domingo, 26 de abril de 2020

Um passo e além


Um passo e além

Pega. Pega ladrão.
Bem antes das nove, a rua está gritando. Movendo-se, de varanda em varanda. Deixo que passe, vá no seu ritmo. Sei ficar na minha. Só depois de ter cruzado a esquina, ocupo a sacada.
Passado o chamariz, caio embriagado pela quebra da nova rotina, que fecho o apê às cinco pra não tomar a fresca pelo nariz. Deixo-me estar ali um pouco mais. Melhor entrar, pra não acabar numa cadeira, puxando palha com a lua, certo de que a vida leva por onde nem se sabe por quê.
Dar azar, incomodar-me com as artimanhas do acaso?
Respiro o ar geladinho, e curto gostoso a brisa no rosto.
Constato esvaziada a venerável sacada dali, da frente. Já livre das gaiolas, já ostentando o buraco do ar-condicionado. Assim, e tão de repente, subverto-me à alegria. Que brinca de murmurar um ódio bom que detona minha indiferença postiça.
Aliás, Nero Eugênio é ideia minha, uma ficção pela qual registro a personificação de certa maneira hábil, digna, decente, amorosamente pia ao retratar-se. Como quem, perante as chamas do mundo, recorre aos idosos para apagá-las.
Ter quem vença é que faz parte? Pena, muito pouco me controlo quando atribuo a outrem os males do mundo. Se precisasse mudar o jogo, trocaria de lado. Daí, arrisco tomar partido: o meu.
De máscara, os funcionários fecham o baú do caminhão. Hora de ir pro destino final, endereço que não me interessa qual seja.
Desenrola-se uma cena. Contribuo com o silêncio. Mesmo quando a discussão ameaça romper o isolamento. Quem está indo, que vá de uma vez. Pra quem fica, então, é o exato momento pra soltar cobras e lagartos. Bem na partida do desafeto.
Queria entrar nessa, só que estou com os ovos contados.
Mas imagino.
Trocam os primeiros tapas. O homem quer ir embora. As mulheres gritam. Não perdem tempo nem o entusiasmo, vão melando o quanto podem o carro do cara que parte em disparada.
No fim, o poeirão da rua em obras sobe; e corro para dentro.
Adeus muralhas da privacidade, abaixo as levadiças virtuais. Entro com o estresse na videoconferência. Travamo-nos, e reconectamos. Embora amigos, quatro pilhados num espaço cósmico.
Relato os eventos de quase agorinha. Com parcimônia, isenção e camada de verniz imperceptível a quem me desconheça capaz de um humor adstringente. A quem tem de mim a experiência própria, o tom de gelo torna evidente o escárnio infectante.
Pelos lanços sangrados do patrimônio, mal posso administrar este reino, o meu corpo. Território confinador em que padeço da comédia com o riso encalacrado, que a todos nós impele ao pudor sanitário da privação de, gratuitos ou éticos, abraços, sopapos, umas escarradas.
Doloroso, mais ainda, é admitir que o tolo de plantão em mim siga negando o que chega. Como alvíssara não proclamada, o megafone denuncia a retomada das normalidades.
Pamonhas. Com sabor da infância, pamonhas.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de abril de 2020.

Nenhum comentário:

Postar um comentário