quinta-feira, 2 de abril de 2026

O fator humano

 

O fator humano

 

Quando a tevê transmite um evento em que alguns seres humanos agigantam a passada, sento-me de costas.

Vim comer um hambúrguer. Pedi batata frita.

Um convidado, especialista em engenharia aeroespacial, comentou que um terço dos brasileiros não acredita que o homem tenha pisado na Lua. Como prova de que caminhamos sobre o solo lunar, ele citou que há dezenas de fotografias das pegadas.

O sal das fritas me fez acenar. Ao garçom, eu disse que o suco de abacaxi era o par que faltava. E a perfeição seria o suco de manga vir o mais rápido operacionalmente possível.

A falta de polpa de abacaxi não era nenhum sinal. O rapaz não me disse para sentar de frente para a transmissão. Já que tudo era ao vivo, menos desejei escutar justificativas.

Na mesa diante da minha, mãe e filha sorriam, brincavam com uma batatinha. O foguete espacial fazia evoluções a um palmo da boca da garotinha. Nhac!

Quando o suco chegou, foi por um beirute que troquei o x-salada ― que eu nem tinha pedido.

O mesmo comentarista falou que a bandeira estar desbotada é por causa dos raios UV. Não há camada de ozônio que proteja o chão do nosso satélite natural.

Derrubo a faca. O funcionário me entrega outra.

Há uma interrupção. Embora o oxigênio líquido já tenha preenchido totalmente o tanque, faz dez minutos que os motores esperam para ser ligados. A fumacinha é evidência de que haverá lançamento.

Abocanho um pedaço do sanduíche.

Em tradução simultânea, informam que há um problema.

As fantasias não me impedem de mastigar.

A apresentadora fala em falha mínima. O comentarista diz que hoje os computadores fazem cálculos complexos numa rapidez espantosa. A apresentadora fala que os técnicos conseguirão corrigir as falhas. E o comentarista retoma a sua fala.

Atualmente os cientistas não precisam lançar na máquina o que era feito no papel. Os cérebros humanos estão preparados para delegar o que antes era um atributo da nossa espécie.

Com equipamentos evoluídos, um zero a menos não será culpa da nossa cachola.

A mãe e a menina vão embora.

A tradutora diz que o sistema de ejetamento está consertado.

A jornalista americana diz que o aquecimento está diminuindo.

O jornalista da tevê brasileira confirma que a contagem regressiva de dez minutos está iniciada. Com sucesso.

Tomei o copo todo. Comi o sanduíche.

Sem saber se selenitas têm carta na manga, desvio dos buracos a caminho de casa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de abril de 2026.

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