Sessão
de cura
Há três dias chove. Quando parece que
vai parar, vem a garoa pra deixar a gente ressabiada. Se o céu não quer
brincadeira, a garoinha se transforma em certo chuvisqueiro, daquele tipo que testa
a pessoa de bom senso: uma japona impermeável dá conta ou guarda-chuva é item
indispensável?
Sendo dilema a ser encarado como mais
uma dessas banalidades tão chãs, basta calçar dois pares de meia.
No quentinho, até a tevê fica melhor. A
qualquer hora. Mesmo que o cachorro lata que é o seu momento de ir à árvore da
esquina, a TV produz calor, sim.
Entre ficar em casa ou zanzar na chuva, sabe-se
que muita gente se deixa abalar. Pelo conhecimento que tem de si, a pessoa
sensata não desmorona com bobagem.
Quando os tijolos da sensatez não barram
os treze graus que a fazem espirrar, é chegado o instante de fazer o melhor.
Não é o caso de ignorar a causa da alergia. Nem o chá nem as meias hão de adiar
o que precisa ser decidido: ir ou não à farmácia?
O cachorro terá o tronco para batizar
por mais uma vez. A pessoa aproveitará para pesar-se. O direito a dar desconto
será ofertado pela farmácia. E todos, sem ironia, ficarão satisfeitos.
Ela compra a aspirina. Toma um
comprimido ali mesmo. Pede que meçam a pressão. Não desmaiará, mas quase. Vem um
espirro atrás de outro. Vai sentar-se na saleta das aplicações. Sente que ruboriza.
Pede inalação. Quer que tirem a temperatura. Pede que coloquem o termômetro no
sovaco. Ainda bem, não enfiam o treco na boca. Dão uma injeção. Ressaltam que a
mais dolorosa tem aquele remédio de resposta ultrarrápida. Deita de bruços. Estranho.
Não lhe é dito que a tribal na sua nádega é uma bela tatuagem.
Embora ache que tem nádegas de irrefutável
formosura, o juízo da pessoa pede um sorriso. Para que iria se vangloriar de
que refeições balanceadas e anos de academia são fatores decisivos para glúteos
de boa aparência, seria magnífico se lhe sorrissem.
Há, evidentemente, uma boa explicação para
o pug latir que nem pastor alemão. Mal a pessoa o amarrou na lixeira diante da
farmácia, apareceram vira-latas cheirar as suas partes bem asseadas.
Já a indiferença de quem precisa fazer a
aplicação do antialérgico tem outro fundamento.
Depois de aplicar injeção em bundas dos
mais variados formatos, é razoável que funcionário de farmácia nem se comova.
Se fosse pessoa barraqueira, ela iria à
gerência. Tintim por tintim, contaria qual a rotina necessária para manter o corpo
admirável numa mente admirável.
A esta altura, nem o pug late. A
cachorrada se diverte. Não há um cão que não cheire, não seja cheirado, não
lamba nem seja lambido.
Pelo tratamento recebido, o cachorrinho
vai voltar para casa sem ter reclamações da vizinhança.
Pela pronta recuperação depois de uma
sonequinha no banco dos fundos da farmácia, a pessoa poderá garantir que está
curada.
Até vir a próxima crise, na semana que
vem.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 12 de março de 2026.
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