O
coco do groma
Tem isso com o sonho. Quando a gente
vê, já está terminado. Daí que, compelido a rememorar a mecânica cinemática da
pulsão antes que se esfume, vem essa raposa caçar. Sem trégua; até que a aurora
desperte pro entorpecimento da noite; até que aquele olho pintado do Alex renuncie
ao trilho. Ê láctea alegria laranja.
Ao que parece, prontamente a postos
pela simpatia que tenho tido pela humanidade em geral, abro o jornal no
telemóvel. Diz uma parte do mundo estar horrorizada com uma outra, pois não
sabe como vai controlar o impulso maior do que a vontade de viver. Como pessoas
honradas, ocupam ruas, dão vivas à morte, interditam ambulâncias, e engarrafam-se
de júbilos, gozando como íncubos na subida.
Topo a empreitada de viver mais este
dia como se me fosse tirado do montante, cujo número não conhecerei nem morto. Entretanto,
em vez de correr abrandar o ânimo, passando pela porta entreaberta da prescrita
depressão controlada, insto traduzida a insânia.
Garimpo as pepitas. Appassionata; Chromatique; o Tchaikovsky da
Dumka; o Vieuxtemps da Fantasia Appassionata.
Mergulho. Volto. Vindo embriagado já
virago, boio de absurdo.
Houve
quem perguntasse: bebemos por que já somos loucos ou ficamos loucos por que
bebemos?
Parado de beber, pirado de babar ― no
sexto do quinto.
Amanhã? Sim, amanhã.
Sempre haverá um amanhã pra celebrar a
vida, ter comemoração, fazê-la fonte renovadora, permitir-se o ser novo a cada
dia. Cuidar de si como semente a germinar, cultivar-se broto, fortalecê-lo ao
som da lua que torna prata o que ainda é ouro. Na sobreposição da máscara na
pessoa que canta o abismo sobre o qual dança, a vida é a queda enquanto dura. Então,
que perdure o que tiver pela frente, intervalo que permanece. De lá pra acolá. Bailador,
aqui e agora, peço lágrima bailarina. Fito-me jururu e lúgubre. Súbito, o riso
torto. E não amenizo essa minha fria melancolia corsária.
Dono do meu pranto, que come nas
entranhas o juízo, vomito uma certeza ou outra, porque posso, enfim, quando não
posso.
Escancaro a boca com o batom carmim
dos desprezados, dos que dormem protegidos pelo jornal da banca, de quem canta
bêbado seu bolero de gim, sua solitude roça o limo no sal.
Uma caipirosca!
É sério. Preciso ficar chorando sobre
o prato, que a macarronada de domingo está fria. O gás acabou. Derrubando tanta
lágrima assim, talvez a garfada desça forte. Que me bate uma baita raiva.
Bronha de groma? Sabor antigo pela primeira vez.
Na topada do tormento, vítima de
mortalidade congênita, agravada pelo patógeno oportunista covid-19, encantou-se
o maior poeta vivo do país.
Não! O Augusto?
Mas é claro que não. Falo e digo, seu Aldir.
Sempre acontece com poetas, vocês morrem. Sem coco de polícia, faz ralar o coco
pra que se veja: “rigorosamente ateu, cético, cínico e escroto, nessa ordem”.
Vá, que seja.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 05 de maio de 2020.
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