Queima
de escroque
Quando impensável, o inacreditável sai
correndo sem ter apertado a campainha da velha senhora farta das brincadeiras de
criança. Para evitar precipitações estapafúrdias deste quilate é que existem
carros de publicidade: vendendo, por escandalosa pechincha, suas pamonhas de digna
procedência, suas cartelas de ovos de galinhas otimizadas; comprando, por um
preço muito assombroso, ferro, aço e alumínio de natureza pura, casta e imaculada.
Ainda bem que o incrível acontece de vez em quando, como exceção bem-vinda,
pois a tal da monotonia chatonilda não iria provocar nem um sorrisinho miserável
no cidadão atarefado com o pouco sal no arroz sem bife, com batata morna. Para que
a rotina pasmacenta seja pega de surpresa: bem na cara de toda gente, passa aquele
veículo inconfundível: em cada uma das laterais traseiras há um espetaculoso painel
de recursos gráficos circenses; invisível aos olhos, mas auspiciosamente audível,
o fino da novidade derruba todo e qualquer óbice com o choque de ir vociferando:
A MAIOR ÓTICA DE TODOS OS TEMPOS!
A maior. É sensacional. Agora, sim, os
reais já estão coçando por armações de nomeada, lentes sensíveis, estojos
agradabilíssimos, e aquele atendimento do balacobaco, uma vez que, por suposto,
todo e qualquer freguês bem o mereça.
Até se pode discutir a potência de uma
visão cristalina, correndo o risco de algum desapontamento, por gerar tristezas
opacas, preferível fingir-se embasbacado com o céu magistral, sem enxergar os urubus
que seguem completando círculos contínuos, centralizando antes do mergulho
verticalmente cirúrgico, no alvo.
Urubus atacando feito águias, falcões
ou gaviões.
Sim, transmutações acontecem. Mas os
olhos precisam acordar.
E o que dizem do mundo os olhos realistas?
Sobre urubus. Pra angariar fundos, com
fúria animal, caçam ratos míopes, abatem preás astigmáticas e desvisceram
víboras ceguetas. Gananciosamente, no ataque.
Padronizados no bom-tom dos efeitos, não
só razões amealháveis despertam tamanho furor nos urubus, leia-se, nessa esquadrilha
tão funcionária que acaricia balcões, acalanta cartões, seduz cifrões.
Vendedores têm fome. Deles, os maiores
endividados endoidam diante da clientela. Assim, farejando algum bolso com
forte tendência a abocanhar logro como patacoada irrelevante, assanham-se com
as ofertas.
Dentre os consumidores, por sua vez, há
que se destacar aqueles com sede dos mais inebriantes sentimentos, de coração
sem fundo a palavras gentis, gestos afáveis e olhares convidativos.
Embriagados por ouvidos românticos, colhem
do luar o orvalho de jasmim; da enseada, o murmúrio relaxante; da praia, o
torpor próprio a enlaces lúbricos, aos enamoramentos esvoaçantes.
E a luz no fim do túnel?
Tem desejos que torram a alma com os
olhos da cara.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 21 de setembro de
2020.
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