No
dia 23 de fevereiro, a pessoa mais velha que eu conheço fez 97 anos. Fui
abraçá-la, claro. Principalmente, fui escutá-la.
Este
amigo tão querido é mesmo um sujeito ímpar. Pelo destemor em contar histórias
que fazem dele o mais inventivo seguidor do Barão de Münchausen, o Anacleto é
uma das sensações de uma cidadezinha mineira chamada São Francisco do Belo
Monte.
Como
saímos depois do almoço, pernoitamos em Mariana.
De
tão exausto, dormi depois das três. Modo de dizer, pois os pios de uma coruja eram
assombrosos. Assim, meio vigilante, meio vigiado, a aurora entrou sem bater.
E
foi bom, já que meu estado mental pedia que Hélio corresse tirar de mim os
augúrios mais tenebrosos.
Da
cama do hotelzinho em Mariana ao abraço no meu aventureiro camarada, até a
minha enfermeira poderia vencer a jornada a pé.
São vinte e quatro quilômetros que ela faria em cinco horas, mesmo tendo de parar num posto ― para fazer o número um.
Além
de cuidar de mim, a Eurídice é a irmã mais nova do Anacleto. Vivemos juntos o
bastante para que nosso filho caçula nos pedisse que batizássemos o Aurélio, o nosso
primeiro bisnetinho.
Ela
e eu já temos planos pro futuro: vamos nos casar antes de 2029, ano em que ela
fará setenta anos.
Minha
amada entrou na história quando Ganimedes, o avô paterno do Anacleto, voltou
para Minas. Tuberculoso, o grego mais dionisíaco que tive o prazer de servir em
Petrópolis foi para casa disposto a morrer na cama em que seus pais o geraram.
A
morada da única família grega de São Francisco fica na Serra das Maritacas. Além
dessas barulhentinhas, a fazenda tem bois, riachinho e uma capelinha, dedicada
à Santa Bárbara.
As
mãos da protetora não desviaram o raio que matou Ganimedes. Apesar dos cento e
três anos de intelecto intacto, o ancião foi pescar no açude da propriedade. Ao
lado do corpo, tinha uma tilápia.
Também
tinha uma tilápia no caminho do Anacleto, que, num lapso de racionalidade
extrema, programou-se para atravessar a pé o canal de Corinto.
Um
mês depois da morte do avô, meu indomável amigo decidiu-se pela travessia que o
pai do seu pai realizou em agosto de 1889.
Heráclito
não fraquejou. Não mesmo, já que os tabloides de Corinto checaram a informação
com o próprio “protegido de Hera”, que saiu se vangloriando pelo Peloponeso
inteiro.
Nesse
Século XIX, alguém caminhar sobre o gelo em pleno verão europeu era uma façanha. Bravo, Heráclito!
Assim
sendo, é verdade que os vinte e quatro quilômetros em linha reta foram feitos,
sem nenhum ziguezague, nas relatadas três horas e quarenta e sete minutos.
Como o número 47 entrou na história, urge mencionar que Anacleto derramou champanhe em Carmen Miranda ― numa festa no Palácio Quitandinha.
Segundo ele, foi naquele cassino que, em 1947, a mais brasileirinha dos marquenses acertou no milhar ― casando-se com um americano, produtor de cinema.
Em uma biografia da cantora, pode ser que isso não se revele mais uma rocambolice do meu amigo.
Já
que é pra falar de boca cheia: naquele ano de 1947, ao completar 18 anos,
Anacleto, em vez de ir servir o Exército, foi para Maracangalha com o Dorival
Caymmi.
Foi
dessa realidade que nasceu aquela canção...
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 31 de março de 2026.
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