domingo, 27 de setembro de 2020

Precisão

 

Precisão

 

Há prazeres civilizados que prosperam com maior facilidade nas pessoas que separam o joio do trigo só pelo faro. Experientes de tal forma que as condições de cada estação entram a orientar o sentido de sua estada no mundo sem pânicos nem desesperos. Satisfeitas da vida, mais acentuadamente com a passagem da seca do inverno pra umidade da primavera, sorriem feito ipês amarelos, roxos, vermelhos, azuis, uma palheta de irradiações tão esplendorosas que a realidade oferece a quem esteja perceptivo a tamanhos maravilhamentos.

A sabedoria vem pela atenção às coisas da vida. Geralmente, nas pressas disso agora e daquilo pra ontem, a boca engruvinha de tensa e o olho pisca inventando cisco. Vê-se que dá trabalho ir vivendo.

Portanto, sábio não cochila debaixo de jaqueira carregada.

Contudo, tem quem goste de criticar só pra manter a posição que julga ter.

E como havia o que pensar depois daquele almoço, com a família reunida em torno das contrariedades. Sobrando passar pito no genro perdulário, a remendar dos maltrapilhos da netinha predileta. E assim, falta sal no talharim; e assado, é muito alho no frango.

A cabeça do sujeito estava neste estado, vítima de aflições vindas de roldão. Pressentindo o angu virado da congestão, saiu.

Foi caminhar.

Pra respirar em paz, andava devagar. Tinha de sentir-se calmo.

Queria deixar-se à solta pelo mundaréu de árvores, que nem sabia os nomes. Ouvia a passarinhada, gostando bem.

Homem da cidade, aquilo entrava pelos nervos, tirando o peso na pegada. Mas, precisando provar concreto o terreno pisado, cuidando não cair nem nada, firmava o pé num caminho já trilhado.

Respirando o úmido da relva, apurava o senso, que nem percebia.

De repente, talvez por sugestão da mata tão viva em diversidades de planta e bicho, deu com um cajueiro exercendo a clareira de sua beleza, como uma história antiga.

Diante do insólito da abundância de cajus, ruminou contar-se que eram três homens. Cada qual pegou resolver o que tinha de dar cabo.

O primeiro plantou uma mangueira na frente da casa. Prevendo as mangas madurinhas, fez uma escada. Quando a árvore estava cheia de frutos vistosamente suculentos, nem pôde erguê-la, uma vez que tinha dado cupim.

O segundo virou um touro de bravo porque ficou sem TV. Da noite pro dia, por conta do vento forte, a parabólica rodou que não pegava canal algum. Pra piorar, gastou um dinheirão com escada pronta.

O terceiro dos homens, esse plantou uma pereira. Foi podando de tempos em tempos, acompanhou o crescimento da planta. Confirmou na internet a época certa pras peras serem colhidas. Cortou galhos e preparou a madeira, fez a sua escada. E curtiu comer no pé uma fruta mais gostosa que a outra.

Ô caminhada.

Ainda que não tenha ido muito longe com o domingo, justamente, salivava azedo o creme de leite das goiabas da cachola.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de setembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

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