Galo
aberto
A janela era pequena, parecia menor
que um metro. Não bastasse o tamanho minúsculo, desproporcional à face de pedra
em que se via incrustrada, uma das suas metades, do centro pra direita, exibia
uma cortina abreviando-lhe a abertura.
E poderíamos ir além do pano coberto
de figuras. Reparando bem, uns pequenos beija-flores, pretos sobre fundo
laranja. Algo relevante, de imagem sóbria.
Fixemos a nossa atenção na parte nua.
Mais, tenhamos a audácia de ir pela fenda. Há luz, provavelmente de uma vela.
Mesmo que não haja quem nos dê permissão
expressa de sondar o seu derredor, imaginemos o que possa estar iluminando.
Que coisa. Por algum motivo, recuamos.
Um gato miando na vizinhança? Um
bêbado proclamando pragas?
Uma distração.
Ainda que a curiosidade com aquele
recanto parcialmente exibido por meio metro de visibilidade funcione como ímã,
a nós outros que aqui estamos observando, prefiramos calar quanto às relações
dos seres vivos com os objetos do recinto.
Mantenhamos a cautela de não saborearmos
outros dissabores.
Temos nossas obrigações históricas e políticas;
no entanto, que a nossas fabulações não extrapolemos, que isso nos impeça de supor
o que não ouvimos dali, além da janelinha simples sobre o caos.
Fiquemos nessa presença. De uma distinção
acusatória.
Não sei quanto a você, mas me desgosta
tomar alguma correção pelo constrangimento do dedo levantado como se algum
limite tivesse sido desrespeitado. Vindo o pito, acabrunho-me, dá-me um calor,
fico vermelho; vendo o efeito, quem pensa corrigir a falha com o gesto de
autoridade cutuca a ferida, como se adviesse um aprendizado besta.
Mas a pessoa bestificada, bestificada ela
fica.
Onde a linha imaginária foi cruzada?
Se imaginada, invisível. Se a mim não me serve de barreira a não ser
transposta, como evitá-la?
Pessoa comum, como qualquer que
enfrenta os problemas com a dignidade dos tranquilos, posso presumir que me
julgam prejudicado de algum modo pelo juízo, incapaz de avaliar a minha falta,
já que a cometi metendo o nariz onde não deveria.
Respiro fundo. Olho a janela. E a luz ignora
o mundo de cá, fora.
Como isso me atordoa.
E penso: antigamente era ainda um
instante querendo tornar-se o passado perfeito, só que não passava. E,
perdurando, segue sendo a escuridão que meus braços cegos não medem o
suficiente para evitar a testa no batente.
Acidental, o presente que continua a
se tornar insuperável por não distinguível do corpo que sinto; lugar em que me
vejo circunstanciado por sensações, e abstrações correlatas.
É óbvio: canta latejante o galo, querendo
gelo.
No aturdimento da ideia, o oxigênio
escasseia, o sangue engrossa e os joelhos pedem o chão. Seguro a lágrima, que não
descarregaria a vergonha do engano, do cálculo que não muda a porta um palmo.
Aliás, galos abrem as manhãs, não
janelas.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de setembro de 2020.