terça-feira, 29 de setembro de 2020

Galo aberto

 

Galo aberto

 

A janela era pequena, parecia menor que um metro. Não bastasse o tamanho minúsculo, desproporcional à face de pedra em que se via incrustrada, uma das suas metades, do centro pra direita, exibia uma cortina abreviando-lhe a abertura.

E poderíamos ir além do pano coberto de figuras. Reparando bem, uns pequenos beija-flores, pretos sobre fundo laranja. Algo relevante, de imagem sóbria.

Fixemos a nossa atenção na parte nua. Mais, tenhamos a audácia de ir pela fenda. Há luz, provavelmente de uma vela.

Mesmo que não haja quem nos dê permissão expressa de sondar o seu derredor, imaginemos o que possa estar iluminando.

Que coisa. Por algum motivo, recuamos.

Um gato miando na vizinhança? Um bêbado proclamando pragas?

Uma distração.

Ainda que a curiosidade com aquele recanto parcialmente exibido por meio metro de visibilidade funcione como ímã, a nós outros que aqui estamos observando, prefiramos calar quanto às relações dos seres vivos com os objetos do recinto.

Mantenhamos a cautela de não saborearmos outros dissabores.

Temos nossas obrigações históricas e políticas; no entanto, que a nossas fabulações não extrapolemos, que isso nos impeça de supor o que não ouvimos dali, além da janelinha simples sobre o caos.

Fiquemos nessa presença. De uma distinção acusatória.

Não sei quanto a você, mas me desgosta tomar alguma correção pelo constrangimento do dedo levantado como se algum limite tivesse sido desrespeitado. Vindo o pito, acabrunho-me, dá-me um calor, fico vermelho; vendo o efeito, quem pensa corrigir a falha com o gesto de autoridade cutuca a ferida, como se adviesse um aprendizado besta.

Mas a pessoa bestificada, bestificada ela fica.

Onde a linha imaginária foi cruzada? Se imaginada, invisível. Se a mim não me serve de barreira a não ser transposta, como evitá-la?

Pessoa comum, como qualquer que enfrenta os problemas com a dignidade dos tranquilos, posso presumir que me julgam prejudicado de algum modo pelo juízo, incapaz de avaliar a minha falta, já que a cometi metendo o nariz onde não deveria.

Respiro fundo. Olho a janela. E a luz ignora o mundo de cá, fora.

Como isso me atordoa.

E penso: antigamente era ainda um instante querendo tornar-se o passado perfeito, só que não passava. E, perdurando, segue sendo a escuridão que meus braços cegos não medem o suficiente para evitar a testa no batente.

Acidental, o presente que continua a se tornar insuperável por não distinguível do corpo que sinto; lugar em que me vejo circunstanciado por sensações, e abstrações correlatas.

É óbvio: canta latejante o galo, querendo gelo.

No aturdimento da ideia, o oxigênio escasseia, o sangue engrossa e os joelhos pedem o chão. Seguro a lágrima, que não descarregaria a vergonha do engano, do cálculo que não muda a porta um palmo.

Aliás, galos abrem as manhãs, não janelas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de setembro de 2020.

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