Fala,
Célio
O doutor Honório foi casado com dona Márcia. Sem filhos, eram um casal harmônico. Depois que nasceram, a alegria da desestabilização os fez roucos, pelos gritos; descabelados, por apartarem os briguentos; religiosos, por rezarem durante o sexo ― filhos, filhos, filhos.
Mauro Maurício, o primogênito, gosta de pescaria. Nada o demove de ir cedo pro alto-mar. A sua esposa sempre tem outros planos. Desde o casamento, há vinte e dois anos, quer tirar selfies e mais selfies com a Minnie ― se Deus quiser, e Ele há de querer.
Se não orasse mais, estariam divorciados
desde que ela foi atacada por uma frota de caravelas no Ano Novo de 2000. E o
maridão lhe deu 50 reais pro protetor solar. Nem foram R$ 100!
O do meio, Paulo Patrício, chegou à
maioridade jogando games. E por ter herdado um imóvel, viaja semanalmente para
Paraty.
A casa foi posta em testamento por conta
das suas palhaçadas num hospital oncológico. Ele colocava nariz vermelho e uma peruca
de juba roxa, só a sua figura já fazia rir quem nem tinha casa em Paraty.
Já a filha...
Aquela meninota carinhosa com coelhinhos
e chinchilas radicalizou na puberdade. Passou a ler autoajuda, a fazer
meditações holísticas. Aderiu a uma ONG, cujos protestos oceanos afora a
afastaram de seus pais.
Assim que souberam que Cecília Sueli quase
morreu em Abrolhos, há quinze anos não pronunciam o nome dela.
Dona Márcia e o doutor Honório
organizavam as bodas de prata, só que o destino interpôs-se, separando-os de modo
súbito.
― Que vergonha!
Uma mãe de família trocar o marido por
um rapaz.
― Se não bastasse a idade, um surfista!
Paulo e Mauro bandearam pro lado do pai
assim que souberam da atitude que julgaram acintosa.
Chapada de champanhe, xeretando o zap, Ciça
não aguentou ficar em silêncio. E foi de madrugada que ela telefonou:
― Dona Márcia! Embora a senhora tenha demorado
tanto pra sacar que a felicidade quem conquista é a gente, eu estou muito,
muito feliz. Eu quero mais é que a senhora seja muito, muito feliz, dona Márcia.
O tal surfista que nunca foi de pegar
onda tem o hábito de ficar na beira-mar. Uma hora por dia, lá está ele a
admirar as aves.
Ele até gostaria de chamar de gaivotas,
atobás e fragatas, se lhes conhecesse as características.
Célio, o novo companheiro, não é dado a chamá-la de ‘namorada’, ‘esposa’ ou ‘minha mulher’. Como o seu nome é Márcia, ele a chama, ou a ela se refere, pelo seu nome ― Márcia.
― Fiz picadinho do pôster do Médici que
aquele pústula tinha posto na sala de vocês, Márcia.
Ibiúna, dia 26 de março de 2026.
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