Burburinho
Saio de casa assim que tenho vontade de
unhar a parede do quarto. Não ficarei andando de lá para cá, como se fosse
capaz de manter as mãos às costas. Com a casa carecendo de ser pintada,
sofrerei o diabo sem o rangido das unhas contra as paredes.
Já que não desejo ver sangue, vou dar
uma volta.
Pensando sem medo de transmitir a
mensagem errada, esse atrito não serve para afiá-las nem nada tem que ver com
as unhas poderem crescer como os cílios das coristas que só dançam samba de uma
nota só, que não é nota de repúdio depois de crime cometido.
Piscar o olho dissimula, e mais
pronuncia a fraude.
Sem ouvir unhas contra a parede, é normal
querer escutar a grama deslocando um milímetro para cima a brisa da alvorada.
Não negarei que zanzar ajuda a descansar
das grandes angústias e dos sofrimentos menores. Sim, caminhar ao bel-prazer da
cachola é uma forma de tranquilizar-me.
Vago na maior tranquilidade, pois a luz
da manhã não me cega, não me desnorteia, não me dispõe à direção do abismo.
Aliás, posso beirar o precipício e, com medo, ouvir-lhe o burburinho.
Parece aquele zunzunzum tão familiar.
Penso no pernilongo que fica preso no
quarto. Chego a conjecturar que pernilongos fogem do frio correndo pra dentro.
Antecipo as ânsias desses insetos, tranco a porta bem antes do crepúsculo, por
volta das quatro, pra que pernilongos, siriris e içás não entrem. Mas o zunido não
faz com que a porta seja aberta antes do próximo crepúsculo.
Além de mim, o ruído incomoda os
monstros que vivem embaixo da cama. Se ignorasse o bicho picando a minha orelha,
poderia nanar que nem nenê depois de mamar.
E nanar assim me deixa muito a fim de
escrever uma crônica leve, pois estou potente de palavras amenas. Quero
palavras que afetem as pessoas e a mim sem causar alvoroço. Como quem tira uma
coleira da mente, não me vejo um cão a espumar contra o mundo.
Tomado de raiva, melhor grunhir sem
testemunhas.
Antes de digitar a crônica, rascunho-a.
Para rascunhá-la, deixo que a mente não amarre meus pensamentos como cão preso
a corrente.
Há situações em que é preferível ouvir
poetas em vez de pacóvios. Porque poetas põem a girar estrelas, planetas e
luas, suas noites não apagam o sol da manhã.
Se mapas, bússolas e contos apontam pro
norte, no firmamento do horizonte, o céu dá poesia.
Sim, estou resolvido a entregar-me ao
ócio, a recriar-me ocioso.
Saio. Gosto de zanzar. Salvo engano,
zanzo quieto.
Encanto-me com as pessoas, mas há quem
desconfie de mim. Sou olhado de soslaio, pois associam as olheiras à caça a
pernilongos.
E sentado debaixo de uma árvore, ouço
passarinhos cantando.
Quando cantam, procuro-os entre os
galhos. Gosto de sentar-me à sombra de uma árvore, assim me dedico a achá-los.
Mas a frustração de continuarem cantando sem que eu os veja é uma realidade que
me chateia, e tanto me acabrunha que nem quero pensá-la.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de outubro de 2022.
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