Banzai!
Adorável leitor, para não escrever sobre
o Brasil que as pesquisas eleitorais vão configurando, eis uma crônica já publicada:
Juiz da situação, cabe-nos dizer que as
meninas eram gêmeas, as roupas eram idênticas. Elas não tinham dúvidas: tinham
unhas.
E exibiam vistoso laço de fita no coque
lateral, no campo direito da cabeça. Para os pés estarem à altura da fineza que
estampavam, os lustrosos sapatinhos também chancelavam: duas bonequinhas.
Até pelo modo como cada qual adentrou o
salão, eram diferentes. Isso chancelou a nossa distinção.
Com cara de quem está querendo sair
correndo, Mariana chegou de mão dada com a mãe; pedindo-lhe que o esperasse, o
pai sorriu à porta, no encalço da saltitante Marina.
Já que elas eram cativantes, em minutos
os convidados estavam ou simpáticos ou antipáticos.
Entretida a contar os feitos da sua
prole, nossa jovem senhora se pôs a comer coxinha. Lindamente, falava e lambia
os dedos.
Como a garganta secava pelo excesso de opiniões, nosso jovem marido bebia uma cervejinha. Ao que o gás subia das entranhas, não arrotava. Tratava o efeito como pum ― o menos ruidoso possível.
Data vênia, nenhum vestido era impermeável
à visão.
A mais exuberante na peraltice correu
abraçar as amiguinhas que retribuíram, amarrotando-se em congraçamento festivo
de alegria.
A menos atrevida tratou de fingir
direitinho que dava importância a que a elogiassem o arranjo impecável da sua elegante
figura.
Por nossa graça, admitimos: tecido algum
era intocável.
Choramingando, frustrada com a própria
incompetência, Mariana pediu à mãe que limpasse a manchinha de queijo cremoso
que caiu do bolinho. Assim que ela o mordeu, aquilo caiu.
Endiabrada como as coleguinhas, Marina
não ficaria tomando refri e usando guardanapo para limpar a boca. Sua energia
era gritinhos.
Por rebarbativos: roupagem alguma resiste
a traquinagens.
A dupla univitelina largou tudo que
fazia para querer tomar para si o presente de aniversário que o menino de
quatro anos, tão inocente, achou que poderia exibir impunemente.
Não adestrado pela coleira de um nome,
era um ser fofinho.
Num átimo, Marina e Mariana esqueceram
suas particularidades e viraram uma fera diante do cachorrinho que não era para
elas.
Que ele não fosse destinado a elas, impossível!
Nem pai nem mãe abalariam a certeza: o
cão era vítima.
Aquilo era errado. Precisava ser
consertado. Devia. O erro teria de ser corrigido ou o mundo ficaria injusto. Nenhuma
injustiça haveria de ser tolerada. Nenhuma vítima poderia ser ignorada.
Ignorar o caso seria feio, muito feio. Elas
não eram feias!
O coitado do cãozinho estava nas mãos erradas.
O bobalhão era muito criança. Nem cuidaria do pobrezinho, tão indefeso.
Unidas, tinham de impedir o absurdo de tamanha
crueldade.
E damos fé: como atinada combatente das
mazelas da realidade, Marina quis tomar à força o filhote; como intrépida
heroína contra os vilões malvados, a Mariana quis apoderar-se do animalzinho.
Sem controle, a festa virou gritaria, tapa,
unhada, choro, um caos.
Com o pandemônio, a realidade era
crianças berrando, chorando, saindo no tapa. Nada mais pastelão: o bolo virou
torta na cara.
Se pais e mães não podiam rir, teve um bebê
que gargalhava.
E por nossa livre vontade, somos
taxativos quando afirmamos que o meninão de nove meses no colo da avó fez o que
nunca tinha feito.
Abrindo os bracinhos na direção do
cãozinho, disse:
Banzé.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 10 de março de 2026.
Nenhum comentário:
Postar um comentário