domingo, 29 de março de 2026

Desempate

 

Desempate

 

Minutinhos antes das dez, um caminhãozinho para do outro lado da rua. O motorista confere se estão fechados todos os botões da camisa. De ouvidos treinados, ambos assistirão à missa.

Quando o relógio da matriz passa uma semana inteira badalando os seus sinos com dois minutos de atraso, ele diz aos pés apressadões que as perninhas andam pedindo um chazinho de camomila para não ficarem à mercê de palpitações bizarras.

A principal sequela de gente que abusa das ideias é não crer que as garras dos pombos dão outro ritmo aos ponteiros ― pela trepidação.

― E pelo alvoroço que os coitos produzem, nossa!

O fato da hora certa querer chegar dois minutos depois do momento preciso não é nenhum recurso brincalhão da máquina. Há semana que o relógio da matriz fica endiabrado, isso quando os minutinhos cismam de concordar com o mundo, que avisa:

― Atrasos compensam quando adiantamentos são adiados.

Para corroborar que os ponteiros geraram empatia, nós arrolamos o testemunho daquele cidadão que ouve missas do outro lado da rua:

― Ontem fui pegar uma geladeira. E cheguei adiantado. Assim que me viu, o homem abraçou outro carreteiro. Dei como certo e justo que a culpa era dos pombos.

Assim como o relógio da matriz tem semana que passa badalando seus sinos com três minutos adiantados, é louvável especular sobre o futuro. Já que a copulação dos pombos influencia as pessoas, pululam outras segundas intenções.

Segundo o mesmíssimo motorista que transporta bugigangas:

― Daqui sete dias, virei pegar a geladeira que me será entregue. E chegarei atrasado três minutos. E o homem compreenderá que sempre quis fazer jus aos vinte reais da gorjeta.

Depois de um coito bem-sucedido, o pombo apontará:

― Quanto mais curto o voo, mais longuíssimo é o passado.

Quando os sons dos sinos chegam do passado três minutos antes, os sons dos sinos que chegarão dois minutos atrasados saberão a que se destina o amor dos pombos.

Por outro lado, o homem que premia o motorista do futuro acha que está pagando o certo a quem lhe trouxe a geladeira sem conhecer sua esposa ― nem pelo nome.

Tal homem, cuja esposa não conhece o motorista só pela fama, dá eco àquela trepidação que ocorre no meio da missa:

― Assiiiim seeeeja.

E o caminhãozinho não se abala, apenas se constrange.

Quando o chão da praça sente que os minutinhos são o resultado do embate entre o sexo dos pombos e os vinte reais a quem nem devia recebê-los, então, fica confirmado que o valor do bico está na bicada.

Diz o pombo à pomba que arrulha olhando pra baixo:

― A força da vida está na bicadinha em cima da geladeira.

A pomba nem se volta:

― Pinguins, meu amor. E eles quebram o bico quando caem.

Para apoiar nossa intenção de sermos justos, fomos persuadidos a dar o testemunho do ponteirinho:

― Achar que as chances são maiores quando não fazer nada é dar fé que geladeira, caminhãozinho e padre fazem parte de um jogo maior que a vida.

― Par ou ímpar, pombinhos do relógio? ― matuta o vira-lata, bom maroto.

Para que a missa das dez começasse às dez, demos cinquentinha pro rapaz da manutenção do relógio tomar um trago na feira.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de março de 2026.

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