Aqui
e agora
Muito bem. Pelo acaso, digamos que
você tenha estado num lugar dos sonhos, um bom paraíso, com tempo firme e
instável, calor e frio, sol e lua, ipês floridos na mata ribeirinha e grama boa
para uma cabra aqui e uma vaca ali, fora as galinhas pros ovos benfazejos nos
galhos de limoeiro, laranjeira ou abacateiro, menos na araucária apinhada de
pinhão, que o inverno merece café com pipoca. Já ia pondo de lado a casa
híbrida: pro frio de julho, tem a parte de alvenaria; e pro calor de fevereiro,
tem sala e cozinha de madeira, nada mais comum de achar em muito interior por
aí adentro. Puxa vida, parece que sua televisão, sua geladeira, a sua máquina
de lavar roupa, o seu ferro de passar, o telefone celular, o microcomputador, o
micro-ondas, e todas aquelas bugigangas não mencionadas, tudo dispensável, por
falta de luz.
Mas tal prosperidade, assim como veio,
evaporou-se.
Você está de volta ao seio da
civilização, de acordo com o modelo de um ocidente europeu com toques asiáticos
e africanos. Todavia, o regresso deixará de provocar dores e espantos abissais,
passando-se por cima de sutilezas e pormenores que particularizam cada pessoa.
Grosso modo, há de ignorar vieses.
Ter sua vida posta outra vez nos eixos
do progresso irritantemente tecnológico, da ordem monetária especulativa, dos
modos massivos a ditar o errado pelo certo, das coletividades maquiadoras de
indivíduos e de um estado demográfico que endireita. Em outras palavras, terá
você tirado a sorte grande de ir viver de novo no hospício controlado pelo
Simão Bacamarte erigido em contraindicações, por dar excesso à razão ou abusar
das ervas?
Nestas circunstâncias, alguém diz para
você que o tempo passado longe da sociedade tem que ganhar corpo em histórias,
e contratos já começam a pedir autógrafo nas linhas pontilhadas, e roteiros já
levam em consideração podcasts, lives, curtas e longas metragens, novelas,
séries para maratonar com a família, entrevistas exclusivas com meio mundo mais
seu pai.
No meio desta avalanche de situações
bastante embaraçosas pra você, que nunca antes tinha se tocado da importância
de cultivar uma fama própria, você acha redundante a insistência e a
persistência de perguntas e mais perguntas sobre a mesma coisa: a vida numa
ilha.
Sua existência era mesmo alienada. Fora
do padrão definido pela régua dos costumes, dos consumos, dos comportamentos.
Esta sua estada temporária à margem da vida plena, você não se alimentava de
vaidades e tagarelices tolas, fúteis, acondicionadas pelo efêmero. De fato, ela
era deveras de outro mundo.
Já pra cá!
Mas, pro futuro financeiro dos
vendedores de sonhos acessíveis a quem sem vocação para engendrar fábulas tão
diferentes do lugar comum a toda gente, fazendo bem rapidinha uma revisão mental...
Se não tem semente, jabuti não come
jabuticaba.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de setembro de 2020.
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