quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Yabadabadoo

 

Yabadabadoo

 

Terminada a apuração, houve uma campeã e uma rebaixada. De minha parte, passo recibo: terei outro ano até o Carnaval vindouro.

Sinto-me vencedor, pois ficarei trabalhando.

Por trabalhar em casa, vou me concentrar. Sei que darei trabalho. No afã de manter a produção em dia, cobrarei de mim outra vitória que seja possível: nada de espiar quem se enxuga depois do banho.

Se cumprir a meta de ficar longe da janela no horarinho de sempre, quero dobrá-la: para que o cachorrinho da vizinha possa brincar com o meu, vou me puxar pela coleira.

Vigiando meus sorrisos e controlando a minha língua, não abrirei a lista de contatos do telefone. Só não atenderei chamada alguma.

Com o dobro alcançado, serei indulgente.

Vou à barbearia para minha barba ser feita por mãos profissionais, cujas habilidades produzirão um rostinho sem cortes.

Pessoa que se envaidece das boas obras realizadas, recapitulo as graças: sem cheiro de extravagâncias, brinquei o carnaval molhando o lenço com as lágrimas de alegria pela Portela; depois do banho do fim de tarde, deixei a cortina aberta só para que pernilongos entrassem; e pus papel higiênico para estancar o sangue na carinha de bebê só uma vez, na Terça-Feira Gorda.

Putisgrila! Fiz a trifeta.

Acho que sim.

O que não significa que está lançada a minha candidatura ao posto de brasileiro padrão. Tenho um ano pela frente. Manter o pé no chão é demonstração ajuizada de que há muito que fazer.

Como chefe, supervisor e empregador de mim mesmo, embora eu seja mão de vaca quando me pedem esmolas, estou certo de que viver é batalhar por regalias.

Já que a vanglória faz acreditar que mereço uns trocados por fora, vou à janela. E confirma-se, há um mundo de gente a circular.

Luisinho grita que eu vá atendê-lo.

O tetracampeonato está no papo: não pergunto se tomou banho ou se pagou para que lhe fizessem a barba.

Elogio os novos óculos de aro de tartaruga. Acrescento que parece mais novo, com o cabelo repartido e aqueles óculos. Lembra mesmo o adolescente que se sentava na frente. Aquele CDF que era o primeirão a chutar a resposta. Nas vezes que era gol, nem olhava para trás.

Luisinho pede para eu deixar de bobagem. Precisamos ir até a casa da Dona Cremilda. O Zeca, o Domingos, ele e eu vamos dizer o quanto é gostosa a torta de banana que Dona Cremilda fez pra gente.

Agora, sim. Eis o salto tão aguardado.

À mesa, a vizinha. A dona do cachorrinho que brinca com o meu. A mulher que se enxuga de cortina aberta. A fêmea da espécie que não se chama Eva, Maria nem Madalena.

ꟷ Já conhece a sobrinha da Magali?

É claro que não me seguro. Abano o rabo. Finjo de morto. Rolo no chão. Latindo que nem bobo, hidrófobo de tanto entusiasmo: eu como, como a torta que nem percebo que é com a mão que eu como.

Pedrita!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de fevereiro de 2026.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Nota 10

 

Nota 10

 

Na versão oficial, hoje é o último dia de Carnaval. Para o povo, não há razões para alarde: a festa dura o quanto a gente queira.

A carne é forte. O seu poder é tanto, profundo, vital, que não é nada simples o corpo dizer adeus ao que o torna humano.

A parte fraca da gente suspira, fala baixo quase o tempo todo, acha que vai gritar quando o espinho tira sangue.

Enquanto a mágoa é na pele e nos músculos, dá para suportar. Só não é razoável garantir à vida que vivemos bem, agimos direito, ainda que sejamos panela no fogo.

É preciso ― precisamos ― que haja escape.

Compreendemos: o ano não seria bem-sucedido se não houvesse críticas, censuras ou castrações.

Não somos idiotas para não sacar por que será que não nos deixam fazer o que queremos. Desejamos, mas não cantamos, não dançamos, sequer transamos o corpo numa boa.

Positivamente, redundamos castos.

Como mamíferos de sangue quente, a matéria de que somos feitos tem direito a gozar das liberdades que os trezentos e sessenta e dois dias do ano capacita-nos para a explosão.

Evoé! Explodimos de alegria.

No lugar do pão integral, outro gole de cerveja. Pijama é o ramerrão, tatuagens aquecem mais gostoso. A melhor resposta ao mundo é, na quarta-feira, acordar com mil sabores na boca.

Entretanto: passado o Carnaval?

Já não há plumas nem paetês, temos óculos.

Quando o olho cobiça o patê de atum, a mão que segura o pote de margarina coloca-o de volta na geladeira.

A gente sempre soube: é preciso ler os rótulos.

E não compra o produto com gordura trans. Deixa na gôndola o que vai vencer na semana que vem. E deveria ter cobrado o repositor que coisa vencida tem que ser trocada.

Como gostamos de ser valorizados, disfarçamos. Mas é bom ouvir o quanto somos bons profissionais, bons amigos, bons pais.

Com o cotidiano ditado pelo despertador, voltamos a viver para dar o melhor. E acreditamos mesmo no melhor da gente.

Para não decepcionar as pessoas que suspiram quando nos ouvem dizer: levantamos na hora certa, tomamos banho na hora certa, vamos dormir na hora certa.

E tudo certo.

Como não é todo dia que uso margarina no pão, faço um sanduíche com a muçarela que tem menos sal e menos gordura.

Tomo cuidado pra não morder a língua. Mastigo o sanduba. Já que aproveito pra colocar as notícias em dia, mastigo devagar.

Leio que ninguém proibiu o desfile daquela escola de samba. Dizem que teria havido uma homenagem emocionante. Reiteram que não vão precisar de averiguações. Extasiado, o homenageado sambou, suou e chorou. Juram: Ney Matogrosso não se conteve.

Não sendo jurado para dar nota a quem samba para ser notado, eu assovio e bato palmas: o tempo todo, faz muito bem o Ney Matogrosso ser ele próprio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de fevereiro de 2026.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Momo dos abraços

 

Momo dos abraços

 

De vez em quando, isso acontece: passa o caminhão que carrega ossos, passa também um que transporta esterco.

Se nem os passarinhos suportam, voamos para longe.

E ficamos lá até que a nossa volta dê-nos esta garantia: meia hora é tempo o bastante pro ar ter retornado a oferecer-se inodoro.

É normal que a gente goste de respirar sem que nosso estômago se manifeste. É bom quando a gente nem precisa avaliar a qualidade do ar. Basta respirar; a natureza faz o resto: funciona como esperado, sem chamar a nossa atenção para os seus mecanismos.

Uma vez que o nariz esteja na parada: ou o aroma é agradável ou a gente tem mais é que sumir no pé.

Se a coisa ficasse no olfato, encontrar um lugarzinho arejado seria suficiente para a gente papear sem proteger a boca com as mãos em concha, mas o impulso de olhar a sola dos pés tem força irracional.

Já que andar descalço faz parte da fantasia de índio, a gente olha a sola dos pés quando a inhaca desperta em nós a aula adormecida de Ciências: olfato é um dos cinco sentidos do ser humano.

É um dos cinco diz a razão, mas é a visão que ganha a prioridade. E a gente olha a planta dos pés. Como o cheiro está impregnado, não é nenhum despropósito olhar outra vez.

Se os pés estão limpos, e continuam limpos a trinta metros, o jeito é trocar de fantasia. Uma que não nos faça pensar nos pés, nos force a olhar a limpeza da sola. Mais ainda: ela traduza o nosso tempo, em que temos mesmo de trocar os pés pelas mãos.

Sem mãozinhas leves. Sem mãozonas levianas.

A gente conta que nos reconheçam pela graça de estar fantasiado como pessoa legal. A gente sabe que um camarada bacana faz sorrir quem o abraça.

Bacanas e legais, um abraço!

Quando o abraço não nos envergonha, tiramos selfie.

Quando as mãos nas nossas costas não pesam, tiramos selfies.

Quando sorrimos, compartilhamos mais de uma selfie.

E o joinha vai para quem nos aprova.

Importantíssimo: esclarecemos que nossa fantasia incorpora itens pra que a patotinha do bloquinho bem efusivo fique apresentável: pra recauchutagens salomônicas, o martelinho; sobre terninho belamente cinzento, a capa preta; o chapeuzinho escoa chãos: o Monte Caburaí, o Arroio Chuí, a Baía dos Guanabaras, o Rio Branco do Barão do Rio Branco, os Tietês da Paulista, os agronegócios ruminantes, a Floresta Caprichosa dos Parintins e a caninha dos Pitús.

Pra que percebam a profundidade intensa da nossa alegria, já que somos diversamente alegres de ponta a ponta, o ouro deste carnaval é a gente brincar que perdoa quem a nós nunca nos deixa de obrigar-nos a perdoá-los.

Com a pressa de finalmente o Ano Novo chegar, a gente não sorri para quem regula o semáforo!

Nas Cinzas da Quarta-Feira, depois de tomar um sal de fruta, em verdade, este folião vai dar a freadinha:

Brasil, meu Brasil Brasileiro, perdoe-os que eles sabem muitíssimo bem o que andam fazendo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de fevereiro de 2026.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Chamada a cobrar

 

Chamada a cobrar

 

De crachá no peito, a pessoa acredita que, por estar uniformizada, tem o direito de opinar sobre deus, o diabo e a ordem do mundo.

Às ordens do mundo está a funcionária, cuja função na empresa é atender os clientes e os colegas, sem que haja emperramentos.

Não basta bom-humor, é preciso malemolência.

Esta ginga de quadril não é para tirar o corpo fora, é para manter a máquina rodando sem rangidos. Até porque gerente e segurança não têm subordinação hierárquica.

Na vida, é preciso respeitar o quadrado alheio. Não é de bom-tom meter o bedelho na cumbuca de terceiros. Sem permissão para tanto, o bicho pega. E a coisa azeda.

Nos comércios do mundo, convém não haver desperdício.

Um gerente é uma banana. Um segurança é um abacaxi. A firma é liquidificador. Para a vitamina ser servida ao público: a energia tem que vir de cada um dos ingredientes.

Para que a vitamina não passe do ponto, é recomendável que as colheres de açúcar sejam suficientes para adoçar.

Quando é preciso mascarar o gosto pronunciado daquele ou deste fruto, não basta seguir a receita ― fundamental é ser criativo.

Já que o tópico é criatividade: crianças são proficientes.

Nos meus tempos de menino, uma das minhas especialidades era fazer o que os adultos faziam. E como eu gostava.

Passar trote, por exemplo.

Se adultos telefonavam para bombeiro salvar gatinho encurralado a três metros do chão, eu era o menino preocupado com a segurança da esposa do vizinho.

E as chamas da minha infância ainda ensinam: para se defender, a gata nem precisava arranhar as costas do seu bombeiro.

Dito de outro modo: viver é fogo.

Agora que estou crescido, passei a receber telefonemas de gente que não fala nada. Que coisa mais sem graça, ficar muda. Eu atendo, e nada. Fica aquele silêncio. Nem para imitar gente ofegando. É coisa de marmanjo acuado pela infância.

Se não ligam para inspirar sonhos eróticos, procurem quem queira comprar o silêncio broxante que têm para oferecer.

Embora as minhas costas andem carecendo de ser massageadas, não tenho escada Magirus. Aliás, nem telefone fixo.

O jeito é espiar pela janela. Pode ser que algum vizinho precise de uma mãozinha. Pode ser que eu ache quem tope me acudir.

Pelas barbas do profeta! É carnaval.

Com as luzes acesas, ficarei em casa. Como é da vida encontrar o que a gente desistiu de encontrar, a lista telefônica dos meus tempos de garoto aparecerá. Nela encontrarei nome e endereço. A casa onde morei vai ter novamente as luzes acesas.

É da vida que nem voltem a brilhar. E elas brilham.

Saberei esperar que a mulher do vizinho erre o número. Farei uma voz tranquila, segura. Esperto o bastante para não cair num trote, hei de ser o homem responsável que tenho fé que sou.

Uma vez que não jogo areia para cobrir as minhas necessidades, visto a fantasia. Não rasgo nem ponho de molho, envergo-a.

Digo ao Rei Momo que, em casa, ficarei. Quando o telefone tocar, vou atender. Quando o bloco passar, aplaudirei. Depois de dormir, aí, apagarei. Dormindo, sonharei. No melhor dos sonhos, vou acordar.

E na hora agá, seja em que hora for, eu te acudarei:

― Bombeiro tartamudo, miau!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de fevereiro de 2026.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Vacina pra raiva

 

Vacina pra raiva

 

Passo diante de uma loja. Pessoas cantam Parabéns a Você.

Em vez de querer tomar parte do coral, a minha mão verifica se a carteira está no bolso. Automaticamente, suspiro.

Acontece que estou encafifado. Desde cedo, quando pediram para eu ter menos raiva. Como se minha vida fosse espalhar o baixo astral pelo mundo. Sem noção de que deixo as pessoas mais tristes depois de me encontrarem, talvez eu vá por aí sugerindo que elas verifiquem se o bolso não está furado.

Sintomaticamente, suspiro.

Não vou parar. Estagnação é morte. Vida é rio. Rio estagnado vira limo. A água fica verde. E começa a feder.

Para não feder, eu ando. Movimento-me. Me agito.

Só que agito com muita intensidade, ou por tempo demasiado, vai dar no contrário do desejado. Aí a gente fica pê da vida.

Pra não trotar ou sair em desabalada carreira, o melhor a se fazer é diminuir a marcha. Enquanto é marcha.

Sabendo que pode merecer punição, a pessoa que pratica marcha atlética respeita esta regra básica: um dos pés sempre tem que tocar o chão. Já os desobedientes, esses ganham a desclassificação.

Como não quero ser tirado do páreo, faço bom uso das narinas: o desodorante não está vencido.

Já que me sinto apresentável, posso pensar.

Ressabiado, leio no dicionário que “raiva” é uma palavra latina que significa “doença”. Como a gente fica furiosa, frenética e violenta, não se cura a raiva com chá verde.

Não creio que me falte coragem para experimentar o chá verde. A erva pode ser orgânica, a internet pode multiplicar seus benefícios, só que, como aprendi ainda menino, vou de mate.

Valorizo o chá mate que eu bebo. A erva nem precisa ser orgânica para me convencer a cultivar a fidelidade a este chá, que tanto me fez bebê-lo há seis décadas.

Os maledicentes dirão que uma criança criada à base de chá mate está condicionada. E sempre se bandeará para o lado dos bebedores dessa infusão maléfica.

É aqui que as raízes têm que ser esmiuçadas.

Há que se revolver o chão onde a erva cresce. Sem o veneno dos ofensivos, as mãos que preparam a terra são humanas. No trato com o planeta, as alegrias e as tristezas têm unhas e dedão. As enxadas ou tratores são instrumentos para que a lavoura cresça, seja colhida e eu beba o meu chá.

Diabinho que jamais morde a língua: mate é só outro chá.

Tomado o chá, a alma dá parabéns pela decisão. Ele me satisfaz, me acalenta, me faz sentir que tem ação imediata.

Que escolha feliz!

Da próxima vez, quando eu passar em frente de loja onde cantem Parabéns a Você, ou alguma música conhecida, também quero sorrir, bater palmas e cantar junto.

Vacinado, feito querubim boa-praça, vou dar petelecos nas minhas bochechas, nas rosadas bochechas de cidadão que controla a raiva.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de fevereiro de 2026.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Um mundo de fantasmas

 

Um mundo de fantasmas

 

Tive uma semana de muita correria. Diferente da semana anterior, período em que precisei correr só uma vez, quando buzinaram.

Naqueles sete dias de calmaria, sem que me tomem por afrontoso à verdade, acho digno mencionar que havia um ônibus quebrado bem no meio da pista.

E foi no meu ouvido que buzinaram. Eu era o ônibus.

Fui convidado para um aniversário. Como raramente vou a festas, eu podia ter enviado um zap. Só que o churrasqueiro da vez merecia mesmo um abraço.

Na festa deste amigão, as pessoas sorriam, bebiam, comentavam os absurdos do cotidiano, eram bonitas, festeiras. Gente sem nódoas, eram lindamente triviais.

De um camarada bombado ouvi que a academia é mais que ferros e esteiras, é garantia de uma velhice saudável.

Santa sapiência! Eu sorri.

Penso que “velhice saudável” é um oxímoro. Não acho lógico dizer que ficar velho permita-nos conservar a saúde. Envelhecer é perder o controle sobre o corpo. Pra mim, envelhecimento é o processo natural de arruinar-se.

Sorrateiramente, a natureza toca adiante. Não vai a nenhum lugar, mas a gente acredita que segue em frente.

Para levar as batatas, não chamarei um táxi. Sou forte e não temo os desafios do mundo. Sim! Eu dispenso o fortalecimento dos bíceps, uma vez que nada na vida me proibirá de crer em mim. Sim! Vencerei os cem metros da feira até a minha residência.

Como o mais sábio dos mortais, continuei sorridente. Tudo ia bem. Bebi mais um copo de refri. Fui ao banheiro. Voltei. Peguei outro copo de guaraná. Tudo naquela paz. Só sorrisos.

Quando a gente sente que tem coisa acontecendo, aí tem coisa.

Eu não sou um cara tapado. Mesmo com a cuca entupida de refri, farejei no ambiente que a coisa era comigo.

Começaram a cochichar. Mal chegava com meu copo de guaraná, afastavam-se. Fui beber no quintal, e ninguém topou conversar.

Retornei, e um rapaz falou que sairia pra fumar. Dei uns passos, e outra moça falou que ia fazer xixi.

Com tantos a ter mais o que fazer, resolvi ficar parado. Achei bom abocanhar o último salgadinho de cada uma das bandejas.

Engraçado, o aniversariante solicitou que me retirasse. Eu cometi a gafe de presenteá-lo com uma camiseta.

É claro: sozinha, a camiseta não provocaria tal reação.

Longe de mim querer reacender querelas ultrapassadas. Só achei divertida a estampa: transfigurado por inteligência artificial, Karl Marx tinha as sobrancelhas, o narigão e os óculos do Groucho Marx.

Demorei um tanto para formar uma explicação menos blasé. Após percorrer dois ou três quarteirões, ainda com o pensamento a falsear as variações da mesmíssima ideia, parei e olhei a lua no céu.

Tudo se cristalizou.

No presente dado, faltava a frase primordial; com todas as letras a berrar: um espectro ronda o mundo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de fevereiro de 2026.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A boa preguiça da hora

 

A boa preguiça da hora

 

Só à noite, quando foi dormir, nem deu tempo pra ocorrer-lhe esta ideia: quem sabe o seu corpo trabalhasse como sempre, mas a tevê estava ligada.

Para o fio da meada nem fazer força para levá-lo de volta ao sofá, o seriado já estava passando.

Como seu estômago ronca ao meio-dia, fez o mínimo de esforço: trouxe uma maçã, duas bananas e um copo de água.

Rotina tem hora de almoço.

Sem a percepção de que adotara a dieta dos faquires, ele poderia rolar até o riachinho que corre nos fundos de casa. Se ventasse, até.

Rolaria. Tão manso... Fosse rolando.

Se o copo d’água estava com ele, tudo bem. Ele se sentou. Tinha o streaming. Não se deu ao trabalho de escolher, pois o riachinho de sereias as mais diversas já cantava algo narcotizante.

E o volume baixinho da tevê o fez cochilar.

Seduzido por Morfeu, a história foi se desenrolando de tal jeito que ele nem descascou a maçã. Babando, ele a mordiscava.

Deitado sem nem se dar conta: o episódio contou que uma criança foi sequestrada e uma babá foi acusada.

E veio o segundo episódio, a babá tinha seus motivos. Não estava com a razão, mas o roteiro trazia relances do passado.

Sem prestar conta: a segunda banana foi comida.

A tarde não fez marola... A hora da janta chegou...

No meio da jornada, o policial astuto tinha que alterar o conteúdo de um frasco. Sai oxicodona, entra paracetamol.

São as regras do jogo: o filho com necessidades especiais ganhou a vaga numa escola melhor equipada, com profissionais de finíssimas habilidades e mensalidade para quem possa pagar.

Disseram que vagas nunca caem do céu ꟷ a tal bolsa, sim.

A barriga voltou a roncar. A tevê foi pausada. Pelo que a geladeira lhe oferecia: o sanduíche foi de muçarela e presunto.

Como ao streaming não importa a higiene pessoal de quem segue assistindo, ele não lavou as mãos.

Os episódios avançaram sem que botão algum do controle remoto tivesse sido pressionado.

Mesmo a quem emenda um seriado no outro sem nem guardar os nomes, terem tantas pontas soltas era um final arriscado.

Para ter feito o que fez, a babá tinhas razões incontornáveis.

Na mansão da bilionária, o investigador destrama: não há enigma. A tal leoa proteger suas contas bancárias, isso nem é notável.

E veio o capítulo em que tudo fica esclarecido. Veio a morte que a história pedia. Veio o velório daquela personagem que nem precisava ter morrido. Veio ainda a cena na adega.

Fatal seria redimensioná-la.

O fundamental é que a cabeça no travesseiro nem perdeu tempo com a dúvida. Sim, ele pode ter emagrecido por inércia.

O sono foi pegando. O corpo foi cedendo.

De manhã, o despertador tocou: era o dia seguinte.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de fevereiro de 2026.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

As intrusas

 

As intrusas

 

Se eu sei o que desejo?

Como nem avalio se controlo o que os desejos produzem em mim, a resposta surja quando houver de vir à tona.

Não tergiverso por fraqueza, sigo na labuta. Para hoje, preciso pôr a minha casa em ordem.

Começo pelo quarto. Limpo os móveis. Pra tirar a poeira, arrasto a cama. Sem tirá-las do varão, bato as cortinas. Varro o quarto todo. O agradinho final: passo lustra-móveis na guarda da cama e o pano faz o chão exalar a lavanda do cheirosinho.

Desejo número um, atendido.

Pelo visto, diz minha cachola que encontrei o momento de fazer o certo. O corpo não diz que o cansaço será grande. Sem almejar nada grandioso, sustento: não sou homem pra trabalhar acreditando que o suor sossega o cidadão preocupado com o “bem”.

Agora vou dar um jeito na cozinha.

Sem visão utilitarista, sem pragmatismo do útil, o dever me induz a esvaziar a geladeira. Como entendo que cidadania só é “exemplar” em ato, tiro tudo. Passo o pano úmido, passo o pano seco.

A necessidade de alimentar-me com comida saudável orienta-me: checo as datas de vencimento de bacon, linguiça, iogurte, lasanha de micro-ondas. Verifico as datas e cheiro item por item: sou do bem!

Permita-se este esclarecimento: não sou babaca pra insinuar uma relação simplória: gente exemplar necessariamente faz o “bem”, mas tem gente do “bem” que muitas vezes é taxada de “pobre-diabo que não faz mal sequer a uma barata”.

Sem complacência nem cumplicidade: barata fica tonta com tantas minúcias. E isso não é bom. Para ela, não mesmo.

Outro desejo ticado: ideia cristalina é ralo fechado.

Como barata morre de medo de acabar afogada em encanamento de esgoto, o seu último recurso é escapar quintal acima.

E a pessoa que não é estúpida sabe por experiência: as águas da chuva precisam de escoamento.

O dilema não revolta quem traz a rebeldia na moringa: gato deixa as patinhas da barata ficarem se agitando até que o chinelo apareça para a misericórdia.

Se a calha, o rufo e o ralo formam um sistema, o gato, o chinelo e a pessoa ― tão segura dos seus procedimentos ― fazem funcionar o melhor dos mundos: barata boa é barata na lixeira.

E a lixeira será posta ao pé do poste quando for a hora de passar o caminhão da coleta.

Para todos da casa, chega de ficar na chuva.

Já que desespero não é desejo ansiosamente objetado: a mão da chinelada vai atrás do gato com uma toalha, cuja figurinha estampada é o famigerado “camundongo” de desenho animado que meio mundo cisma de alcunhá-lo “rato”.

Que seja.

Como não é bonito negar um último desejo à pessoa que se acha bacanérrima, ela, cidadã de chinelinho, é toda Tico e Teco:

1.     O fim do barato é dizer que o resto é estória.

2.     O barato do fim é dizer que o rosto tem história.

Minuciosa, a leitura pede a terceira perna que falta ao tripé:

3.     Formigas pra barata morta: quer festa?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de fevereiro de 2026.


domingo, 1 de fevereiro de 2026

Ação de graça

 

Ação de graça

 

Graças ao Bom Deus, está em casa.

Já que o sol ilumina a praça, as notícias sinalizam as urgências e todo santo dia é preciso obrar pelo que for preciso, foi de peito aberto que saiu pra encarar o mundo.

Pra dedicar-se a uma causa mais do que justa, tomá-la como sua. Pra que sua família, quase toda sua família, sinta-a como sendo uma boa causa, diga que luta pela justiça.

Aos olhos daquela gente tão conhecida ― você foi e voltou.

Parabéns! Ei-los sãos e salvos: você e a democracia.

Embora, num instante ou outro, haja duvidado de si, soube sair-se bem. Então, conte o quanto quis sobreviver.

Pessoa defensora da democracia, confesse!

É preciso tirar dos braços a vontade que os músculos podiam jurar que ignoravam tê-la. Não se acanhe, admita: não se trata de sorte.

Por estar avisada da força descomunal dos rivais, você respondeu às mensagens do zap. A cada uma delas, você soube responder.

Pra salvar a democracia de inimigos tão sorrateiros, você digitou, registrou números, fechou planilhas. E salvou os arquivos.

Quando as oito horas de mais uma jornada se completaram, você se livrou do dedinho frio de café. E muito à vontade, até assoviou ao higienizar o copo conforme às regras sanitárias.

É de conhecimento público: a autêntica democracia não sataniza a água da torneira, que também salva copões de um litro.

Todavia, você agora está em casa.

Embora haja cães latindo, os bons combatentes recebem zaps de boa-noite. Sim, é preciso ter uma boa noite de sonhos.

Por ter dormido em paz, você usa xampu ao lavar as orelhas. Nem chega a ter medo de irritar os olhos com a espuma.

Em pé no box, a água prepara pro que já vem. Você sabe que não dormirá sem antes satisfazer quem deseja que, novamente, a aurora dê-lhe a chance de provar-se a pessoa aguerrida que virá a merecer a água morna do banho seguinte.

Outra vez, você terá certezas.

Seja a pessoa de valor que sempre tem demonstrado ser. Por não ser dessas que ficam em casa, de pijama, copo na mão, sentindo a água quente no café ―  à luta.

Com que coragem haverá de ir?

A despeito dos dispositivos da Lei Maior que nossos democratas tenham desdenhado, compadeça-se: a alvorada traz o sol, o copo, as planilhas, os zaps, e centenas de mensagens.

Havendo a dadivosa graça de não se deprimir ao defender nossos democratas tão respeitados, outra vez queira ir à luta.

Gente boa que peleja pelo bem dos democratas nossos, não conspurque seu pijama de Bob Esponja: ao pegar o ônibus, esteja de uniforme.

Assim sendo, dê o melhor de si: felicite-os!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de fevereiro de 2026.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Válvula de escape

 

Válvula de escape

 

Sem chorumelas: o circo está na cidade.

É o que anuncia o ramerrão gravado do monomotor circunvoando a cidade desde cedo. Aliás, o chatonildo me acordou. Eram oito horas quando a gritaria me fez escancarar a janela. Desde então, dou-lhe o dedo do meio.

Não falo da boca pra fora: interrompo o que estou fazendo, posto-me na frente de casa, ergo os dois braços, agito-os; só que não emito o S.O.S. dos náufragos.

Claro que sei que a pantomima é um soco no ar.

O que não gostaria de saber é que não controlo o desejo. A minha vontade é de mandar o aviãozinho de volta pro hangar onde dormia o sono das máquinas voadoras. E fico no patético. Sei bem que o corpo fala pra quem não ouve nem atenderia se me escutasse.

Aceito o convite: sou espantalho a atrair corvos.

Nem assim eu recuo ― vindo o motor: vou pro quintal.

A irritação com o piloto não passa disso; já a minha angústia sabe muito bem: palhaços pipocam no picadeiro.

Suo frio. Bato a borda do copo no lábio superior. Tenho medo de o gole de café me engasgar.

Bebo assim mesmo. Bato assim mesmo. E mais e mais, eu suo.

Acho graça de ser um corvo a sorver o suor que não intoxica nem um pouco.

Com o calhambeque dos palhaços na vanguarda, a trupe circense vem mostrar que está realmente na cidade.

Pra que correr pra dentro se a alegria está na rua?

Com meneios graciosos, a assistente do mágico tira da cartola um folder. Nele estão o nome do circo, o local onde se encontra instalado e os horários das apresentações.

Graças ao Bom Deus!

O calhambeque dos palhaços não se desmilingui. Não me afogam as papas de suor. Já a assistente do mágico faz o truque mais sutil: o buraco da cartola... Nem ela vê.

Que espanto! O coelho corre atrás do corvo.

Se o nome da graciosa for Alice, sou Charles Dodgson.

Se o nome do mágico for Chapeleiro, sou Lewis Carroll.

Se o meu nome for Alice, estou aprendendo como se joga.

Uma vez que jogo pode bem ser palhaçada: bato palmas, juro que vou, juro que eu mesmo é que vou.

Indo: eu juro que não se jura em vão.

Quando a trupe está a dobrar a esquina, saio à rua, e, louco para que a moça das magias me veja atrapalhando o trânsito, solto o mais belo dos berros:

Minha Alice da Cartola, mostre-me todas as suas cartas!

Mas... Porém... Todavia...

Como este bobo sem corte não cativa a realidade, o inconveniente do monomotor não sai de cena.

Ainda bem! Excelente! Maravilha!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de janeiro de 2026.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Moto aérea

 

Moto aérea

 

Houve uma era em que o esquecimento podia ser remediado com o número do telefone, a ficha e o equipamento na esquina ― dava pra ligar para casa pedindo que tirassem a lasanha do forno.

Naqueles dias, o telefone público parecia uma orelha humana. Por isso, o apelido pegou, e foi uma justiça poética: orelhão.

Dizer “vou usar aquele troço” soaria antipático.

Como fui garoto carente de respostas às minhas perturbações, o mundo era estranho. E essa estranheza ganhava corpo com aquelas aberrações: com uma orelha daquele tamanho, já pensou o tamanho do umbigo do gigante?

Ao juntar orelha gigante, bocarra e fome monstruosa, o resultado não podia ser outro que não este: Gargântua.

Entende por que eu achava espetacular o umbigo?

Mesmo Gargântua sendo tão assombroso, pra eu ficar empolgado de verdade, ele tinha que ter braços, pernas e uma barrigona sempre a exigir mais e mais pizzas.

Com uma gruta colossal na pança, seria extraordinário o tanto de pizzas que ali eu assaria.

Eu ficaria extraordinariamente rico; tanto que as pessoas saberiam de cor o número do telefone do meu quarto.

Nessa minha infância, rico para valer tinha que ter telefone ao lado da cama. Para, imediatamente, atender quem fosse.

Claro! Rico tinha que cobrar pelo atendimento. E o preço era alto: quanto mais pizzas, melhor a atenção dispensada. Naturalmente.

Hoje, a ordem é outra: os fregueses trazem o orelhão no celular, e a maior qualidade da pizza está no baixo custo.

Todo mundo sabe: ainda que o forno arda a bairros da sua boca, mande um zap quando quiser, e os nossos motoboys a entregarão, o mais tardar, em quinze minutos.

Pelo que sei, já que eu aprendi a ser honesto com a realidade do mundo: ninguém perdoa atraso maior do que cinco minutos.

Some cinco aos quinze, noves fora: adeus, pizzaria.

Este tempo é pra cair no esquecimento: a pizza fria, como ontem, é a próxima pizza. Agorinha mesmo.

Como sugeri há pouco, a ordem do dia é esta: vem um áudio.

Por ser mensagem gravada, o futuro não sabe esperar. Responda no ato. Prometa celeridade. Prove ser célere.

Ou seja: você pede pizza, ela chega quente.

Já os entregadores...

Sempre haverá motoqueiro pra cavar corredor aéreo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de janeiro de 2026.

domingo, 25 de janeiro de 2026

O futuro, agora

 

O futuro, agora

 

Chega um momento na vida que a dúvida se dissipa, e a cachola pergunta: será que o melhor remédio é caminhar?

Agora...

A convite da carne, levará sua noite tomar sol. Lava o rosto. Larga a latinha. Põe pressa: cerra a janela. Dará tempo. Contará que o sol dure por mais umas latinhas.

Seguindo lá uns desígnios naturais, a alvorada pariu um bem-te-vi. Coube a ela não ouvi-lo no esplendor da cantoria.

No ônibus, indo pra casa. Pessoas falavam... E falavam. Nem que fossem bem-te-vis ― os ouvidos não estavam aptos a escutá-las.

Precisava jogar uma água na cara.

Já voltou. Já lavou o rosto. Renovada pro dia, já!

Agora, ela anda. Para que a farra sue um tanto, ela andará.

Nos fones, O bêbado e a equilibrista da Maria João.

Nos pés, a areia do Canto do Forte.

Aporta à beira da realidade, que, gaiata, pisca: os banhistas estão satisfeitos com as marolinhas; contentes com a temperatura da água; muito felizes com a urbanidade de uma praia sem funks no talo.

No ar, a felicidade que não precisa ser anunciada.

No passo seguinte, há que se reportar: o mundo é real.

― Sabe dizer as horas?

― Sei.

― Então, que hora é?

― Ah! Me desculpe. É que a música...

― Custa falar que horas são?

― É dez e quinze, senhora.

É hora de dizer umas verdades.

Sobre o que a tem deixado mais leve? Sobre o amor que pode dar certo? Sobre os beijos de ontem à noite?

Valeu a pena ter ido à festa.

Decente foi ter beijado aquele carinha. O passado tem este poder: ela esqueceu o porre que foi escutar o moço falar que era anarquista e convencê-lo que era bem bobinha, já que lhe disse:

Sofro de uma felicidadezinha patogênica, que transmito pelo beijo, já que a saliva é boa indutora de delícias revolucionárias.

Ela anda. Não vai esquentar a cabeça.

Se o novo namorado gosta de ovo: ele que frite.

Ela sente o mar. Geladinho assim... Até arrepia.

Do meio de crianças brincando de pega-pega, alguém acena.

Bem que a vida podia ter mais sábados na semana.

― Oi, Marinês.

Ela tira os fones.

― Como é?!

― Achei que fosse outra pessoa.

 

Já que não quer ser rude...

― Aceita uma casquinha?

...não se apresenta rude:

― Olha, estranho... A Sílvia aqui topa uma cerveja.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de janeiro de 2026.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Um quarto atrasado

 

Um quarto atrasado

 

Ele não se preocupa com bobagens. Sabe que os amigos seguem ocupadíssimos com a vacina dos cães. Ele e os amigos guardam um intervalo para suas pulgas metafísicas: a feijoada de quarta.

Sem falta, toda quarta-feira: estão à mesa.

Dispostos a mordidas distraídas, abrem a boca. Pelo prazer dos pequenos discursos, divertem-se naturalmente.

Este papo dificilmente sensibilizaria oradores bem calibrados, pois profissionais da palavra bem-posta têm o dever da prudência.

Ao achar o fiapinho que roçará o ouvido de outrem, calam-se. Já a diversão coçando a própria língua, pigarreiam.

Na feijoada de quarta, os confrades riem.

Como parece que à feijoada desta quarta ele chegará atrasado, rir seria a maior evidência de que está comprometido.

Ora, nós é que queremos mostrá-lo cauteloso...

Pouco antes das onze foi à casa de Dona Cremilda. Levara o livro prometido. A sua permanência não podia ser maior que os minutinhos que calculara. Houve, entretanto, o cafezinho.

Dona Cremilda...

Mares Interiores, a obra entregue assim que o sorriso da amiga o fez ver-se sentado para aquela broazinha recém-saída do forno, traz a correspondência trocada por dois autores que muito preza.

Otto Lara Resende e Murilo Rubião em cartas? Excelente!

Já que não traz no pulso nenhum relógio, ele achou desrespeitoso morder a broa a pensar em paio e língua.

Uma vez explícita a tendência de minimizá-lo como ser humano a trotar feito pangaré, voltemos ao compromisso anterior.

Naturalmente, entre dez e dez e dez e quarenta e cinco, mostrou tão somente a parte externa da sua casa. Ele ainda era prudente.

O pintor e ele eram conhecidos. Estudaram juntos.

A vida era simples: para cada aula de religião, uma pelada.

Os dois até se lembraram das aulas de ginástica. Entre as flexões e os polichinelos, não se esquivaram daquele nome: Maria Emília.

Por conta da Mãe de Deus, Maria.

Pelo Sítio do Picapau Amarelo, Emília.

Valia a pena esperar pela educação física das meninas?

Ele teve que correr.

Já que a farmácia fica aberta as 24 horas de cada dia, achou bom ir cedo pegar os trinta comprimidos do seu ansiolítico.

Antes das oito já estava livre para fazer o supermercado.

E ele foi num pé.

Pôde examinar a banana e cheirar a couve. Pediu moído um quilo de patinho, que passou duzentos gramas e tralalá ― e tudo bem.

O que haveria de querer quando acordou?

Com o ânimo para não peitar o mundo, acordou que nem precisou calcular o quanto era positivo o tanto que dormira.

Espreguiçou-se. Bocejou. Espreguiçou-se.

Ainda que fossem cinco para as sete de quarta-feira?

Tudo nos conformes. Tudo merece uma bela espreguiçada.

Aliás, Dona Cremilda, coisa boba é achar que cinco pras sete seja um bom momento de ir deitar-se na própria cama.

Ele não correu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de janeiro de 2026.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A autobiografia do fim

 

A autobiografia do fim

 

Senhores, agradeço-lhes pelo diploma a mim outorgado.

Em primeira mão, adianto que a minha vida está avisada: somente quando a quarta parte estiver completa, precipite-me no obscuro.

Oxalá, eu consiga preservar-me até o último suspiro.

Buscar prazeres que não custem mais que uns trocados não pesa. A promissória de maior valor está nas mãos da eternidade.

Sem arabescos, é vero, este fogo que vai pela luz dos meus vasos não me chamusca. Em nada me percebo chamuscado.

Conhece-me quem não se avexa desta carne grelhada. Asseguro-lhes, não negaceio a minha alma imortal.

Permaneço ileso. Vivo pro dia. Somo ontem com amanhã. Hoje eu tenho a cabeça boa ― para aritméticas a meu favor.

Não vivo de olho na eternidade.

Desculpem-me pela franqueza. Juro que pouco tem de intencional exibir-me calculista. As noites passadas ao sereno dão febre, fazem tremer. Diverte-me alucinar.

Alucino, bem o sabem quem me dá um copo d’água. Alucino, não me deixo fustigar pela estagnação.

Permitam esclarecê-los: posto que são leves, as minhas paralisias são momentâneas, não me arrastam pro fundo. Assentam-me.

Quando especulo, o poço faz água.

Pelas mãos de quem negocia, bebo-a. Para obter vantagem, trata-me bem. Não há regalia nesta sonhada barganha. O copo d’água não azedará a sede da minha saliva.

Senhores, não os aborrecerei.

Não havia febre quando o teto sobre a minha cama apresentou-se o mais visível que a ele pareceu necessário.

Eu almoçara.

É detalhe a não ser desprezado quando a inteligência artificial der de mim o seu depoimento.

Ratifico. Não os melindrarei com informações conhecidas. Já que os senhores sabem: a grande revolução desta quadra é a IA.

Instruí a máquina que produzisse um pequeno texto sobre mim.

E ela assim o fez:

Era uma tarde como outra qualquer. Uma segunda-feira de vento frio em pleno verão.

Claudiomiro Malaquias acabara de almoçar. Viera deitar-se. Tinha a pestana para tirar. Começara a perdê-la quando o teto revelou-se já mais baixo que o habitual.

Um teto é uma parede horizontal.

Claudiomiro Malaquias cruzou os braços sobre o peito. Tinha clara a missão maior daquele instante:

Teto, ao desabar sobre mim, terei de defender-me de ti!

De todo parede branca, o teto não esboçou esgar de nojo. Soltou, porém, grânulos de pó. E Claudiomiro Malaquias lacrimejou.

Teto, quando vier a desabar, estarei fortalecido, que meu ódio põe sua figura no alvo. E não dispararei à toa. Alvo, precisão é tudo.

Como qualquer, o homem tinha direito a um cochilo.

Já não chegasse a presença do teto alvo, uma aranha veio andar no seu nariz. Claudiomiro espirrou.

Para que tal momento não passe batido, registre-se: o epílogo da autobiografia escrita pela IA ignorará o espirro.

Sim! Já o compreendem, já me acompanham...

Qual há de ser o fim da picada?

A aranha espirrada da cena sou eu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de janeiro de 2026.