terça-feira, 16 de outubro de 2018

Cabeça feita




Cabeça feita

Curiosa a tal da cabeça.
Outra manhã, tendo eu acabado de ler uma crônica, na qual pus muito gosto pela profunda leveza no trato com o assunto, salvei-a no computador.
Aquele estilo, cada palavra a seduzir à próxima, a música a brotar das ideias, o pensamento elegante a formar em mim, com a nitidez dos convictos, o nome do autor. Sem pestanejar, no salvamento do arquivo, creditei-o a quem de direito.
Barafundei-me por completo com a composição alheia.
Autor deposto, autora posta. Paulo Mendes Campos? Nada! Eram as linhas de Rachel de Queiroz ─ “há muitas espécies de poesia neste mundo de poetas”.
Dona Memória, fui por ali e não por aqui.
Os caminhos vão e vêm, já anda longa a jornada...
Se a História é comprida, o voto é curto. Por isso, não faço petição do nulo no segundo turno. E não o farei porque nem só de Cacareco, Tião e Tiririca pode-se desafinar o coro dos descontentes.
Descontente, e não raivoso.
Diante da seriedade dos nossos dias, não brinco. Assim, nem por curtição nem para tirar onda nem para desandar a maionese. Não vou virar no siri lá no colégio eleitoral.
Isso não faço. Sou educado. Meu pai e minha mãe deram-me modos e uso-os na praia, na fila do mercado, e, ao teclar na urna, mais ainda.
Ontem, por sinal, foi a data para compartilhar minhas mais sinceras homenagens às professoras e aos professores, que, do jeito que dá, tornam os dias de escola um paraíso na Terra.
E como os tempos mudaram! Hoje, é preciso ter um olho na faca e outro no celular. Os malabarismos são tantos que, além de estrábico, ando mal de olfato que nem sei dizer o que fede mais, o peixe ou o jornal que o embrulha.
Ou seja: votar é humano, mas Tiririca outra vez?
Claro que não considero muito higiênico votar em branco para limpar Câmara e Senado. Também não toco na fanfarra dos que atravessam o samba acreditando que é da lei isso de invalidar um pleito acaso os nulos resultem em mais da metade dos votos.
Desde já, aviso que no segundo turno irei votar. E votarei consciente. De olho na educação das nossas crianças? Sem dúvida. Pensando nas tetas em que muitos dos eleitos querem mamar? Com indignação cívica. Desejando a paz entre as eleitoras e os eleitores? Meu coração pulsa forte, tão sedento de conciliação universal, geral e irrestrita.
Como reza a Constituição, o voto é secreto. Mas espero que não chova no dia.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 16 de outubro de 2018.

2 comentários:

  1. MUITO BOA CRÔNICA! O QUE SERIA DAS VERDADES SEM A IRONIA NA DOSE CERTA? SERIA UM PARAÍSO NA TERRA? POIS É...

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