terça-feira, 25 de outubro de 2022

Burburinho

 

Burburinho

 

Saio de casa assim que tenho vontade de unhar a parede do quarto. Não ficarei andando de lá para cá, como se fosse capaz de manter as mãos às costas. Com a casa carecendo de ser pintada, sofrerei o diabo sem o rangido das unhas contra as paredes.

Já que não desejo ver sangue, vou dar uma volta.

Pensando sem medo de transmitir a mensagem errada, esse atrito não serve para afiá-las nem nada tem que ver com as unhas poderem crescer como os cílios das coristas que só dançam samba de uma nota só, que não é nota de repúdio depois de crime cometido.

Piscar o olho dissimula, e mais pronuncia a fraude.

Sem ouvir unhas contra a parede, é normal querer escutar a grama deslocando um milímetro para cima a brisa da alvorada.

Não negarei que zanzar ajuda a descansar das grandes angústias e dos sofrimentos menores. Sim, caminhar ao bel-prazer da cachola é uma forma de tranquilizar-me.

Vago na maior tranquilidade, pois a luz da manhã não me cega, não me desnorteia, não me dispõe à direção do abismo. Aliás, posso beirar o precipício e, com medo, ouvir-lhe o burburinho.

Parece aquele zunzunzum tão familiar.

Penso no pernilongo que fica preso no quarto. Chego a conjecturar que pernilongos fogem do frio correndo pra dentro. Antecipo as ânsias desses insetos, tranco a porta bem antes do crepúsculo, por volta das quatro, pra que pernilongos, siriris e içás não entrem. Mas o zunido não faz com que a porta seja aberta antes do próximo crepúsculo.

Além de mim, o ruído incomoda os monstros que vivem embaixo da cama. Se ignorasse o bicho picando a minha orelha, poderia nanar que nem nenê depois de mamar.

E nanar assim me deixa muito a fim de escrever uma crônica leve, pois estou potente de palavras amenas. Quero palavras que afetem as pessoas e a mim sem causar alvoroço. Como quem tira uma coleira da mente, não me vejo um cão a espumar contra o mundo.

Tomado de raiva, melhor grunhir sem testemunhas.

Antes de digitar a crônica, rascunho-a. Para rascunhá-la, deixo que a mente não amarre meus pensamentos como cão preso a corrente.

Há situações em que é preferível ouvir poetas em vez de pacóvios. Porque poetas põem a girar estrelas, planetas e luas, suas noites não apagam o sol da manhã.

Se mapas, bússolas e contos apontam pro norte, no firmamento do horizonte, o céu dá poesia.

Sim, estou resolvido a entregar-me ao ócio, a recriar-me ocioso.

Saio. Gosto de zanzar. Salvo engano, zanzo quieto.

Encanto-me com as pessoas, mas há quem desconfie de mim. Sou olhado de soslaio, pois associam as olheiras à caça a pernilongos.

E sentado debaixo de uma árvore, ouço passarinhos cantando.

Quando cantam, procuro-os entre os galhos. Gosto de sentar-me à sombra de uma árvore, assim me dedico a achá-los. Mas a frustração de continuarem cantando sem que eu os veja é uma realidade que me chateia, e tanto me acabrunha que nem quero pensá-la.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de outubro de 2022.

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