domingo, 22 de março de 2026

A muda

 

A muda

 

Às vezes faço coisas pelas quais prefiro nem me desculpar, de tão vexatórias. Sábado passado, em vez de almoçar na casa de um casal amigo, a Clotilde e o Aristeu, fui tomar cerveja. Se apenas bebesse, não teria voltado para casa tão somente de cueca.

Só que o botequim que frequento tem a estufa dos salgadinhos ao lado do caixa. Quem toma cerveja, precisa ir ao banheiro. A chave da salvação fica no caixa, logo...

As portas da desgraça abriram-se: uma coxinha.

― Põe na conta, Olavo.

Os amigos chegaram. Se vieram cedo, beberíamos muito.

A bexiga ganha prioridade quando tenho que me segurar, batendo os dedões dos pés um no outro. E lá fui eu.

De passagem, só pela chave, vi algo comovente. O quibe era de ontem. O último. Antes de seguir o meu caminho, comi-o. Porque sou um sujeito piedoso, não fui capaz de ignorar o coitado. Com aqueles olhinhos suplicando por uma boca, Olavo acrescentou cinco reais na minha conta.

O papo fluía. A boca não ligava pros mosquitos. A língua deu pinta que sabia falar como os anjos.

Por conhecer os meios para impedir que a conversa desandasse, me inclinei. Ouvi melhor, mas não entendi. E anuí.

Como a urina pressionava, fui pro beco ao lado do bar.

Na ruazinha sem saída, o muro é alto, todo rabiscado. Nele há um grafite. Garanto que há beleza. Ele é a reprodução elaboradíssima, e fiel, da capa do volume 4 da obra Nausicaä do Vale do Vento. Além da princesa guerreira que está no título do mangá, Miyazaki pôs ainda Chikuku, que é uma criança.

Quase urino num cachorro que usava o poste.

Na volta para minha banqueta junto ao balcão, fizeram-me parar. Como não atinei de pronto, mostraram-me que estavam equipados. E levaram o dinheiro que tinha na carteira.

― Graças a Deus! Foram bons contigo.

Tomamos outra garrafa.

― Ainda bem que você não anda com cartões.

Dividimos uma porção de calabresa.

― Fazer o B.O. teria que ser a primeira providência.

Sem escolta, fui ao mictório.

Como eu estava demorando pra voltar, bateram na porta. E nada.

O dono do bar abriu-a.

A cena era deplorável: só de cueca, a barriga dava o apoio que eu achava suficiente para lavar a calça, as meias e a reputação.

Em direção ao ralo, um corregozinho amarronzado ia deixando os restos do que havia saído de mim.

Do jeito que me encontraram, levaram-me pro beco. Como o bar não tinha mangueira, baldes e baldes foram necessários. A faxina foi o bastante para que me despachassem pro pronto-socorro.

Fiquei no soro. Deram pílula. Aplicaram sei lá o quê. Se muito não me engano, fiquei lá só uma hora.

Para não estragar o sábado de ninguém:

― Todo mundo pode ficar tranquilo. Hoje eu vim preparado.

Sim. A sacolinha tem mesmo uma muda de roupa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de março de 2026.

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