domingo, 16 de outubro de 2022

O caos nosso

 

O caos nosso

 

O vizinho trouxe um balde com garrafinhas e sentou-se na cadeira de vime. A sua varanda não o isolava e, depois de uma semana de céu cinzento, só os infelizes fechavam a cara, a desdenhá-lo pelo privilégio de beber antes do meio-dia.

Fumando as baganas que alcançava sem tirar a bunda do lugar, o homem tinha muito no que pensar. O curativo da canela precisava ser trocado; as unhas estavam compridas; além de imundas, suas roupas fediam a urina; desde outro dia, começou uma coceira que a cabeleira não deixava ver se eram lêndeas que a provocavam.

Do outro lado da rua, duas jovens arrancavam matos das jardineiras quando um grupo veio entregar-lhes panfletos. Elas agradeceram, mas não disseram os seus nomes. Que Deus abençoasse a todos, a quem pedia-lhes que aceitassem panfletos e orações personalizadas e a elas que estavam empenhadas em limpar as suas roseiras.

Do outro lado da rua, também surgiu um grupo que ia entregando o mesmíssimo material e ia solicitando nomes para orações.

Sentado no meio-fio, ao homem que desmontara a sua barraquinha quando o joão-de-barro começou a cantar no alto do poste não lhe foi lido trechinho algum do Novo Testamento nem a ele foi perguntado por que as suas coisas todas cabiam na mochila ao pé do poste.

As pessoas dirigiram-se ao homem que bebia cerveja na varanda e ofereceram-lhe os panfletos, pediram autorização pra pôr seu nome na oração da noite e vendiam os livros que eram fonte confiável de ações cristãs, e verdadeiras pechinchas.

Da varanda, o vizinho disse o nome, desejou boa sorte com a venda dos manuais e que a tarde fosse mais bem-aventurada que a manhã.

Pela banda de lá e pela de cá, compenetrados em passar a Palavra a quem a acolhesse, os homens e as mulheres iam devagarinho.

Como o casal da casa ao lado da minha tinha deixado o quintal, a mulher que aparentava ser a mais jovem do grupo não pediu ordem a ninguém para enfiar, dobrados, na caixa de correio alguns folhetos que fora encarregada de divulgar.

Sem intenção de receber agrados do homem sentado na sarjeta, o vira-lata cotó foi direto à esquina, uma vez que seu olfato o tinha guiado à cadela acochada por uma cachorrada muito entusiasmada.

Se ficasse nisso, noutra manhã de sábado como outra qualquer, eu nem teria atravessado a rua, mas aceitei o convite quando vi o vizinho da frente abrindo passagem àquele vagamundo.

Sentamos os três e conversamos. Bebemos e soltamo-nos.

Menos constrangido, o nosso mais recente vizinho disse que estava cansado de ficar drogado. A sua mudança para esta rua foi necessária, pois ele queria parar com “ganja e caninha”. Se conseguisse dominar-se, os filhos viriam vê-lo, pois birita o transtornava, deixava-o intratável, violento, exemplo da pior espécie.

Foi a essa altura que a conge do dono da casa apareceu pra acabar com a nossa festinha na varanda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de outubro de 2022.

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