A
céu aberto
Se a mim me fosse permitida a alegria de
organizar uma noite de pizza, sem alimentar dores de cabeça, assim comporia a
mesa: a mãe numa das pontas; num lado o meu irmão e a minha cunhada no outro; eu
ficaria na outra cabeceira.
Quanto ao meu sobrinho, já que, nos seus
bem-vividos treze anos, o rapazote pratica o isolamento, físico, detonando
cabecinhas, virtuais, às centenas por dia, ele merece umas palavrinhas a mais.
Como tiozão hipócrita, haveria de
condená-lo, uma vez que enxergo nesta sua prática, de horas e horas a fio, o
mesmo tipo de adolescente que um dia já fui. Todavia, em vez de aniquilar a
realidade circunstante ressecando os olhos cativados na tela de computador, eu
costumava incendiar a massa cinzenta de carona no tapete mágico de Xerazade.
Em outras palavras, não dou asas ao
menino doido que há em mim, pois a época pede maturidade, juízo e compromisso
com os próximos. Por respeitar os demais quanto a mim mesmo, não vou tirar a
máscara da criança desmiolada que deixa a virulência humana dar campo livre ao
vírus da carnificina genocida. Pra não ir junto, seguro a língua e não solto a
mão suicida. Ou seja, não vou às nuvens por nenhum voo cego.
Isso tudo para dizer que tenho declinado
quando me convidam para almoço íntimo da família, café somente com os amigos
mais chegados, um vinhozinho seleto entre amantes emocionalmente comedidos.
Cansado, ando me calando mais do que
pudesse imaginar ser-me possível. Tenho percebido que circunstâncias de acidez amargosa
têm prevalecido. Tenho sentido a boca cheia de sal, e isso me põe cabreiro,
tanto que evito petrificar o espelho com esta minha face de ranzinza. Sinto
certa urgência em encontrar um modo de aquietar a minha verve de bonachão que
sabe como avivar nas cinzas o que as brasas querem muito bem escondidinho, o tirador
de sarro.
Como as pessoas se desentendem
conversando, prefiro tirar o meu burro da chuva. Não me empolgo com as
discussões pouco amigáveis que volta e meia pipocam entre gente que julgava ponderada,
de bem com a vida e ótima companhia nas madrugadas sem luar.
Fulano diz que o político A acha que a
esquerda tem estofo moral para detonar o político B pela postura negacionista
diante da epidemia. Beltrano fulmina com emojis enfurecidos esta postura de
quem se acha na posição A só porque repete chavões pseudocientíficos fabricados
pela mídia politizada. Sicrano, contudo, opta por não acompanhar nem um nem
outro, pois a realidade vai do A ao Z, que existe ainda que os sabidos omitam o
trágico deste mundão.
Abracadabra!
Estressado, encaro o meu fogo. Não apago
a vaidade, apenas saio do aplicativo.
Antes que suma a imagem de fundo do
celular, a Nebulosa do Véu, penso: somos átomos, mas não simplesmente uns átomos
quaisquer, somos uma aberração no cosmo, somos átomos com micro-ondas pra
esquentar o leitinho.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de junho de 2021.