quinta-feira, 19 de março de 2026

Evolução científica

 

Evolução científica

 

Para não perder o amigo, digo a verdade. Ele acha que relutância é coisa de gente marrenta. Não sou turrão. Mesmo sabendo que não escrevo ficção científica, o Luisinho insiste.

A ideia é simples: como as pessoas são sessenta por cento água e a água não se conforma em ficar acomodada num baldinho de cinco litros, os seres humanos têm que ser enquadrados.

Quem come batata frita sabe que ela fica mais saborosa quando bem salgadinha. Só que o sal aumenta a pressão. O problema é que a pessoa que come batatinha precisa de guaraná pra tirar a salmoura da boca. E tal combinação ― do sal das fritas com a cafeína do refri ― reforça a lógica da autossabotagem:

― Mais com mais sempre dá menos.

― E isso te leva a deduzir o quê?

Que começam as abelhinhas nos ouvidos. Os pés imploram que o chão não goste de ser o convés do Titanic depois que o barquinho foi abalroado pelo iceberg. O nariz resolve que sangrar é o melhor modo de diminuir a falta de ar. Como a coisa tende a ficar pior, a dorzinha no peito cai bem com o desmaio.

― E o rosto assegura: quando a gente perde os sentidos, tudo que é sólido machuca sem dó.

― Onde estão os benditos robôs que não nos acodem?

― Eis o papel das benditas máquinas: obrigar os seres humanos a serem menos compulsivos.

― Malditos comedores de batata frita!

Luisinho me encara com o desdém de quem conhece a verdade, e precisa dizê-la sem interrupções. Afinal, a verdade só libertará aquele que aceitá-la como o veneno bem dosado que fortalece.

― Foi isso que a tia Maricota te disse, Luisinho?

Ao antever que abrir e fechar geladeira faz bem pros bíceps:

― Pois é, gente que fica abrindo e fechando geladeira está perdida entre o sorvetinho de chocolate e de flocos.

Já que a primeira lei da nova era robótica é a preservação da vida humana, as geladeiras só serão abertas com biometria. Isso impedirá que a pessoa coma torresmo antes de dormir.

Em milionésimos de segundo, o cérebro eletrônico pescará a ficha médica do inconsequente e, sem detença nem trapaças, determinará: nada de comida gordurosa.

― Luisinho, quem come torresmo na hora de dormir?

Para que meu amigo não acabe desterrado no limbo de gente que não confia na inteligência dos seres humanos, recorro ao ChatGPT:

Quando conheceremos geladeira com leitura biométrica?

E a resposta do robozinho é: Entre 3 e 8 anos você deve começar a ver geladeiras com biometria sendo vendidas ― mas como recurso opcional, não padrão.

Luisinho tira o boné, coça a cabeça e completa:

― Para comprar essa geladeira de rico, vou ter de ficar sem fritas por um baita tempo.

Se o ouvisse, Tia Maricota seria certeira:

― E o guaraná também?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de março de 2026.

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