Cabeça
feita
Curiosa a tal da cabeça.
Outra manhã, tendo eu acabado de ler
uma crônica, na qual pus muito gosto pela profunda leveza no trato com o
assunto, salvei-a no computador.
Aquele estilo, cada palavra a seduzir
à próxima, a música a brotar das ideias, o pensamento elegante a formar em mim,
com a nitidez dos convictos, o nome do autor. Sem pestanejar, no salvamento do
arquivo, creditei-o a quem de direito.
Barafundei-me por completo com a composição
alheia.
Autor deposto, autora posta. Paulo
Mendes Campos? Nada! Eram as linhas de Rachel de Queiroz ─ “há muitas espécies
de poesia neste mundo de poetas”.
Dona Memória, fui por ali e não por
aqui.
Os caminhos vão e vêm, já anda longa a
jornada...
Se a História é comprida, o voto é
curto. Por isso, não faço petição do nulo no segundo turno. E não o farei
porque nem só de Cacareco, Tião e Tiririca pode-se desafinar o coro dos
descontentes.
Descontente, e não raivoso.
Diante da seriedade dos nossos dias,
não brinco. Assim, nem por curtição nem para tirar onda nem para desandar a
maionese. Não vou virar no siri lá no colégio eleitoral.
Isso não faço. Sou educado. Meu pai e
minha mãe deram-me modos e uso-os na praia, na fila do mercado, e, ao teclar na
urna, mais ainda.
Ontem, por sinal, foi a data para
compartilhar minhas mais sinceras homenagens às professoras e aos professores, que,
do jeito que dá, tornam os dias de escola um paraíso na Terra.
E como os tempos mudaram! Hoje, é
preciso ter um olho na faca e outro no celular. Os malabarismos são tantos que,
além de estrábico, ando mal de olfato que nem sei dizer o que fede mais, o
peixe ou o jornal que o embrulha.
Ou seja: votar é humano, mas Tiririca
outra vez?
Claro que não considero muito
higiênico votar em branco para limpar Câmara e Senado. Também não toco na
fanfarra dos que atravessam o samba acreditando que é da lei isso de invalidar um
pleito acaso os nulos resultem em mais da metade dos votos.
Desde já, aviso que no segundo turno
irei votar. E votarei consciente. De olho na educação das nossas crianças? Sem
dúvida. Pensando nas tetas em que muitos dos eleitos querem mamar? Com
indignação cívica. Desejando a paz entre as eleitoras e os eleitores? Meu
coração pulsa forte, tão sedento de conciliação universal, geral e irrestrita.
Como reza a Constituição, o voto é
secreto. Mas espero que não chova no dia.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, 16 de outubro de 2018.

MUITO BOA CRÔNICA! O QUE SERIA DAS VERDADES SEM A IRONIA NA DOSE CERTA? SERIA UM PARAÍSO NA TERRA? POIS É...
ResponderExcluirGrato pela leitura e pelo comentário.
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