Não
seria menos absurdo se fosse um sonho
Faz sessenta e dois anos que o futuro
foge de mim. Ontem quase o avistei às costas. O danado escolheu refugiar-se na
minha sombra.
E nem tinha sol.
Se a vida toda estivesse a dedicar-me a
observá-lo tão fugidio, eu próprio me esqueceria numa cela. Isolado, e não
vencido. Ainda que a solitária sequer janelinha tivesse, seguiria a
escarafunchar os meus silêncios.
Othon Bastos, o Paulo Honório do filme São
Bernardo, diz ser um afinador de silêncios.
Por que não digo que ele encarna o
Corisco em Deus e o Diabo na Terra do Sol? Ou, aos noventa e dois anos, o
ator é o protagonista do espetáculo Não me rendo?
Alto lá! O título da peça é outro: Não
me entrego, não!
Por meu turno, “render-se” em vez de
“entregar-se” diz o tanto que a minha cachola tem feito gracinhas.
Trocar nomes, esquecer os fatos,
encafifar com um rosto que bem me parece ser amigo, rodar em falso sobre alguma
coisa sem muita importância, isso é o bastante para apontar o tanto que tenho
tomado “desvios” e não “atalhos”.
É gostoso quando me incentivo a checar
uma informação. Só que sorrir à gente que nem me conheça é impróprio, pois
estou a sugerir: ei, você aí, vai me negar a esmola de um sorriso?
Não esmolo os bons modos de quem não
sabe que sou assim. Me critico pelo jeito que, eventualmente, uso os meus
sorrisos.
Às vezes, preciso que parem um instante,
topem papear comigo, nem que seja pra fazer de conta de que me conhecem, ou,
por saber quem eu sou, livrar-se da minha chatice com um sorriso.
Quando sorriem para mim, o sol faz maior
a minha sombra.
Justamente ela, a que camufla o futuro.
À sombra de mim, sem me acanhar ao
sorrir de volta, vou indo por aí afora: olá, é sempre um prazer encontrar quem
sorri.
O prazer que tive, o que terei, o que me
escapa agora.
Othon Bastos reaparece. No telefonema,
falei dele. A minha amiga nem precisou me lembrar que nós não conhecemos o
ator.
Tive que falar da crônica. Falei dos
verbos trocados. E mencionei que uma frase do Lobo Antunes estava correndo de
mim.
Queria as aspas. Fui às inteligências
artificiais.
Uma saiu-se com: “o futuro é o tempo que
me resta”.
Outra admitiu que não tem acesso ao Livro
de Crônicas, ou seja, a minha solicitação pela frase exata não pode ser
atendida.
Ao léu das minhas benquerenças, fui
proseando com as crônicas, vim me enveredando até chegar ao encerramento que
dou como bem apropriado:
“O meu drama consiste em ter demorado de
mais a entender que os verdadeiros fantasmas são os vivos.”
Como não corro publicar antes de nova
leitura, o meu fantasma dá aquele sorrisão.
Volto às aspas do Lobo Antunes, e sorrio
à página que nem datei. Falta a palavrinha “tempo” no trecho “ter demorado de
mais”.
Em tempo, saiba o futuro: Lobo Antunes
morreu.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 15 de março de 2026.
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