Jararaca
assanhada
O bar não estava cheio. A tevê estava ligada.
Sem que eu tivesse pedido, o sujeito começou a comentar o que a TV falava.
Com seriedade, não titubeio. Juro que
estou disposto a projetar as consequências. Assim que começam a falar na TV, paro
o que estou fazendo. Eu podia ter pego papel e caneta, mas a minha mente tem o
dom de decorar o que a tevê mostra.
De acordo com os gráficos, os números não
alucinam. Já que eles conseguem arquitetar o que estão dizendo, noto que minha
sanidade fica imunizada.
Com os anticorpos da realidade, fico
bem.
Compenetrado com o momento, não cochilo.
E reafirmo que estou comprometido a respeitar o que soa lógico, e sagrado.
Embora me escape o comportamento da
inflação, ouço o que é repetido na televisão. Ouço que nem pisco.
Escapa-me tal piscadela: cadê os nomes dos
artistas gráficos que formularam a maravilha que traduz o que matutam os
economistas?
Sim, a maravilha funciona: tem o verde a
indicar que os dados são positivos; tem o vermelho a arredondar para baixo o
que podia sugerir fumaças de pessimismo.
Sendo x o eixo de um amanhã sensacional,
com o bolso cheio, e y o eixo em que o passado era muito mais sombrio, como
outro ônibus queimado.
Assim, na tela, eis a maneira encontrada
para dar a público o que tem que ficar exposto o tempo que for suficiente para
que a economia pareça agir como ciência racionalmente produtiva.
Pra felicidade irrestrita, às pessoas
que sentem que a felicidade é aquele sentimento de ter feito o gol da virada
antes do intervalo digo que não vou reforçar o traço que serpenteia no telão.
Olha aí! (Olho nada) Caraca!
A serpente apresentada na TV é a evidência
da tentação do bem. Vou ter de mandar um áudio pro grupo da minha família. A
gente tem que acentuar os benefícios da credulidade.
Sou crédulo porque confio. E confiança é
escudo a me proteger de quem não venera ovos classe A.
Se ainda não sei no que boto fé, virá o
dia em que atacarei quem me ataca. Será minha melhor transfiguração: por dar à
luz pela boca, serei bela; jararaca, caçarei saruês.
Gordos, magros, rabudos, focinhudos –
todos saruês.
Só espero que não me matem com celulares
quando eu solicitar a minha participação. Quero anunciar ao vivo que tudo
correu bem com a gestação.
Como bons indivíduos da espécie, minhas
doze jararaquinhas irão colaborar. Caçando saruês, serão instrumento pra maior sensação
de segurança.
Já que tanto ambicionamos que o eixo de
noites bem dormidas vá para cima sem enovelar com besteirinhas, o espectro de
boletos a ser pagos subirá com igual vigor.
O que é seguro enfatizar?
A televisão não diz que ter mais dívidas
é o índice mais realista de que jararaca não economiza botes quando está
faminta.
Não estou certo?
Antes que o sabichão dissesse o que era
o melhor para mim, pedi a conta. Paguei só a minha, claro.
Para não acabar envenenado pela bile do
indignado especialista, voei embora. Pro meu sofá.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 17 de março de 2026.
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