A
muda
Às vezes faço coisas pelas quais prefiro
nem me desculpar, de tão vexatórias. Sábado passado, em vez de almoçar na casa
de um casal amigo, a Clotilde e o Aristeu, fui tomar cerveja. Se apenas
bebesse, não teria voltado para casa tão somente de cueca.
Só que o botequim que frequento tem a
estufa dos salgadinhos ao lado do caixa. Quem toma cerveja, precisa ir ao
banheiro. A chave da salvação fica no caixa, logo...
As portas da desgraça abriram-se: uma
coxinha.
― Põe na conta, Olavo.
Os amigos chegaram. Se vieram cedo, beberíamos
muito.
A bexiga ganha prioridade quando tenho
que me segurar, batendo os dedões dos pés um no outro. E lá fui eu.
De passagem, só pela chave, vi algo comovente.
O quibe era de ontem. O último. Antes de seguir o meu caminho, comi-o. Porque sou
um sujeito piedoso, não fui capaz de ignorar o coitado. Com aqueles olhinhos suplicando
por uma boca, Olavo acrescentou cinco reais na minha conta.
O papo fluía. A boca não ligava pros
mosquitos. A língua deu pinta que sabia falar como os anjos.
Por conhecer os meios para impedir que a
conversa desandasse, me inclinei. Ouvi melhor, mas não entendi. E anuí.
Como a urina pressionava, fui pro beco
ao lado do bar.
Na ruazinha sem saída, o muro é alto,
todo rabiscado. Nele há um grafite. Garanto que há beleza. Ele é a reprodução
elaboradíssima, e fiel, da capa do volume 4 da obra Nausicaä do Vale do Vento.
Além da princesa guerreira que está no título do mangá, Miyazaki pôs ainda
Chikuku, que é uma criança.
Quase urino num cachorro que usava o
poste.
Na volta para minha banqueta junto ao
balcão, fizeram-me parar. Como não atinei de pronto, mostraram-me que estavam
equipados. E levaram o dinheiro que tinha na carteira.
― Graças a Deus! Foram bons contigo.
Tomamos outra garrafa.
― Ainda bem que você não anda com
cartões.
Dividimos uma porção de calabresa.
― Fazer o B.O. teria que ser a primeira providência.
Sem escolta, fui ao mictório.
Como eu estava demorando pra voltar,
bateram na porta. E nada.
O dono do bar abriu-a.
A cena era deplorável: só de cueca, a barriga
dava o apoio que eu achava suficiente para lavar a calça, as meias e a reputação.
Em direção ao ralo, um corregozinho
amarronzado ia deixando os restos do que havia saído de mim.
Do jeito que me encontraram, levaram-me pro
beco. Como o bar não tinha mangueira, baldes e baldes foram necessários. A
faxina foi o bastante para que me despachassem pro pronto-socorro.
Fiquei no soro. Deram pílula. Aplicaram
sei lá o quê. Se muito não me engano, fiquei lá só uma hora.
Para não estragar o sábado de ninguém:
― Todo mundo pode ficar tranquilo. Hoje
eu vim preparado.
Sim. A sacolinha tem mesmo uma muda de
roupa.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 22 de março de 2026.
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