quinta-feira, 12 de março de 2026

Sessão de cura

 

Sessão de cura

 

Há três dias chove. Quando parece que vai parar, vem a garoa pra deixar a gente ressabiada. Se o céu não quer brincadeira, a garoinha se transforma em certo chuvisqueiro, daquele tipo que testa a pessoa de bom senso: uma japona impermeável dá conta ou guarda-chuva é item indispensável?

Sendo dilema a ser encarado como mais uma dessas banalidades tão chãs, basta calçar dois pares de meia.

No quentinho, até a tevê fica melhor. A qualquer hora. Mesmo que o cachorro lata que é o seu momento de ir à árvore da esquina, a TV produz calor, sim.

Entre ficar em casa ou zanzar na chuva, sabe-se que muita gente se deixa abalar. Pelo conhecimento que tem de si, a pessoa sensata não desmorona com bobagem.

Quando os tijolos da sensatez não barram os treze graus que a fazem espirrar, é chegado o instante de fazer o melhor. Não é o caso de ignorar a causa da alergia. Nem o chá nem as meias hão de adiar o que precisa ser decidido: ir ou não à farmácia?

O cachorro terá o tronco para batizar por mais uma vez. A pessoa aproveitará para pesar-se. O direito a dar desconto será ofertado pela farmácia. E todos, sem ironia, ficarão satisfeitos.

Ela compra a aspirina. Toma um comprimido ali mesmo. Pede que meçam a pressão. Não desmaiará, mas quase. Vem um espirro atrás de outro. Vai sentar-se na saleta das aplicações. Sente que ruboriza. Pede inalação. Quer que tirem a temperatura. Pede que coloquem o termômetro no sovaco. Ainda bem, não enfiam o treco na boca. Dão uma injeção. Ressaltam que a mais dolorosa tem aquele remédio de resposta ultrarrápida. Deita de bruços. Estranho. Não lhe é dito que a tribal na sua nádega é uma bela tatuagem.

Embora ache que tem nádegas de irrefutável formosura, o juízo da pessoa pede um sorriso. Para que iria se vangloriar de que refeições balanceadas e anos de academia são fatores decisivos para glúteos de boa aparência, seria magnífico se lhe sorrissem.

Há, evidentemente, uma boa explicação para o pug latir que nem pastor alemão. Mal a pessoa o amarrou na lixeira diante da farmácia, apareceram vira-latas cheirar as suas partes bem asseadas.

Já a indiferença de quem precisa fazer a aplicação do antialérgico tem outro fundamento.

Depois de aplicar injeção em bundas dos mais variados formatos, é razoável que funcionário de farmácia nem se comova.

Se fosse pessoa barraqueira, ela iria à gerência. Tintim por tintim, contaria qual a rotina necessária para manter o corpo admirável numa mente admirável.

A esta altura, nem o pug late. A cachorrada se diverte. Não há um cão que não cheire, não seja cheirado, não lamba nem seja lambido.

Pelo tratamento recebido, o cachorrinho vai voltar para casa sem ter reclamações da vizinhança.

Pela pronta recuperação depois de uma sonequinha no banco dos fundos da farmácia, a pessoa poderá garantir que está curada.

Até vir a próxima crise, na semana que vem.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de março de 2026.

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