Parado no caminho, sem nenhuma pedra que
ajude a lembrá-lo que passara por ali, o homem pensou:
— Devo ter passado por aqui.
Ele coça a cabeça. Há uma montanha mais
adiante.
— Irei até lá.
Do sopé ao topo, não faz cálculo algum.
Subirá. Leve o tempo que for preciso para chegar lá em cima.
— Lá do alto, vou ver pra onde o caminho
vai.
Sem água para beber e sem uma caverna
onde deitar-se, o homem anda na direção do monte.
— Só devo ir em frente.
O homem está determinado a chegar ao
topo. Sequer lhe ocorre a ideia de que antes tenha percorrido o trecho.
De novo, ele para. Não que tenha pensado
na liberdade de escolher o momento certo para esta parada. Tem a boca seca, a
cabeça quente e falta-lhe um cantil.
— Não vou achar água cavando com as
unhas.
Há de haver algum graveto resistente.
Com um pau que lhe sirva de ponteiro, cavaria até brotar o olho d’água.
Assim como parou, assim retomou o passo.
— Não me acontecerá nada. Eu sei. Eu
acredito. Se tivesse que me acontecer algum ataque, já teria morrido. Eu
confio. Eu aprendo a cada vez que não penso que poderia ter desistido quando
era noite.
Assim que se lembra, é noite.
— Parece a réplica do caminho. A noite
quer que eu me perca. Ali a montanha. Mais para cá, a curva é pra direita.
Depois da montanha, o caminho serpenteia para a esquerda.
Do chão lá do pico dará pra ver: há uma
água parada.
— Se reconhecesse a água, seria um lugar
perigoso.
Ele falou:
— Perigoso sou eu. Vou arrancá-las, escamas
da noite.
O homem gritou:
— Tem que responder quando te ameaçam.
A luz do sol atacou seus olhos. Tão de
repente, caiu.
— Não abri nenhum buraco.
Ele quis sair do caminho para fazer um
xis com os pés.
— Esta pedra tem que servir. Se depois eu
voltar, farei mais um xis.
Mais cedo, ele veio por aqui.
— Sem buraco não há água nem anjo
escamoso. Eu decidi que iria marcar a pedra onde quis apoiar minha cabeça.
Ele disse:
— Se mais tarde eu me deitar, vou
esperar que as estrelas apontem uma flecha. E o inseto no âmbar diz:
— Não há pegadas que mostrem: vim pra
cá.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 05 de abril de 2026.
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