O
sonho
Por não cuspir no prato em que como,
varro os fatos para debaixo do topete. Melhor descobrir que remendar, porque chave
de ouro que descerra a porta da esperança perturba Pandora. Em outras palavras,
para que desembuche o papo? Discordo frontalmente de quem pensa que pessoa
sombria ilumina fundo, espelho adentro.
Domingão, dia da macarronada carbonara, espaço aberto para as mui
sinceras manifestações de apreço ao cozinheiro de mão cheia, a mesma adestrada que,
parteira da modéstia, vai pondo no papel tais palavras com isenção. Maior
honestidade não há do que, já ardendo no inferno, se confessar ao culpado.
Quando perguntam se o desejo de
escrever vem de menino, digo de cara o que nem reparo: gosto de contar histórias
por escrito.
Se em mim me acossa uma criança que
fala pelos cotovelos, abro caminho à escuta de quem narra mais um conto. Assim!
Como mosca não escapa de boca fechada, fujo de falar em público. Desde que não
haja silêncio, escrevo. E que o mundo siga rolando universos, comigo escrevendo.
Canto onde fico, entendendo detestável essa ideia de ter condições especiais para
exercer a minha prática.
O meu trabalho está a serviço do texto;
da linguagem; do que está sendo construído concomitantemente ao contado. As palavras
trazem outras, mas a coerência precisa emergir do que vai sendo dito, que a
coesão necessária diga a que veio. Que o texto resulte peça legível, e
assimilável na cópia, pela imitação que revela o processo pelo qual mimetiza
textos anteriores ― do édito, o inédito.
Memória que não imagina uma perspectiva
de dizer o que não diz é história. Ah! O passado tecido no entretecido que leva
a...
Sim, na crônica O respiro está relatado um evento acontecido nos anos 80, a visão
de um beija-flor nos céus da Cidade Universitária da USP. Sim, o escrevinhador
foi capaz de ver o bichinho em pleno voo, mas isso demandou esforço. Precisei insistir
até conseguir enxergar o que me desconcertava.
Sim, hipnotizados pelo banal, meus
olhos precisam manter o foco para fixarem algo que os avive, em brasa.
A banalidade esconde a realidade sob
camadas de previsibilidade. Então, é preciso ensinar-se a olhar, concentrar-se.
Provocar a fagulha da percepção que está adormecida no olhar ignorante, que
apreende das circunstâncias só o que alcança. E talvez, após muita diligência,
torne-se possível aprender a vislumbrar o que não está sendo visto.
Faz-se mister a obsessão de ver mais do
que mais um pouco.
Processo simples, tendo como regra
básica o rigor na observação. Sem que estruture um método, adoto recomendável
tal procedimento, posto que desejo escrever sem tirar a realidade do olho do instante.
Cuidando que não vejo, todavia, desconfio
desse olhar obcecado, pelo que camuflo, despisto, faço plausível o mensurável.
Careca de tanto arbítrio? Minha
crônica aposta.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 03 de maio de 2020.
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