quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Aqui e agora

 

Aqui e agora

 

Muito bem. Pelo acaso, digamos que você tenha estado num lugar dos sonhos, um bom paraíso, com tempo firme e instável, calor e frio, sol e lua, ipês floridos na mata ribeirinha e grama boa para uma cabra aqui e uma vaca ali, fora as galinhas pros ovos benfazejos nos galhos de limoeiro, laranjeira ou abacateiro, menos na araucária apinhada de pinhão, que o inverno merece café com pipoca. Já ia pondo de lado a casa híbrida: pro frio de julho, tem a parte de alvenaria; e pro calor de fevereiro, tem sala e cozinha de madeira, nada mais comum de achar em muito interior por aí adentro. Puxa vida, parece que sua televisão, sua geladeira, a sua máquina de lavar roupa, o seu ferro de passar, o telefone celular, o microcomputador, o micro-ondas, e todas aquelas bugigangas não mencionadas, tudo dispensável, por falta de luz.

Mas tal prosperidade, assim como veio, evaporou-se.

Você está de volta ao seio da civilização, de acordo com o modelo de um ocidente europeu com toques asiáticos e africanos. Todavia, o regresso deixará de provocar dores e espantos abissais, passando-se por cima de sutilezas e pormenores que particularizam cada pessoa. Grosso modo, há de ignorar vieses.

Ter sua vida posta outra vez nos eixos do progresso irritantemente tecnológico, da ordem monetária especulativa, dos modos massivos a ditar o errado pelo certo, das coletividades maquiadoras de indivíduos e de um estado demográfico que endireita. Em outras palavras, terá você tirado a sorte grande de ir viver de novo no hospício controlado pelo Simão Bacamarte erigido em contraindicações, por dar excesso à razão ou abusar das ervas?

Nestas circunstâncias, alguém diz para você que o tempo passado longe da sociedade tem que ganhar corpo em histórias, e contratos já começam a pedir autógrafo nas linhas pontilhadas, e roteiros já levam em consideração podcasts, lives, curtas e longas metragens, novelas, séries para maratonar com a família, entrevistas exclusivas com meio mundo mais seu pai.

No meio desta avalanche de situações bastante embaraçosas pra você, que nunca antes tinha se tocado da importância de cultivar uma fama própria, você acha redundante a insistência e a persistência de perguntas e mais perguntas sobre a mesma coisa: a vida numa ilha.

Sua existência era mesmo alienada. Fora do padrão definido pela régua dos costumes, dos consumos, dos comportamentos. Esta sua estada temporária à margem da vida plena, você não se alimentava de vaidades e tagarelices tolas, fúteis, acondicionadas pelo efêmero. De fato, ela era deveras de outro mundo.

Já pra cá!

Mas, pro futuro financeiro dos vendedores de sonhos acessíveis a quem sem vocação para engendrar fábulas tão diferentes do lugar comum a toda gente, fazendo bem rapidinha uma revisão mental...

Se não tem semente, jabuti não come jabuticaba.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de setembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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