Yabadabadoo
Terminada a apuração, houve uma campeã e uma rebaixada. De minha parte, passo recibo: terei outro ano até o Carnaval
vindouro.
Sinto-me vencedor, pois ficarei
trabalhando.
Por trabalhar em casa, vou me
concentrar. Sei que darei trabalho. No afã de manter a produção em dia, cobrarei
de mim outra vitória que seja possível: nada de espiar quem se enxuga depois do
banho.
Se cumprir a meta de ficar longe da
janela no horarinho de sempre, quero dobrá-la: para que o cachorrinho da
vizinha possa brincar com o meu, vou me puxar pela coleira.
Vigiando meus sorrisos e controlando a
minha língua, não abrirei a lista de contatos do telefone. Só não atenderei
chamada alguma.
Com o dobro alcançado, serei indulgente.
Vou à barbearia para minha barba ser
feita por mãos profissionais, cujas habilidades produzirão um rostinho sem
cortes.
Pessoa que se envaidece das boas obras
realizadas, recapitulo as graças: sem cheiro de extravagâncias, brinquei o
carnaval molhando o lenço com as lágrimas de alegria pela Portela; depois do
banho do fim de tarde, deixei a cortina aberta só para que pernilongos
entrassem; e pus papel higiênico para estancar o sangue na carinha de bebê só
uma vez, na Terça-Feira Gorda.
Putisgrila! Fiz a trifeta.
Acho que sim.
O que não significa que está lançada a
minha candidatura ao posto de brasileiro padrão. Tenho um ano pela frente. Manter
o pé no chão é demonstração ajuizada de que há muito que fazer.
Como chefe, supervisor e empregador de
mim mesmo, embora eu seja mão de vaca quando me pedem esmolas, estou certo de
que viver é batalhar por regalias.
Já que a vanglória faz acreditar que
mereço uns trocados por fora, vou à janela. E confirma-se, há um mundo de gente
a circular.
Luisinho grita que eu vá atendê-lo.
O tetracampeonato está no papo: não
pergunto se tomou banho ou se pagou para que lhe fizessem a barba.
Elogio os novos óculos de aro de tartaruga.
Acrescento que parece mais novo, com o cabelo repartido e aqueles óculos.
Lembra mesmo o adolescente que se sentava na frente. Aquele CDF que era o
primeirão a chutar a resposta. Nas vezes que era gol, nem olhava para trás.
Luisinho pede para eu deixar de bobagem.
Precisamos ir até a casa da Dona Cremilda. O Zeca, o Domingos, ele e eu vamos
dizer o quanto é gostosa a torta de banana que Dona Cremilda fez pra gente.
Agora, sim. Eis o salto tão aguardado.
À mesa, a vizinha. A dona do cachorrinho
que brinca com o meu. A mulher que se enxuga de cortina aberta. A fêmea da
espécie que não se chama Eva, Maria nem Madalena.
ꟷ Já conhece a sobrinha da Magali?
É claro que não me seguro. Abano o rabo.
Finjo de morto. Rolo no chão. Latindo que nem bobo, hidrófobo de tanto
entusiasmo: eu como, como a torta que nem percebo que é com a mão que eu como.
Pedrita!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de fevereiro de 2026.