Um mundo de fantasmas
Tive uma semana de muita correria.
Diferente da semana anterior, período em que precisei correr só uma vez, quando
buzinaram.
Naqueles sete dias de calmaria, sem que
me tomem por afrontoso à verdade, acho digno mencionar que havia um ônibus quebrado
bem no meio da pista.
E foi no meu ouvido que buzinaram. Eu
era o ônibus.
Fui convidado para um aniversário. Como
raramente vou a festas, eu podia ter enviado um zap. Só que o churrasqueiro da
vez merecia mesmo um abraço.
Na festa deste amigão, as pessoas
sorriam, bebiam, comentavam os absurdos do cotidiano, eram bonitas, festeiras.
Gente sem nódoas, eram lindamente triviais.
De um camarada bombado ouvi que a
academia é mais que ferros e esteiras, é garantia de uma velhice saudável.
Santa sapiência! Eu sorri.
Penso que “velhice saudável” é um
oxímoro. Não acho lógico dizer que ficar velho permita-nos conservar a saúde.
Envelhecer é perder o controle sobre o corpo. Pra mim, envelhecimento é o
processo natural de arruinar-se.
Sorrateiramente, a natureza toca
adiante. Não vai a nenhum lugar, mas a gente acredita que segue em frente.
Para levar as batatas, não chamarei um
táxi. Sou forte e não temo os desafios do mundo. Sim! Eu dispenso o
fortalecimento dos bíceps, uma vez que nada na vida me proibirá de crer em mim.
Sim! Vencerei os cem metros da feira até a minha residência.
Como o mais sábio dos mortais, continuei
sorridente. Tudo ia bem. Bebi mais um copo de refri. Fui ao banheiro. Voltei.
Peguei outro copo de guaraná. Tudo naquela paz. Só sorrisos.
Quando a gente sente que tem coisa
acontecendo, aí tem coisa.
Eu não sou um cara tapado. Mesmo com a
cuca entupida de refri, farejei no ambiente que a coisa era comigo.
Começaram a cochichar. Mal chegava com
meu copo de guaraná, afastavam-se. Fui beber no quintal, e ninguém topou
conversar.
Retornei, e um rapaz falou que sairia
pra fumar. Dei uns passos, e outra moça falou que ia fazer xixi.
Com tantos a ter mais o que fazer,
resolvi ficar parado. Achei bom abocanhar o último salgadinho de cada uma das
bandejas.
Engraçado, o aniversariante solicitou
que me retirasse. Eu cometi a gafe de presenteá-lo com uma camiseta.
É claro: sozinha, a camiseta não
provocaria tal reação.
Longe de mim querer reacender querelas
ultrapassadas. Só achei divertida a estampa: transfigurado por inteligência
artificial, Karl Marx tinha as sobrancelhas, o narigão e os óculos do Groucho
Marx.
Demorei um tanto para formar uma
explicação menos blasé. Após percorrer dois ou três quarteirões, ainda com o
pensamento a falsear as variações da mesmíssima ideia, parei e olhei a lua no
céu.
Tudo se cristalizou.
No presente dado, faltava a frase
primordial; com todas as letras a berrar: um espectro ronda o mundo.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 08 de fevereiro de 2026.
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