domingo, 25 de janeiro de 2026

O futuro, agora

 

O futuro, agora

 

Chega um momento na vida que a dúvida se dissipa, e a cachola pergunta: será que o melhor remédio é caminhar?

Agora...

A convite da carne, levará sua noite tomar sol. Lava o rosto. Larga a latinha. Põe pressa: cerra a janela. Dará tempo. Contará que o sol dure por mais umas latinhas.

Seguindo lá uns desígnios naturais, a alvorada pariu um bem-te-vi. Coube a ela não ouvi-lo no esplendor da cantoria.

No ônibus, indo pra casa. Pessoas falavam... E falavam. Nem que fossem bem-te-vis ― os ouvidos não estavam aptos a escutá-las.

Precisava jogar uma água na cara.

Já voltou. Já lavou o rosto. Renovada pro dia, já!

Agora, ela anda. Para que a farra sue um tanto, ela andará.

Nos fones, O bêbado e a equilibrista da Maria João.

Nos pés, a areia do Canto do Forte.

Aporta à beira da realidade, que, gaiata, pisca: os banhistas estão satisfeitos com as marolinhas; contentes com a temperatura da água; muito felizes com a urbanidade de uma praia sem funks no talo.

No ar, a felicidade que não precisa ser anunciada.

No passo seguinte, há que se reportar: o mundo é real.

― Sabe dizer as horas?

― Sei.

― Então, que hora é?

― Ah! Me desculpe. É que a música...

― Custa falar que horas são?

― É dez e quinze, senhora.

É hora de dizer umas verdades.

Sobre o que a tem deixado mais leve? Sobre o amor que pode dar certo? Sobre os beijos de ontem à noite?

Valeu a pena ter ido à festa.

Decente foi ter beijado aquele carinha. O passado tem este poder: ela esqueceu o porre que foi escutar o moço falar que era anarquista e convencê-lo que era bem bobinha, já que lhe disse:

Sofro de uma felicidadezinha patogênica, que transmito pelo beijo, já que a saliva é boa indutora de delícias revolucionárias.

Ela anda. Não vai esquentar a cabeça.

Se o novo namorado gosta de ovo: ele que frite.

Ela sente o mar. Geladinho assim... Até arrepia.

Do meio de crianças brincando de pega-pega, alguém acena.

Bem que a vida podia ter mais sábados na semana.

― Oi, Marinês.

Ela tira os fones.

― Como é?!

― Achei que fosse outra pessoa.

 

Já que não quer ser rude...

― Aceita uma casquinha?

...não se apresenta rude:

― Olha, estranho... A Sílvia aqui topa uma cerveja.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de janeiro de 2026.

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