O
caos nosso
O vizinho trouxe um balde com
garrafinhas e sentou-se na cadeira de vime. A sua varanda não o isolava e, depois
de uma semana de céu cinzento, só os infelizes fechavam a cara, a desdenhá-lo
pelo privilégio de beber antes do meio-dia.
Fumando as baganas que alcançava sem tirar
a bunda do lugar, o homem tinha muito no que pensar. O curativo da canela
precisava ser trocado; as unhas estavam compridas; além de imundas, suas roupas
fediam a urina; desde outro dia, começou uma coceira que a cabeleira não
deixava ver se eram lêndeas que a provocavam.
Do outro lado da rua, duas jovens
arrancavam matos das jardineiras quando um grupo veio entregar-lhes panfletos.
Elas agradeceram, mas não disseram os seus nomes. Que Deus abençoasse a todos,
a quem pedia-lhes que aceitassem panfletos e orações personalizadas e a elas
que estavam empenhadas em limpar as suas roseiras.
Do outro lado da rua, também surgiu um
grupo que ia entregando o mesmíssimo material e ia solicitando nomes para
orações.
Sentado no meio-fio, ao homem que
desmontara a sua barraquinha quando o joão-de-barro começou a cantar no alto do
poste não lhe foi lido trechinho algum do Novo Testamento nem a ele foi
perguntado por que as suas coisas todas cabiam na mochila ao pé do poste.
As pessoas dirigiram-se ao homem que
bebia cerveja na varanda e ofereceram-lhe os panfletos, pediram autorização pra
pôr seu nome na oração da noite e vendiam os livros que eram fonte confiável de
ações cristãs, e verdadeiras pechinchas.
Da varanda, o vizinho disse o nome,
desejou boa sorte com a venda dos manuais e que a tarde fosse mais
bem-aventurada que a manhã.
Pela banda de lá e pela de cá, compenetrados
em passar a Palavra a quem a acolhesse, os homens e as mulheres iam devagarinho.
Como o casal da casa ao lado da minha
tinha deixado o quintal, a mulher que aparentava ser a mais jovem do grupo não
pediu ordem a ninguém para enfiar, dobrados, na caixa de correio alguns folhetos
que fora encarregada de divulgar.
Sem intenção de receber agrados do homem
sentado na sarjeta, o vira-lata cotó foi direto à esquina, uma vez que seu
olfato o tinha guiado à cadela acochada por uma cachorrada muito entusiasmada.
Se ficasse nisso, noutra manhã de sábado
como outra qualquer, eu nem teria atravessado a rua, mas aceitei o convite
quando vi o vizinho da frente abrindo passagem àquele vagamundo.
Sentamos os três e conversamos. Bebemos
e soltamo-nos.
Menos constrangido, o nosso mais recente
vizinho disse que estava cansado de ficar drogado. A sua mudança para esta rua
foi necessária, pois ele queria parar com “ganja e caninha”. Se conseguisse dominar-se,
os filhos viriam vê-lo, pois birita o transtornava, deixava-o intratável, violento,
exemplo da pior espécie.
Foi a essa altura que a conge do dono da
casa apareceu pra acabar com a nossa festinha na varanda.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 16 de outubro de 2022.
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