O
chão do amor
Dispenso ao tolo perguntar: o Brasil
ainda existe?
A hora é grave, a mim não me convém
responder pelas pessoas. Por gravíssima, aliás, nem mesmo hei de ousar
resposta, qualquer ou específica.
Especializada. Particularizada. Meticulosamente,
organizada.
Por brasileiríssimo, erraria, todavia,
ao privar-me dizê-lo: este país está na fauna e na flora; pelas relações
alimentares em inter-relações intempestivas ou extemporâneas, organismo vivo.
Fixe-se a ideia.
O micróbio que luta neste estômago murcho
(mesmo que forrado de vez em quando) come o bife que apressadamente mastiguei
(com os meus possantes dentes: obturados ou postiços) no almoço com os respeitáveis
representantes (pessoas a pôr ordem às semânticas) da sociedade, em algum
evento (civil ou paramentado) digno de menção numa de minhas recentes notícias
(cronicamente assimétricas, posto que resta a mim escrevê-las ou padeceriam no
vazio) ao mundo, para que se mantenha funcionando, com milhões de milhares de bactérias
(mais os bilhões de seres nanométricos) a trabalhar (reputo possível a interferência
do que, ô vida, aspiro) pela realidade.
Porque é justamente aqui, definido por
longitude e latitude, que há tal chão florescido substantivo que bem o nomeia
único: Brasil.
Não fraquejarei. Ainda que a orquídea
de tantas contendas muito evocadas interrompa o trânsito de tantas timidezes,
terei franqueza.
O momento é decisivo, e decididamente
é preciso dar um basta, e que seja bastante efetivo. Faz-se a hora de avivar o
pensamento; dar corpo próprio ao entusiasmo; amá-lo casto no visível das uniões;
ao palanque do Chuí ao Oiapoque, trazê-lo palpitante; coordená-lo mais otimista;
louvável de jeito e maneira; com a cara de muita gente.
Quando falo de gente, ando falando de
quem?
Gente, em demasia sofrida, assaz
brasileira na variedade de suas esperanças, adrede impávida apesar das
derrotas, álacre jovial nos seus pecadilhos, verdemente imberbe pros fios gris
da vilania.
Avante!
Venha à luz o sol de Ipanema. Suba ao
luar a viola pantaneira.
O país livre de promessas precárias. A
nação libertada de alianças predatórias. Pátria libertadora que refuta o boçalismo
das castrações.
Basta de espasmos ácidos, flácidos e ciclotímicos.
Faça-se ao justo a honra do amor ao
próximo. Possa o operário as obras de uma vida saudável. Colha o rizicultor
mais que a palha das suas tarefas. Cresça no tíbio a voz da sua confiança. Que
a juventude abrace a senectude sem roaz desafeto.
Neste instante de palavras sinceras, a
honestidade desta verdade: é estúpido dar megafone a quem surta na calada do
susto.
Não há mágica que esconda no truque o
turbante do falaz?
A verdade seja dita. Seja, de fato,
explícita. De fato, óbvia.
Que eu grite; que você possa gritar; por
isso, então, gritemos:
─ O mocotó é nosso!
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 20 de setembro de
2020.
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