Precisão
Há prazeres civilizados que prosperam com
maior facilidade nas pessoas que separam o joio do trigo só pelo faro. Experientes
de tal forma que as condições de cada estação entram a orientar o sentido de
sua estada no mundo sem pânicos nem desesperos. Satisfeitas da vida, mais
acentuadamente com a passagem da seca do inverno pra umidade da primavera, sorriem
feito ipês amarelos, roxos, vermelhos, azuis, uma palheta de irradiações tão esplendorosas
que a realidade oferece a quem esteja perceptivo a tamanhos maravilhamentos.
A sabedoria vem pela atenção às coisas
da vida. Geralmente, nas pressas disso agora e daquilo pra ontem, a boca
engruvinha de tensa e o olho pisca inventando cisco. Vê-se que dá trabalho ir
vivendo.
Portanto, sábio não cochila debaixo de
jaqueira carregada.
Contudo, tem quem goste de criticar só
pra manter a posição que julga ter.
E como havia o que pensar depois
daquele almoço, com a família reunida em torno das contrariedades. Sobrando
passar pito no genro perdulário, a remendar dos maltrapilhos da netinha
predileta. E assim, falta sal no talharim; e assado, é muito alho no frango.
A cabeça do sujeito estava neste
estado, vítima de aflições vindas de roldão. Pressentindo o angu virado da congestão,
saiu.
Foi caminhar.
Pra respirar em paz, andava devagar. Tinha
de sentir-se calmo.
Queria deixar-se à solta pelo mundaréu
de árvores, que nem sabia os nomes. Ouvia a passarinhada, gostando bem.
Homem da cidade, aquilo entrava pelos
nervos, tirando o peso na pegada. Mas, precisando provar concreto o terreno
pisado, cuidando não cair nem nada, firmava o pé num caminho já trilhado.
Respirando o úmido da relva, apurava o
senso, que nem percebia.
De repente, talvez por sugestão da
mata tão viva em diversidades de planta e bicho, deu com um cajueiro exercendo
a clareira de sua beleza, como uma história antiga.
Diante do insólito da abundância de cajus, ruminou contar-se que eram três homens. Cada qual pegou resolver o que tinha de dar cabo.
O primeiro plantou uma mangueira na frente da casa. Prevendo as mangas madurinhas, fez uma escada. Quando a árvore
estava cheia de frutos vistosamente suculentos, nem pôde erguê-la, uma vez que tinha
dado cupim.
O segundo virou um touro de bravo
porque ficou sem TV. Da noite pro dia, por conta do vento forte, a parabólica
rodou que não pegava canal algum. Pra piorar, gastou um dinheirão com escada pronta.
O terceiro dos homens, esse plantou
uma pereira. Foi podando de tempos em tempos, acompanhou o crescimento da
planta. Confirmou na internet a época certa pras peras serem colhidas. Cortou
galhos e preparou a madeira, fez a sua escada. E curtiu comer no pé uma fruta
mais gostosa que a outra.
Ô caminhada.
Ainda que não tenha ido muito longe
com o domingo, justamente, salivava azedo o creme de leite das goiabas da
cachola.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de setembro de 2020.
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