terça-feira, 18 de outubro de 2022

Um quarto de absurdos

 

Um quarto de absurdos

 

Desligo a TV, pois estão comentando o que não acho interessante. Quando a liguei, mostravam números num gráfico vistoso. Precisei de um segundinho pra entender que as fatias da pizza estão relacionadas com abstrações políticas, nada a ver com os preços de farinha, tomate, queijo e orégano, nem com a gorda gorjeta do garçom.

Porém, a razão precípua pra desligá-la é o silêncio pra cochiladinha depois que a gente descobre que está encrencada com a hora.

E o sono não apaga na mente a realidade do momento.

O real tem prioridades que o meu fastio com as eleições inventa de fechar a cara, pois os analistas projetam, por um mais um, que a parte significativa do eleitorado, que ajoelhará sem errar a reza nem mesmo ao imprecar pra cacete contra demônios que juntam pormenores sobre pormenores que mais confundem que explicam, esse quinhão exige de mãos juntas que tudo seja cobrado, tintim por tintim, a quem dorme no ponto.

Triiim! Triiim!

O alarme do celular soa como o clássico telefone de disco.

Triiim! Triiim!

Seu Rodrigues, o histórico do momento pede coragem para ficar na soneca a cada cinco minutos? Deixe-se ficar ou desligue-a.

Triiim!

Deve ser porque ando bebendo muita água que estou com sono, e não julgo correto dizer que quem quer dormir um pouquinho mais seja um camarada preguiçoso.

Sujeito preguiçoso encara dois litros de água por dia?

A água limpa o corpo, tira do sangue as toxinas e conduz o oxigênio ao cérebro sem maior consumo de energia; e o menor gasto de energia permite à mente trabalhar melhor sem que o cansaço prevaleça.

Logo, o sono é por esgotamento mental, não por fadiga.

Quando estou fatigado, procuro dormir na posição que nem me faça sentir o travesseiro, o colchão, os cobertores e a bexiga.

E o danado do diabo que se mija de tanto rir?

A consciência sabe o que é preciso pra conservar o colchão seco.

Já a fronha fica babada, porque sonho de boca aberta. Ao visualizá-la salivante, digo-a asquerosa, assaz nojenta, demais repugnante.

Fecha-se o círculo: pela visão, eu babo ainda mais.

É pela boca que demonstro a minha satisfação pelo copo d’água ao lado do celular. Algo útil, porque me socorre quando ronco até secar a garganta. É recurso que aprendi a utilizar de modo racional.

Como prefiro passar a noite sem consultar a hora, gosto de sonhar com o copo cheio, e eu babo que dá gosto.

Para que cinzeiro no criado-mudo se não fumo?

Acredito que o inconsciente até queira aprontar. Mas a memória dá a entender que piada contada de trás pra frente perde a graça. Mas a ansiedade, mal a história comece a ser contada, ainda que de trás para frente, a ânsia faz rir ꟷ de nervoso, mas faz.

Triiim! Triiim!

Pra neutralizar suposições disparatadas, falta dizer que achara que tinha acordado, desligado o alarme e me ligado na TV, mesmo com o quarto a recender a orégano às seis da madruga.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de outubro de 2022.

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