quinta-feira, 26 de março de 2026

Fala, Célio

 

Fala, Célio

 

O doutor Honório foi casado com dona Márcia. Sem filhos, eram um casal harmônico. Depois que nasceram, a alegria da desestabilização os fez roucos, pelos gritos; descabelados, por apartarem os briguentos; religiosos, por rezarem durante o sexo ― filhos, filhos, filhos.

Mauro Maurício, o primogênito, gosta de pescaria. Nada o demove de ir cedo pro alto-mar. A sua esposa sempre tem outros planos. Desde o casamento, há vinte e dois anos, quer tirar selfies e mais selfies com a Minnie ― se Deus quiser, e Ele há de querer.

Se não orasse mais, estariam divorciados desde que ela foi atacada por uma frota de caravelas no Ano Novo de 2000. E o maridão lhe deu 50 reais pro protetor solar. Nem foram R$ 100!

O do meio, Paulo Patrício, chegou à maioridade jogando games. E por ter herdado um imóvel, viaja semanalmente para Paraty.

A casa foi posta em testamento por conta das suas palhaçadas num hospital oncológico. Ele colocava nariz vermelho e uma peruca de juba roxa, só a sua figura já fazia rir quem nem tinha casa em Paraty.

Já a filha...

Aquela meninota carinhosa com coelhinhos e chinchilas radicalizou na puberdade. Passou a ler autoajuda, a fazer meditações holísticas. Aderiu a uma ONG, cujos protestos oceanos afora a afastaram de seus pais.

Assim que souberam que Cecília Sueli quase morreu em Abrolhos, há quinze anos não pronunciam o nome dela.

Dona Márcia e o doutor Honório organizavam as bodas de prata, só que o destino interpôs-se, separando-os de modo súbito.

― Que vergonha!

Uma mãe de família trocar o marido por um rapaz.

― Se não bastasse a idade, um surfista!

Paulo e Mauro bandearam pro lado do pai assim que souberam da atitude que julgaram acintosa.

Chapada de champanhe, xeretando o zap, Ciça não aguentou ficar em silêncio. E foi de madrugada que ela telefonou:

― Dona Márcia! Embora a senhora tenha demorado tanto pra sacar que a felicidade quem conquista é a gente, eu estou muito, muito feliz. Eu quero mais é que a senhora seja muito, muito feliz, dona Márcia.

O tal surfista que nunca foi de pegar onda tem o hábito de ficar na beira-mar. Uma hora por dia, lá está ele a admirar as aves.

Ele até gostaria de chamar de gaivotas, atobás e fragatas, se lhes conhecesse as características.

Célio, o novo companheiro, não é dado a chamá-la de ‘namorada’, ‘esposa’ ou ‘minha mulher’. Como o seu nome é Márcia, ele a chama, ou a ela se refere, pelo seu nome ― Márcia.

― Fiz picadinho do pôster do Médici que aquele pústula tinha posto na sala de vocês, Márcia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de março de 2026.

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