Um
passo e além
Pega. Pega ladrão.
Bem antes das nove, a rua está
gritando. Movendo-se, de varanda em varanda. Deixo que passe, vá no seu ritmo. Sei
ficar na minha. Só depois de ter cruzado a esquina, ocupo a sacada.
Passado o chamariz, caio embriagado pela
quebra da nova rotina, que fecho o apê às cinco pra não tomar a fresca pelo
nariz. Deixo-me estar ali um pouco mais. Melhor entrar, pra não acabar numa
cadeira, puxando palha com a lua, certo de que a vida leva por onde nem se sabe
por quê.
Dar azar, incomodar-me com as
artimanhas do acaso?
Respiro o ar geladinho, e curto
gostoso a brisa no rosto.
Constato esvaziada a venerável sacada
dali, da frente. Já livre das gaiolas, já ostentando o buraco do
ar-condicionado. Assim, e tão de repente, subverto-me à alegria. Que brinca de
murmurar um ódio bom que detona minha indiferença postiça.
Aliás, Nero Eugênio é ideia minha, uma
ficção pela qual registro a personificação de certa maneira hábil, digna, decente,
amorosamente pia ao retratar-se. Como quem, perante as chamas do mundo, recorre
aos idosos para apagá-las.
Ter quem vença é que faz parte? Pena, muito
pouco me controlo quando atribuo a outrem os males do mundo. Se precisasse
mudar o jogo, trocaria de lado. Daí, arrisco tomar partido: o meu.
De máscara, os funcionários fecham o
baú do caminhão. Hora de ir pro destino final, endereço que não me interessa
qual seja.
Desenrola-se uma cena. Contribuo com o
silêncio. Mesmo quando a discussão ameaça romper o isolamento. Quem está indo,
que vá de uma vez. Pra quem fica, então, é o exato momento pra soltar cobras e
lagartos. Bem na partida do desafeto.
Queria entrar nessa, só que estou com
os ovos contados.
Mas imagino.
Trocam os primeiros tapas. O homem quer
ir embora. As mulheres gritam. Não perdem tempo nem o entusiasmo, vão melando o
quanto podem o carro do cara que parte em disparada.
No fim, o poeirão da rua em obras
sobe; e corro para dentro.
Adeus muralhas da privacidade, abaixo
as levadiças virtuais. Entro com o estresse na videoconferência. Travamo-nos, e
reconectamos. Embora amigos, quatro pilhados num espaço cósmico.
Relato os eventos de quase agorinha. Com
parcimônia, isenção e camada de verniz imperceptível a quem me desconheça capaz
de um humor adstringente. A quem tem de mim a experiência própria, o tom de
gelo torna evidente o escárnio infectante.
Pelos lanços sangrados do patrimônio,
mal posso administrar este reino, o meu corpo. Território confinador em que
padeço da comédia com o riso encalacrado, que a todos nós impele ao pudor
sanitário da privação de, gratuitos ou éticos, abraços, sopapos, umas escarradas.
Doloroso, mais ainda, é admitir que o
tolo de plantão em mim siga negando o que chega. Como alvíssara não proclamada,
o megafone denuncia a retomada das normalidades.
Pamonhas. Com sabor da infância,
pamonhas.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 26 de abril de 2020.
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