domingo, 30 de outubro de 2022

Bisnaguinha, bisnaguinha

 

Bisnaguinha, bisnaguinha

 

Firme na campanha por tripas menos assanhadas, tenho para hoje que me satisfaço nesse desejo de comer bisnaguinha.

Sem exagero, não resisto. Corro comprá-la porque não espero para comer bisnaguinha, trago-a, como-a. Até sem café, gosto de comê-la.

Ou isso ou acabaria em suposições, nas expectativas frustradas de quem gosta de dizer que sofre o que não sofre, mesmo que nem tenha medo de matar a vontade.

Eu não mato nada, nem mesmo as minhas vontades.

À vontade com o que penso: sacio o desejo, não o mato, pois desejo não some porque o satisfaço ao dar-lhe em objeto o que o funde.

Vou fundo no prazer de saciar a vontade de comer bisnaguinhas. E o pacote está à disposição, o tempo não me atropela. Posso ir fundo e não recuo de gostar de comê-las. E uma a uma, como-as.

Não mato a vontade porque não me desejo violento.

Espero que me tenha feito entender pelo que disse, que as marcas de violência estão à vista, pelo quê? Por me recusar a dizê-las.

‘Matar a vontade’ é fala que não uso.

Como pessoa que não sustenta a violência e dela não se alimenta, creio que permaneço sob controle, pacificando-me até onde sei que eu posso alcançar com as esperanças de gente ponderada.

Digo que me vejo como essa pessoa sincera que reconhece o valor de quem inventou a bisnaguinha. E não apenas, uma vez que também houve quem a pôs à venda, quem a aprimorou e quem se empanturrou dos lucros.

Não me sujeito a vender aos outros a ideia de que vou deixar para comer mais tarde a bisnaguinha que posso comer agora.

Não sou mesquinho quando não como por gula. Que o pacote ainda tenha bisnaguinhas pro lanchinho noturno, isso me agrada.

Gosto de me deitar depois de golinhos de café. Contentam-me dois dedinhos daquele que a garrafa térmica nem manteve quente.

Eu não me admoesto por deitar-me satisfeito com uma bisnaguinha comida sem pressa. Porque posso comê-la sossegado, gosto de ir pra cama sem achar que estarei faminto de madrugada.

Agrado-me ao pensar que a saciedade é um sentimento bom, pois me alegra, faz meu espírito sopesar os ânimos conflitantes.

Se como além da conta, contrario quem eu quero aparentar ser. Me complico ao dar aos demais a imagem de gente que come bisnaguinha como quem gosta tanto que, pela gula dos olhos, pouco sabe dominar-se.

A bisnaguinha não me domina. Sei que não, pois eu a mastigo sem fazer cara de que estou gostando de mastigá-la. Até porque nem passa por mim o pensamento de contar depois de quantas mastigadas engulo a bisnaguinha abocanhada.

Ao fim e ao cabo, comprei bisnaguinhas, mordi-as, mastiguei-as, e mastiguei-as tanto que nem precisei sentir a mente surpreender-me ao fabricar bisnaguinhas que nem sabia que estivessem faltando.

Considerando o que nem pensei que me faltasse, falto-me. Todavia não quero que as bisnaguinhas estraguem, porque acho bom não jogá-las fora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de outubro de 2022.

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