Não foi por sugestão de um
espírito demoníaco que, lendo crônica alheia, tive a ideia de usar o tal botão
da liberdade, o foda-se.
Tão estimulante quanto
café, encarei o mundo.
As pessoas usam o
botãozinho nas situações mais corriqueiras. Tal utilidade universal é um recurso
tão bom que a mão treme menos.
Nesta época, em que tudo
se estabelece como embate entre a torta de palmito e a musse de limão, o
pastelão é o resolutor universal de adversidades.
Ajustando o soco-inglês, diz
a sensata sensatez:
— Tá na cara!
Desde que Buda era
Gautama, passa pela mente da boa gente que chupa picolé que a vida seria menos terrível
se os neurônios inflassem o bote salva-vidas quando brota um furo na cachola.
Como não dá para impedir
que a água leve para o fundo o que não flutua, convém aprender a pensar.
Às pessoas que vestem
colete salva-vidas o remador diz que suas preces trouxeram o bote para quatro
braçadas da margem.
— Este rio não tem jacarés
nem crocodilos.
Ninguém pulou na água.
— Não tenham medo. Estas
águas estão livres de piranhas.
Um homem saltou. Ocupado
em pegar o boné que saiu da cabeça, nadou até recuperá-lo. Já em terra, ele
acenou.
Uma mulher abraçou a
filha. A menina disse que tinha medo. A mãe disse que tudo ficaria bem. O
remador as empurrou. Porque souberam nadar separadamente, elas chegaram à
margem.
Sem se admirar da
determinação de ambas, o rapaz que não tirava as mãos dos fones disse que não
sabia o tanto que seus braços iriam aguentar. Ele nunca carregou um saco de
arroz.
— Cara, eu peso mais de
cem quilos.
E o bote estava indo pra
mais perto da beira.
— A água nem vai chegar no
queixo.
Um senhor, cuja perda
muscular indica ter quase cem anos, acende um cigarrinho de palha. Traga uma,
duas vezes. Tosse. Traga outra e mais outra. E tosse. Este senhorzinho fala
devagar:
— Tá tudo bem. Jesus sabe
que o Pai não vai ter problema comigo. Quando eu passar pelos portões, vou
jogar xadrez, vou lavar as minhas cuecas e juro que vou fumar bem longe de quem
não suporta quem dá um tapinha de boa.
Desde que ganhou o
primeiro maço de cigarros no tiro ao alvo num parque de diversões, quando ele ia
fazer quatorze anos, o bom homem fala devagarinho:
— Nunca filei cigarro.
Nunca escarrei na cara de ninguém. Nunca deixei de fumar um dia sequer.
À porta do Paraíso, São
Pedro não hesita. Assim que ouve o relato do recém-afogado, o santo não se
deixa enrolar.
O Porteiro Celestial
pensou:
O desgraçado não viu as
nuvens vindo? Como é que ele não notou que o azul passou a cinzento?
Com cara de quem vive no
lado oculto da lua, de fala doce, aquela fala mansinha até demais, o tal
fumante:
— E aí, meu chapa, vai ficar
nessa moleza?
Fedendo na mente a palha
do bote, o portador da chave-mestra:
— Foda-se!
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 07 de abril de 2026.