Peixe
é
Trouxe a nova careca da cabeça velha quarar
ao sol do meio-dia de maio, quando ali na esquina, no buraco drenado por uma trama
de canos ligada ao motor ativo 24 horas, depara-se com aquilo.
Aquilo se mexe na água suja,
amarronzada e lamacenta. Agita-se na poça, emporcalhando-se, sem nenhum sinal de
que uma ajuda se faz precisa. O que se alegra no lodo da terra é um cão?
Leitor do mundo, já calculando as suposições
que virão a seguir: a metáfora do ser caído na lama diz do sentimento que está represado
pela situação do confinamento; o bicho enfiado na poça sinaliza para as
perturbações que o isolamento provoca; a farra animal ratifica que as asneiras
que saltam aos olhos brincam com as dores do mundo.
Para entender o que a cena parece
transmitir, imagine-se que um cão divertindo-se numa poça d’água barrenta em
mais um sábado de quarentena queira realmente externar alguma lógica ética, ou
a visão ficará nisso que se vê: evento fortuito nada atroz, sem a pretensão de
traduzir o mal-estar, a incerteza na raiz de moléstias inquietantes.
Leitor da vida, movido talvez por uma
empatia maior que a razão, topa o jogo, aposta que há mesmo alguma mensagem de
fundo. Que o acaso, folgazão, beija a calva como uma brisa boa.
Do nada, assim sem freio, a memória
inventa de levar a mente do cão que nada
por nadar para um domingo de
desvendamentos antes do Tri. Sopra para um dia, em 68 ou 69, quando o sujeito
não ostenta franja que obstrua os olhinhos faceiros dos cinco ou seis anos.
Atento àquele olhar que tudo quer
descobrir, o brusco feito vento serve para içar algo das águas que escondem
seres nas entranhas do seu mistério. Olhar que dispara perguntas diante dos
achados.
Tão logo a vara enverga e a linha
estica, saltita os verdes campos da beira, chapinha uns passos a mais na fralda
da Itupararanga, eis que o atarantado foca o choque que sente no grito da
constatação de que aquele peixe é mesmo muito esquisito.
Dado o alerta de quem vê pela primeira
vez um treco sem nome, observa-o no ar, um bicho agitado. Sabendo que aquilo
não é peixe, é um caranguejo, a irmã vem correndo, rindo, chamando-o de besta. Poxa...
Logo ele, o menor, o caçulinha?
Caracoles!
Que espécie de coisa o caranguejo é?
Por que não tem escamas como as tilápias, os lambaris e os carás? Pra que serve
o alicate que tem na pata? E a couraça de osso cheia de pernas? Será aranha que
mora no rio? O que será que ele é?
O troço que não late nem morde, tendo suas
patas desenroscadas da linha com a minhoca ainda no anzol, anda de lado, e
ligeiro. A seu modo elegante, some-se no açude onde vive.
Nas circunstâncias deste outono
pandemizado, sorri a criança que se lembra de si no homem que acha graça do
menino que ganha da vida um presente que o transcende.
Cáspite!
Estralando de novo a cada surpresa, o poeta
flagra o caranguejo no cão que o imprevisto oferece de bandeja.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 31 de maio de 2020.