco.
Já a fronha fica babada, porque sonho de
boca aberta. Ao visualizá-la salivante, digo-a asquerosa, assaz nojenta, demais
repugnante.
Fecha-se o círculo: pela visão, eu babo
ainda mais.
É pela boca que demonstro a minha
satisfação pelo copo d’água ao lado do celular. Algo útil, porque me socorre
quando ronco até secar a garganta. É recurso que aprendi a utilizar de modo
racional.
Como prefiro passar a noite sem
consultar a hora, gosto de sonhar com o copo cheio, e eu babo que dá gosto.
Para que cinzeiro no criado-mudo se não
fumo?
Acredito que o inconsciente até queira
aprontar. Mas a memória dá a entender que piada contada de trás pra frente perde
a graça. Mas a ansiedade, mal a história comece a ser contada, ainda que de
trás para frente, a ânsia faz rir ꟷ de nervoso, mas faz.
Triiim! Triiim!
Pra neutralizar suposições disparatadas,
falta dizer que achara que tinha acordado, desligado o alarme e me ligado na
TV, mesmo com o quarto a recender a orégano às seis da madruga.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de outubro de 2022.
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