quinta-feira, 7 de maio de 2020

A flor da obsessão


A flor da obsessão

Sentimental eu sou? Ademais que seja, escrevo como quem poda: onde o uso espana a porca, o parafuso entra bem. Porque o abusado força razões, inútil escrever torto em linha reta. Vá! Fora da pauta, da margem, do que sabe desprender-se, comoção que transtorna. A dica do lembrete diz à memória que a recordação do que não some é que cresce em nevoeiro; faz brejo alumiar: ao transtornado, tanto rebeldia quanto revolta, revolucionam. Deveras estimulante.
Ê vento empestado, gélido.
Olho pros lados da Mallet, olho pros dois palmos do Atlântico. Faz manhã ainda, e os jornais já em dia. O terreno da casa ao lado abriga árvores, cujas florescências atraem insetos, que nutrem pássaros, um deles bica coquinhos ― o conjunto leva-me a observá-lo.
A máquina come nacos da terra, abrindo a vala pros tubos que as águas das chuvas da manhã seguinte nem fingem devorar os tubos. Os olhos da cara fazem o que sabem pra negar os leitos que faltam, pra sepultar a mão que cuida, pra não colapsar o obsceno do lucro.
Cinco e meia, já vem o fedor do cigarro. O chaminé maltrata seus pulmões, não foge ao vício que o carcome. Pigarreia. E acende outro no toco que o peteleco atira ao mato, pletora de moscas.
Justo esse vizinho, que vive na rua sem motivo aparente, fazendo rodinha na esquina, sua máscara gargalhando, pegou tossir faz uma quinzena. Geme que doem as costas. Passou a tossir seco. De noites curtas, acorda-me a sua porta que range. Vai cuspir no vaso, e tosse. Urina, e tosse. Volta o rangido; sobe o gemido; e tosse que tosse.
Oito da matina, berra ao telefone que o comércio abra de vez. Que é um insulto esse governo dar R$ 600,00 a quem nem CPF tem, que dirá orgulho da pátria.
Pela hora da morte, a patifaria.
O aziago do prédio gosta de reclamar, e, do nada, exalta-se. Liga a TV no último, pra desencaminhar minha leitura. Escuto-o, que essa pandemia que prende as pessoas dentro de casa veio bem a calhar, que ele não gosta de gente no supermercado que fica falando umas com as outras como amigas de toda vida, quando o que elas querem de verdade é enfiar uma faca nas costas, quando o que elas querem mesmo é que a gente morra.
Diante do impossível, o razoável faz o possível.
Sem trancas nem tramelas, derrubo as paredes; configuro o palco pelos tacos soltos; abro-me aos cochichos das coxias; escuto o que engenha o obscuro. Capto o deserto pela maresia; perco o passo na ressaca da areia; o instante que não passa desequilibra; e contraído, temo que o ar queira-me afogado.
Pelo tabuleiro da realidade, prossigo.
Às vezes sacrifico uma das torres; noutras, tombo um dos bispos. Na ilusão de guardar os flancos da rainha, a um lance da capitulação, tomo ao desespero que seguidas derrotas açodam a entregar o jogo. Como a dignidade está em saber não perdoar, nutro a indignação.
Vou seguir cultivando outras misericórdias.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de maio de 2020.

Nenhum comentário:

Postar um comentário