terça-feira, 7 de abril de 2026

A insânia da vez

 

A insânia da vez

 

Não foi por sugestão de um espírito demoníaco que, lendo crônica alheia, tive a ideia de usar o tal botão da liberdade, o foda-se.

Tão estimulante quanto café, encarei o mundo.

As pessoas usam o botãozinho nas situações mais corriqueiras. Tal utilidade universal é um recurso tão bom que a mão treme menos.

Nesta época, em que tudo se estabelece como embate entre a torta de palmito e a musse de limão, o pastelão é o resolutor universal de adversidades.

Ajustando o soco-inglês, diz a sensata sensatez:

— Tá na cara!

Desde que Buda era Gautama, passa pela mente da boa gente que chupa picolé que a vida seria menos terrível se os neurônios inflassem o bote salva-vidas quando brota um furo na cachola.

Como não dá para impedir que a água leve para o fundo o que não flutua, convém aprender a pensar.

Às pessoas que vestem colete salva-vidas o remador diz que suas preces trouxeram o bote para quatro braçadas da margem.

— Este rio não tem jacarés nem crocodilos.

Ninguém pulou na água.

— Não tenham medo. Estas águas estão livres de piranhas.

Um homem saltou. Ocupado em pegar o boné que saiu da cabeça, nadou até recuperá-lo. Já em terra, ele acenou.

Uma mulher abraçou a filha. A menina disse que tinha medo. A mãe disse que tudo ficaria bem. O remador as empurrou. Porque souberam nadar separadamente, elas chegaram à margem.

Sem se admirar da determinação de ambas, o rapaz que não tirava as mãos dos fones disse que não sabia o tanto que seus braços iriam aguentar. Ele nunca carregou um saco de arroz.

— Cara, eu peso mais de cem quilos.

E o bote estava indo pra mais perto da beira.

— A água nem vai chegar no queixo.

Um senhor, cuja perda muscular indica ter quase cem anos, acende um cigarrinho de palha. Traga uma, duas vezes. Tosse. Traga outra e mais outra. E tosse. Este senhorzinho fala devagar:

— Tá tudo bem. Jesus sabe que o Pai não vai ter problema comigo. Quando eu passar pelos portões, vou jogar xadrez, vou lavar as minhas cuecas e juro que vou fumar bem longe de quem não suporta quem dá um tapinha de boa.

Desde que ganhou o primeiro maço de cigarros no tiro ao alvo num parque de diversões, quando ele ia fazer quatorze anos, o bom homem fala devagarinho:

— Nunca filei cigarro. Nunca escarrei na cara de ninguém. Nunca deixei de fumar um dia sequer.

À porta do Paraíso, São Pedro não hesita. Assim que ouve o relato do recém-afogado, o santo não se deixa enrolar.

O Porteiro Celestial pensou:

O desgraçado não viu as nuvens vindo? Como é que ele não notou que o azul passou a cinzento?

Com cara de quem vive no lado oculto da lua, de fala doce, aquela fala mansinha até demais, o tal fumante:

— E aí, meu chapa, vai ficar nessa moleza?

Fedendo na mente a palha do bote, o portador da chave-mestra:

— Foda-se!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de abril de 2026.

Nenhum comentário:

Postar um comentário