A
fumaça dos dias
Semana passada, em crônica que trata
da relação de pai e filho, o escritor António Lobo Antunes
me encantou ao afirmar, sobre a presença sonora do seu progenitor, que “nunca
havia frio ao pé da sua voz”. Na minha bonomia, tomo o que se me apresenta de
uma beleza imediata sem o estalar dos dedos da mente. Por minhas deficiências
cognitivas, fui mastigando esta imagem, mas o meu tanto para atinar com o fogo
foi preciso. E recordei uma voz antiga, sargaço para a represa dos meus
escombros, que sou castor com vocação para ruínas e outros rastros não apagáveis.
Trazida à consciência, vindo das chamas
insondáveis, a voz do demônio familiar, tão íntimo das gentes lá de casa.
Bastava abrir a boca só para soltar a fumaça do charuto, sem o rococó dos
anéis, prodígio que muito me maravilhava, que o grilo me sussurrava um tipo
estranho de aflição.
Era tal o desassossego que até o meu
kichute para todas as várzeas parecia menor.
Com o calo certo para doer meu
sofrimento onde menos era de se esperar, o mefistofélico ancestral punha em
alvoroço as minhas sinapses, tão pacatas de coração.
Posto a nu, o universo desvelado,
revelado por uma voz?
Alguns, sorrindo, falariam que o ser
resiste à falta da carne; outros, budistas de pouca espiritualidade, tirariam
os sete véus de Maya.
Explicação simples sempre é o óbvio do
argumento?
Acaso tivesse conhecido o pai de meu
pai, o avô morto doze anos antes, pois os átomos moveram-se para este corpo em
1963.
Em outras palavras, sob a pele que me
enquadra, não havia múmia a ser devolvida aos crentes de Yangchun. Fulcral, no
entanto, era que em mim não tinha razão o autóctone dessa memória, logicamente
adventícia.
Isso causa estranheza até em quem acha
normal criança ter imaginação criativa o bastante para dar corpo à voz
ancestral a partir de relatos que não ouviu.
Se não sei a quem moldei o timbre e,
mais ainda, como dei a ele o fulgor de um deus, baforador dos puros da Bahia, como
quem ouve a consciência turbada por um mistério elementar, terei eu escutado os
meus diabinhos?
Para pelejar pelos seres abissais deste
meu cérebro varonil, só mesmo em palavras, e todas tecidas pelos mil e um talentos
de um Olavo, o Bilac, nosso bardo no vigor centenário.
Com as insolências da vida, sofro como
posso.
Ô Seu António, em caso de memória sem
espaço, um clique é fósforo.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 30 de dezembro de
2018.


