terça-feira, 5 de maio de 2020

O coco do groma


O coco do groma

Tem isso com o sonho. Quando a gente vê, já está terminado. Daí que, compelido a rememorar a mecânica cinemática da pulsão antes que se esfume, vem essa raposa caçar. Sem trégua; até que a aurora desperte pro entorpecimento da noite; até que aquele olho pintado do Alex renuncie ao trilho. Ê láctea alegria laranja.
Ao que parece, prontamente a postos pela simpatia que tenho tido pela humanidade em geral, abro o jornal no telemóvel. Diz uma parte do mundo estar horrorizada com uma outra, pois não sabe como vai controlar o impulso maior do que a vontade de viver. Como pessoas honradas, ocupam ruas, dão vivas à morte, interditam ambulâncias, e engarrafam-se de júbilos, gozando como íncubos na subida.
Topo a empreitada de viver mais este dia como se me fosse tirado do montante, cujo número não conhecerei nem morto. Entretanto, em vez de correr abrandar o ânimo, passando pela porta entreaberta da prescrita depressão controlada, insto traduzida a insânia.
Garimpo as pepitas. Appassionata; Chromatique; o Tchaikovsky da Dumka; o Vieuxtemps da Fantasia Appassionata.
Mergulho. Volto. Vindo embriagado já virago, boio de absurdo.
Houve quem perguntasse: bebemos por que já somos loucos ou ficamos loucos por que bebemos?
Parado de beber, pirado de babar ― no sexto do quinto.
Amanhã? Sim, amanhã.
Sempre haverá um amanhã pra celebrar a vida, ter comemoração, fazê-la fonte renovadora, permitir-se o ser novo a cada dia. Cuidar de si como semente a germinar, cultivar-se broto, fortalecê-lo ao som da lua que torna prata o que ainda é ouro. Na sobreposição da máscara na pessoa que canta o abismo sobre o qual dança, a vida é a queda enquanto dura. Então, que perdure o que tiver pela frente, intervalo que permanece. De lá pra acolá. Bailador, aqui e agora, peço lágrima bailarina. Fito-me jururu e lúgubre. Súbito, o riso torto. E não amenizo essa minha fria melancolia corsária.
Dono do meu pranto, que come nas entranhas o juízo, vomito uma certeza ou outra, porque posso, enfim, quando não posso.
Escancaro a boca com o batom carmim dos desprezados, dos que dormem protegidos pelo jornal da banca, de quem canta bêbado seu bolero de gim, sua solitude roça o limo no sal.
Uma caipirosca!
É sério. Preciso ficar chorando sobre o prato, que a macarronada de domingo está fria. O gás acabou. Derrubando tanta lágrima assim, talvez a garfada desça forte. Que me bate uma baita raiva.
Bronha de groma? Sabor antigo pela primeira vez.
Na topada do tormento, vítima de mortalidade congênita, agravada pelo patógeno oportunista covid-19, encantou-se o maior poeta vivo do país.
Não! O Augusto?
Mas é claro que não. Falo e digo, seu Aldir. Sempre acontece com poetas, vocês morrem. Sem coco de polícia, faz ralar o coco pra que se veja: “rigorosamente ateu, cético, cínico e escroto, nessa ordem”.
Vá, que seja.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de maio de 2020.

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