terça-feira, 17 de março de 2026

Jararaca assanhada

 

Jararaca assanhada

 

O bar não estava cheio. A tevê estava ligada. Sem que eu tivesse pedido, o sujeito começou a comentar o que a TV falava.

Com seriedade, não titubeio. Juro que estou disposto a projetar as consequências. Assim que começam a falar na TV, paro o que estou fazendo. Eu podia ter pego papel e caneta, mas a minha mente tem o dom de decorar o que a tevê mostra.

De acordo com os gráficos, os números não alucinam. Já que eles conseguem arquitetar o que estão dizendo, noto que minha sanidade fica imunizada.

Com os anticorpos da realidade, fico bem.

Compenetrado com o momento, não cochilo. E reafirmo que estou comprometido a respeitar o que soa lógico, e sagrado.

Embora me escape o comportamento da inflação, ouço o que é repetido na televisão. Ouço que nem pisco.

Escapa-me tal piscadela: cadê os nomes dos artistas gráficos que formularam a maravilha que traduz o que matutam os economistas?

Sim, a maravilha funciona: tem o verde a indicar que os dados são positivos; tem o vermelho a arredondar para baixo o que podia sugerir fumaças de pessimismo.

Sendo x o eixo de um amanhã sensacional, com o bolso cheio, e y o eixo em que o passado era muito mais sombrio, como outro ônibus queimado.

Assim, na tela, eis a maneira encontrada para dar a público o que tem que ficar exposto o tempo que for suficiente para que a economia pareça agir como ciência racionalmente produtiva.

Pra felicidade irrestrita, às pessoas que sentem que a felicidade é aquele sentimento de ter feito o gol da virada antes do intervalo digo que não vou reforçar o traço que serpenteia no telão.

Olha aí! (Olho nada) Caraca!

A serpente apresentada na TV é a evidência da tentação do bem. Vou ter de mandar um áudio pro grupo da minha família. A gente tem que acentuar os benefícios da credulidade.

Sou crédulo porque confio. E confiança é escudo a me proteger de quem não venera ovos classe A.

Se ainda não sei no que boto fé, virá o dia em que atacarei quem me ataca. Será minha melhor transfiguração: por dar à luz pela boca, serei bela; jararaca, caçarei saruês.

Gordos, magros, rabudos, focinhudos – todos saruês.

Só espero que não me matem com celulares quando eu solicitar a minha participação. Quero anunciar ao vivo que tudo correu bem com a gestação.

Como bons indivíduos da espécie, minhas doze jararaquinhas irão colaborar. Caçando saruês, serão instrumento pra maior sensação de segurança.

Já que tanto ambicionamos que o eixo de noites bem dormidas vá para cima sem enovelar com besteirinhas, o espectro de boletos a ser pagos subirá com igual vigor.

O que é seguro enfatizar?

A televisão não diz que ter mais dívidas é o índice mais realista de que jararaca não economiza botes quando está faminta.

Não estou certo?

Antes que o sabichão dissesse o que era o melhor para mim, pedi a conta. Paguei só a minha, claro.

Para não acabar envenenado pela bile do indignado especialista, voei embora. Pro meu sofá.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de março de 2026.

Nenhum comentário:

Postar um comentário