terça-feira, 31 de março de 2026

Os rocamboles do Anacleto

 

Os rocamboles do Anacleto

 

No dia 23 de fevereiro, a pessoa mais velha que eu conheço fez 97 anos. Fui abraçá-la, claro. Principalmente, fui escutá-la.

Este amigo tão querido é mesmo um sujeito ímpar. Pelo destemor em contar histórias que fazem dele o mais inventivo seguidor do Barão de Münchausen, o Anacleto é uma das sensações de uma cidadezinha mineira chamada São Francisco do Belo Monte.

Como saímos depois do almoço, pernoitamos em Mariana.

De tão exausto, dormi depois das três. Modo de dizer, pois os pios de uma coruja eram assombrosos. Assim, meio vigilante, meio vigiado, a aurora entrou sem bater.

E foi bom, já que meu estado mental pedia que Hélio corresse tirar de mim os augúrios mais tenebrosos.

Da cama do hotelzinho em Mariana ao abraço no meu aventureiro camarada, até a minha enfermeira poderia vencer a jornada a pé.

São vinte e quatro quilômetros que ela faria em cinco horas, mesmo tendo de parar num posto ― para fazer o número um.

Além de cuidar de mim, a Eurídice é a irmã mais nova do Anacleto. Vivemos juntos o bastante para que nosso filho caçula nos pedisse que batizássemos o Aurélio, o nosso primeiro bisnetinho.

Ela e eu já temos planos pro futuro: vamos nos casar antes de 2029, ano em que ela fará setenta anos.

Minha amada entrou na história quando Ganimedes, o avô paterno do Anacleto, voltou para Minas. Tuberculoso, o grego mais dionisíaco que tive o prazer de servir em Petrópolis foi para casa disposto a morrer na cama em que seus pais o geraram.

A morada da única família grega de São Francisco fica na Serra das Maritacas. Além dessas barulhentinhas, a fazenda tem bois, riachinho e uma capelinha, dedicada à Santa Bárbara.

As mãos da protetora não desviaram o raio que matou Ganimedes. Apesar dos cento e três anos de intelecto intacto, o ancião foi pescar no açude da propriedade. Ao lado do corpo, tinha uma tilápia.

Também tinha uma tilápia no caminho do Anacleto, que, num lapso de racionalidade extrema, programou-se para atravessar a pé o canal de Corinto.

Um mês depois da morte do avô, meu indomável amigo decidiu-se pela travessia que o pai do seu pai realizou em agosto de 1889.

Heráclito não fraquejou. Não mesmo, já que os tabloides de Corinto checaram a informação com o próprio “protegido de Hera”, que saiu se vangloriando pelo Peloponeso inteiro.

Nesse Século XIX, alguém caminhar sobre o gelo em pleno verão europeu era uma façanha. Bravo, Heráclito!

Assim sendo, é verdade que os vinte e quatro quilômetros em linha reta foram feitos, sem nenhum ziguezague, nas relatadas três horas e quarenta e sete minutos.

Como o número 47 entrou na história, urge mencionar que Anacleto derramou champanhe em Carmen Miranda ― numa festa no Palácio Quitandinha.

Segundo ele, foi naquele cassino que, em 1947, a mais brasileirinha dos marquenses acertou no milhar ― casando-se com um americano, produtor de cinema.

Em uma biografia da cantora, pode ser que isso não se revele mais uma rocambolice do meu amigo.

Já que é pra falar de boca cheia: naquele ano de 1947, ao completar 18 anos, Anacleto, em vez de ir servir o Exército, foi para Maracangalha com o Dorival Caymmi.

Foi dessa realidade que nasceu aquela canção...

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de março de 2026.

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