O
lápis
Tenho um gênio terrível?
Uma vez que nem o almoço atrasa porque
refugo alterar o cardápio tendo as panelas no fogo nem o açúcar em demasia põe-me
suarento depois do jantar, a minha alma pacificada prepondera.
Em dias assim, não há terror que me descalibre
o humor.
O que me estimula a sentir o mundo de
modo sereno, a aceitá-lo tal qual a mim ele se apresenta, é cuidar do momento,
sem me preocupar que eu bufe por ninharia ou nem note que não respiro pela
boca.
Pretensamente, pacifica-me pensar um pouco
menos.
No vazio de outra tarde sem tarefas, um
lápis calha de orientar-me para uma diversão singela: rabiscar.
Não sei desenhar. Se copiasse quem admiro,
adestraria a mão.
A mão treinada de gente sem talento torna
indisfarçável que não se aprimora o que não se tem, revela-se a vocação para
simulacros.
Talvez eu aproveitasse melhor a folha em
branco se a cobrisse com palavras. Se eu escrevesse alguma crônica ligeira,
certamente poderia me contentar, porém não busco contentamentos.
Nem escrevendo que rabiscos são rabiscos
nada mais que rabiscos num papel outrora em branco, tal redundância não me
alegraria.
Como o coração palpita tranquilo e a
cachola matuta sem astúcias, meus pensamentos assobiam melodias como nuvens.
Compondo e recompondo, traçando e
traçando, não ponho a árvore ao lado da casinha com chaminé, pois não quero que
as minhas curvas e retas arremedem a realidade bucólica de uma criança feliz.
A ideia de que sou feliz feito criança é
um pensamento bom.
Bom para mim que rabisco como se a folha
fosse o céu; e nele vejo um sol virar flor, a flor virar cachorrinho, o
cachorrinho virar um homem de palito que vira nuvem; e nuvens que não param se
transformam.
Minha carranca é faceira. Faço caretas,
ponho a língua de fora, ergo o mindinho, sorrio, grunho baixinho: me entusiasma
desenhar.
Não é porque meus borrões vão surgindo e
adensando-se que me sopro pelas fumaças de Rembrandt, Monet, Pollock. Daria por
ridículo se me desanuviasse em artista, que nunca fui nem sou.
Sem afobação, sem supor rancores nem
ardores e sem me inflamar pelo que deveria estar sentindo como brasa, desenho,
desenho, e tudo muda porque minha mão é viva, não se detém no desenhado.
Tanto serena desenhar, que nem temo o
estilete ao apontar o lápis, aponto-o e pronto, sigo numa alegria benfazeja.
Não percebo nem preciso perceber, mas continuo
esse menino que acha divertido passar a tarde sem fazer nada que não seja usar
o lápis como lápis.
Criança afeita a parir caraminholas sem
se vexar de tê-las no papel, me identifico com esse menino caraminholado.
Criança que sempre gostou de traçar
linhas sem direção e sentido obrigatórios, fico sossegado, tão sossegado, que
nem sinto vontade de tomar café com biscoito.
A tarde está quieta e pouco
amedrontadora, mas nem assim eu me retrato outro menino, menos abstrato.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de outubro de 2022.
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