O
futuro, agora
Chega um momento na vida que
a dúvida se dissipa, e a cachola pergunta: será que o melhor remédio é
caminhar?
Agora...
A convite da carne, levará sua
noite tomar sol. Lava o rosto. Larga a latinha. Põe pressa: cerra a janela. Dará
tempo. Contará que o sol dure por mais umas latinhas.
Seguindo lá uns desígnios
naturais, a alvorada pariu um bem-te-vi. Coube a ela não ouvi-lo no esplendor
da cantoria.
No ônibus, indo pra casa. Pessoas falavam... E falavam. Nem que fossem bem-te-vis ― os ouvidos não estavam aptos a escutá-las.
Precisava jogar uma água na
cara.
Já voltou. Já lavou o rosto.
Renovada pro dia, já!
Agora, ela anda. Para que a
farra sue um tanto, ela andará.
Nos fones, O bêbado e a equilibrista da Maria João.
Nos pés, a areia do Canto do
Forte.
Aporta à beira da realidade,
que, gaiata, pisca: os banhistas estão satisfeitos com as marolinhas; contentes
com a temperatura da água; muito felizes com a urbanidade de uma praia sem funks
no talo.
No ar, a felicidade que não
precisa ser anunciada.
No passo seguinte, há que se
reportar: o mundo é real.
― Sabe dizer as horas?
― Sei.
― Então, que hora é?
― Ah! Me desculpe. É que a
música...
― Custa falar que horas são?
― É dez e quinze, senhora.
É hora de dizer umas
verdades.
Sobre o que a tem deixado mais
leve? Sobre o amor que pode dar certo? Sobre os beijos de ontem à noite?
Valeu a pena ter ido à
festa.
Decente foi ter beijado
aquele carinha. O passado tem este poder: ela esqueceu o porre que foi escutar
o moço falar que era anarquista e convencê-lo que era bem bobinha, já que lhe
disse:
Sofro de uma felicidadezinha
patogênica, que transmito pelo beijo, já que a saliva é boa indutora de delícias
revolucionárias.
Ela anda. Não vai esquentar a
cabeça.
Se o novo namorado gosta de
ovo: ele que frite.
Ela sente o mar. Geladinho
assim... Até arrepia.
Do meio de crianças
brincando de pega-pega, alguém acena.
Bem que a vida podia ter
mais sábados na semana.
― Oi, Marinês.
Ela tira os fones.
― Como é?!
― Achei que fosse outra
pessoa.
Já que não quer ser rude...
― Aceita uma casquinha?
...não se apresenta rude:
― Olha, estranho... A Sílvia
aqui topa uma cerveja.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 25 de janeiro de 2026.
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