Malemá
Compelido a mudanças neste atual
regime de convivências, com os demais e comigo, ouço música depois do almoço e
antes de ir-me deitar. Afinal, só análise e ansiolíticos não dão conta da
cabeça cheia de frustrações, desplanejamentos e quinquilharias metafísicas. Livro
a mente da realidade? Não, mas as doze notas abrem clareiras onde a mata
fechada sufoca e assusta.
Corro me esbaldar com o Caipira, da Mônica Salmaso.
Preciso evitar a desatenção, levar a
sério o momento. Devo-me o rigor com o cronograma que anotei na folhinha da
cozinha. Ou seja, o próximo passo é a antecipação do que terei de fazer fora de
casa. Já vem aí a sexta-feira, caraca, que hoje já é terça.
É verdade. Não posso esquecer o café.
Não vou comer mosca.
De março para cá, saio quinzenalmente
de casa. Tenho tomado o maior cuidado. Carrego o meu próprio gel. Volta e meia
verifico se a máscara está no lugar. É desesperador ficar exposto ao vírus. Com
a televisão falando cada coisa. Uma hora o contágio é pela saliva. Não devo
tocar em dinheiro. Lavar a mão com desinfetante. Tirar a roupa assim que
chegar. Dá um aperto danado na garganta. E até respirar, que medo de não
perceber a tempo como ando respirando.
Sem dúvida. A quantidade de
informações angustia. Porém o vírus não quer saber de brincadeira.
Tento ser prático. Não sou biólogo.
Então, para que ficar perdendo tempo. O vírus é animal ou o quê? Faça-me o
favor. A mortandade é natural, ideológica ou alienígena? Putz. Há resposta para
tudo, sim. O juízo me impede de querer vestir a carapuça de epidemiologista.
O material genético usa o hospedeiro para
replicar-se, para passar adiante a sua forma. Sem saber de si, sem saber de
mim, de você, de nós todos. Seja onde for. Se faz frio, calor. Nem a idade
conta.
Então, conhece a estrada quem caminha?
Enfio a mão na massa. Lamento, ovo não frita sozinho. Aliás, a perturbação do
mundo causa mais nervosismo. Colombo veio pra América de navio, não numa foto
das covas de Manaus. E sei lá quando perplexidade deixa lelé.
Em dias difíceis, tenho feito a minha
parte. Tento.
No entanto, mesmo em meio à tempestade
viral que pede radicais alterações de hábitos, confesso que alguns me são caros
demais pra adaptá-los ou renegá-los. Ô tristeza, não mudo fácil.
Acho que não ajo por mal. Procuro
entender que não vim torto pro mundo. Arrisco possível ir vivendo ao sabor dos
erros. Cuido de mim; não quero dar sarna ao cão; evito que abundem.
Contra o desperdício, confiro o papel
higiênico. Urino, lavo a mão. Tão logo acordo, pulo da cama. No sofá, vou lendo
o jornal no celular até que o pescoço precise do apoio da almofada. Ajusto.
Todavia, não me convenço de que a dor
distraia a ponto de trocar o pé. O que ando sentindo tem nome, é medo. Nem
descalço ficarei correndo por aí. Com mais vírus no céu que aviões, toca-me o
desejo de ir curtindo a sonora garoa.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 28 de abril de 2020.
Fiquei curiosa para saber sobre as músicas que você ouve e o que elas te fazem sentir ao ouvi-las. Qual o propósito de ouvir música nesses exatos momentos?
ResponderExcluirSobre as frustrações, qual o gatilho que te leva a lembrar delas? E por que não tentar focar apenas nas coisas boas? Se há desplanejamento, reverta isso, se planeje. Ainda há tempo pra tudo, sempre há, basta querer e estamos aqui para te motivar de alguma forma 😍
Creio que a partir desses questionamentos, você consegue nos deixar uma bela obra de arte em forma de texto. Ansiosa para saber quais suas reflexões sobre o tema.
Sobre a pandemia, faça a prevenção, mas não deixe que isso te enlouqueça, aprecie a música, leia livros, assista filmes é escreva. Não deixe que isso te afete psicologicamente 😘😘
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