domingo, 5 de abril de 2026

Encruzilhada

 

Encruzilhada

 

Parado no caminho, sem nenhuma pedra que ajude a lembrá-lo que passara por ali, o homem pensou:

— Devo ter passado por aqui.

Ele coça a cabeça. Há uma montanha mais adiante.

— Irei até lá.

Do sopé ao topo, não faz cálculo algum. Subirá. Leve o tempo que for preciso para chegar lá em cima.

— Lá do alto, vou ver pra onde o caminho vai.

Sem água para beber e sem uma caverna onde deitar-se, o homem anda na direção do monte.

— Só devo ir em frente.

O homem está determinado a chegar ao topo. Sequer lhe ocorre a ideia de que antes tenha percorrido o trecho.

De novo, ele para. Não que tenha pensado na liberdade de escolher o momento certo para esta parada. Tem a boca seca, a cabeça quente e falta-lhe um cantil.

— Não vou achar água cavando com as unhas.

Há de haver algum graveto resistente. Com um pau que lhe sirva de ponteiro, cavaria até brotar o olho d’água.

Assim como parou, assim retomou o passo.

— Não me acontecerá nada. Eu sei. Eu acredito. Se tivesse que me acontecer algum ataque, já teria morrido. Eu confio. Eu aprendo a cada vez que não penso que poderia ter desistido quando era noite.

Assim que se lembra, é noite.

— Parece a réplica do caminho. A noite quer que eu me perca. Ali a montanha. Mais para cá, a curva é pra direita. Depois da montanha, o caminho serpenteia para a esquerda.

Do chão lá do pico dará pra ver: há uma água parada.

— Se reconhecesse a água, seria um lugar perigoso.

Ele falou:

— Perigoso sou eu. Vou arrancá-las, escamas da noite.

O homem gritou:

— Tem que responder quando te ameaçam.

A luz do sol atacou seus olhos. Tão de repente, caiu.

— Não abri nenhum buraco.

Ele quis sair do caminho para fazer um xis com os pés.

— Esta pedra tem que servir. Se depois eu voltar, farei mais um xis.

Mais cedo, ele veio por aqui.

— Sem buraco não há água nem anjo escamoso. Eu decidi que iria marcar a pedra onde quis apoiar minha cabeça.

Ele disse:

— Se mais tarde eu me deitar, vou esperar que as estrelas apontem uma flecha. E o inseto no âmbar diz:

— Não há pegadas que mostrem: vim pra cá.


Rodrigues da Silveira 

Ibiúna, dia 05 de abril de 2026.

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