terça-feira, 10 de março de 2026

Banzai!

 

Banzai!

 

Adorável leitor, para não escrever sobre o Brasil que as pesquisas eleitorais vão configurando, eis uma crônica já publicada:

 

Juiz da situação, cabe-nos dizer que as meninas eram gêmeas, as roupas eram idênticas. Elas não tinham dúvidas: tinham unhas.

E exibiam vistoso laço de fita no coque lateral, no campo direito da cabeça. Para os pés estarem à altura da fineza que estampavam, os lustrosos sapatinhos também chancelavam: duas bonequinhas.

Até pelo modo como cada qual adentrou o salão, eram diferentes. Isso chancelou a nossa distinção.

Com cara de quem está querendo sair correndo, Mariana chegou de mão dada com a mãe; pedindo-lhe que o esperasse, o pai sorriu à porta, no encalço da saltitante Marina.

Já que elas eram cativantes, em minutos os convidados estavam ou simpáticos ou antipáticos.

Entretida a contar os feitos da sua prole, nossa jovem senhora se pôs a comer coxinha. Lindamente, falava e lambia os dedos.

Como a garganta secava pelo excesso de opiniões, nosso jovem marido bebia uma cervejinha. Ao que o gás subia das entranhas, não arrotava. Tratava o efeito como pum  o menos ruidoso possível.

Data vênia, nenhum vestido era impermeável à visão.

A mais exuberante na peraltice correu abraçar as amiguinhas que retribuíram, amarrotando-se em congraçamento festivo de alegria.

A menos atrevida tratou de fingir direitinho que dava importância a que a elogiassem o arranjo impecável da sua elegante figura.

Por nossa graça, admitimos: tecido algum era intocável.

Choramingando, frustrada com a própria incompetência, Mariana pediu à mãe que limpasse a manchinha de queijo cremoso que caiu do bolinho. Assim que ela o mordeu, aquilo caiu.

Endiabrada como as coleguinhas, Marina não ficaria tomando refri e usando guardanapo para limpar a boca. Sua energia era gritinhos.

Por rebarbativos: roupagem alguma resiste a traquinagens.

A dupla univitelina largou tudo que fazia para querer tomar para si o presente de aniversário que o menino de quatro anos, tão inocente, achou que poderia exibir impunemente.

Não adestrado pela coleira de um nome, era um ser fofinho.

Num átimo, Marina e Mariana esqueceram suas particularidades e viraram uma fera diante do cachorrinho que não era para elas.

Que ele não fosse destinado a elas, impossível!

Nem pai nem mãe abalariam a certeza: o cão era vítima.

Aquilo era errado. Precisava ser consertado. Devia. O erro teria de ser corrigido ou o mundo ficaria injusto. Nenhuma injustiça haveria de ser tolerada. Nenhuma vítima poderia ser ignorada.

Ignorar o caso seria feio, muito feio. Elas não eram feias!

O coitado do cãozinho estava nas mãos erradas. O bobalhão era muito criança. Nem cuidaria do pobrezinho, tão indefeso.

Unidas, tinham de impedir o absurdo de tamanha crueldade.

E damos fé: como atinada combatente das mazelas da realidade, Marina quis tomar à força o filhote; como intrépida heroína contra os vilões malvados, a Mariana quis apoderar-se do animalzinho.

Sem controle, a festa virou gritaria, tapa, unhada, choro, um caos.

Com o pandemônio, a realidade era crianças berrando, chorando, saindo no tapa. Nada mais pastelão: o bolo virou torta na cara.

Se pais e mães não podiam rir, teve um bebê que gargalhava.

E por nossa livre vontade, somos taxativos quando afirmamos que o meninão de nove meses no colo da avó fez o que nunca tinha feito.

Abrindo os bracinhos na direção do cãozinho, disse:

Banzé.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de março de 2026.

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