domingo, 15 de março de 2026

Não seria menos absurdo se fosse um sonho

 

Não seria menos absurdo se fosse um sonho

 

Faz sessenta e dois anos que o futuro foge de mim. Ontem quase o avistei às costas. O danado escolheu refugiar-se na minha sombra.

E nem tinha sol.

Se a vida toda estivesse a dedicar-me a observá-lo tão fugidio, eu próprio me esqueceria numa cela. Isolado, e não vencido. Ainda que a solitária sequer janelinha tivesse, seguiria a escarafunchar os meus silêncios.

Othon Bastos, o Paulo Honório do filme São Bernardo, diz ser um afinador de silêncios.

Por que não digo que ele encarna o Corisco em Deus e o Diabo na Terra do Sol? Ou, aos noventa e dois anos, o ator é o protagonista do espetáculo Não me rendo?

Alto lá! O título da peça é outro: Não me entrego, não!

Por meu turno, “render-se” em vez de “entregar-se” diz o tanto que a minha cachola tem feito gracinhas.

Trocar nomes, esquecer os fatos, encafifar com um rosto que bem me parece ser amigo, rodar em falso sobre alguma coisa sem muita importância, isso é o bastante para apontar o tanto que tenho tomado “desvios” e não “atalhos”.

É gostoso quando me incentivo a checar uma informação. Só que sorrir à gente que nem me conheça é impróprio, pois estou a sugerir: ei, você aí, vai me negar a esmola de um sorriso?

Não esmolo os bons modos de quem não sabe que sou assim. Me critico pelo jeito que, eventualmente, uso os meus sorrisos.

Às vezes, preciso que parem um instante, topem papear comigo, nem que seja pra fazer de conta de que me conhecem, ou, por saber quem eu sou, livrar-se da minha chatice com um sorriso.

Quando sorriem para mim, o sol faz maior a minha sombra.

Justamente ela, a que camufla o futuro.

À sombra de mim, sem me acanhar ao sorrir de volta, vou indo por aí afora: olá, é sempre um prazer encontrar quem sorri.

O prazer que tive, o que terei, o que me escapa agora.

Othon Bastos reaparece. No telefonema, falei dele. A minha amiga nem precisou me lembrar que nós não conhecemos o ator.

Tive que falar da crônica. Falei dos verbos trocados. E mencionei que uma frase do Lobo Antunes estava correndo de mim.

Queria as aspas. Fui às inteligências artificiais.

Uma saiu-se com: “o futuro é o tempo que me resta”.

Outra admitiu que não tem acesso ao Livro de Crônicas, ou seja, a minha solicitação pela frase exata não pode ser atendida.

Ao léu das minhas benquerenças, fui proseando com as crônicas, vim me enveredando até chegar ao encerramento que dou como bem apropriado:

“O meu drama consiste em ter demorado de mais a entender que os verdadeiros fantasmas são os vivos.”

Como não corro publicar antes de nova leitura, o meu fantasma dá aquele sorrisão.

Volto às aspas do Lobo Antunes, e sorrio à página que nem datei. Falta a palavrinha “tempo” no trecho “ter demorado de mais”.

Em tempo, saiba o futuro: Lobo Antunes morreu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de março de 2026.

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