domingo, 20 de setembro de 2020

O chão do amor

 

O chão do amor

 

Dispenso ao tolo perguntar: o Brasil ainda existe?

A hora é grave, a mim não me convém responder pelas pessoas. Por gravíssima, aliás, nem mesmo hei de ousar resposta, qualquer ou específica.

Especializada. Particularizada. Meticulosamente, organizada.

Por brasileiríssimo, erraria, todavia, ao privar-me dizê-lo: este país está na fauna e na flora; pelas relações alimentares em inter-relações intempestivas ou extemporâneas, organismo vivo.

Fixe-se a ideia.

O micróbio que luta neste estômago murcho (mesmo que forrado de vez em quando) come o bife que apressadamente mastiguei (com os meus possantes dentes: obturados ou postiços) no almoço com os respeitáveis representantes (pessoas a pôr ordem às semânticas) da sociedade, em algum evento (civil ou paramentado) digno de menção numa de minhas recentes notícias (cronicamente assimétricas, posto que resta a mim escrevê-las ou padeceriam no vazio) ao mundo, para que se mantenha funcionando, com milhões de milhares de bactérias (mais os bilhões de seres nanométricos) a trabalhar (reputo possível a interferência do que, ô vida, aspiro) pela realidade.

Porque é justamente aqui, definido por longitude e latitude, que há tal chão florescido substantivo que bem o nomeia único: Brasil.

Não fraquejarei. Ainda que a orquídea de tantas contendas muito evocadas interrompa o trânsito de tantas timidezes, terei franqueza.

O momento é decisivo, e decididamente é preciso dar um basta, e que seja bastante efetivo. Faz-se a hora de avivar o pensamento; dar corpo próprio ao entusiasmo; amá-lo casto no visível das uniões; ao palanque do Chuí ao Oiapoque, trazê-lo palpitante; coordená-lo mais otimista; louvável de jeito e maneira; com a cara de muita gente.

Quando falo de gente, ando falando de quem?

Gente, em demasia sofrida, assaz brasileira na variedade de suas esperanças, adrede impávida apesar das derrotas, álacre jovial nos seus pecadilhos, verdemente imberbe pros fios gris da vilania.

Avante!

Venha à luz o sol de Ipanema. Suba ao luar a viola pantaneira.

O país livre de promessas precárias. A nação libertada de alianças predatórias. Pátria libertadora que refuta o boçalismo das castrações.

Basta de espasmos ácidos, flácidos e ciclotímicos.

Faça-se ao justo a honra do amor ao próximo. Possa o operário as obras de uma vida saudável. Colha o rizicultor mais que a palha das suas tarefas. Cresça no tíbio a voz da sua confiança. Que a juventude abrace a senectude sem roaz desafeto.

Neste instante de palavras sinceras, a honestidade desta verdade: é estúpido dar megafone a quem surta na calada do susto.

Não há mágica que esconda no truque o turbante do falaz?

A verdade seja dita. Seja, de fato, explícita. De fato, óbvia.

Que eu grite; que você possa gritar; por isso, então, gritemos:

─ O mocotó é nosso!

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 20 de setembro de 2020.

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