terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Vacina pra raiva

 

Vacina pra raiva

 

Passo diante de uma loja. Pessoas cantam Parabéns a Você.

Em vez de querer tomar parte do coral, a minha mão verifica se a carteira está no bolso. Automaticamente, suspiro.

Acontece que estou encafifado. Desde cedo, quando pediram para eu ter menos raiva. Como se minha vida fosse espalhar o baixo astral pelo mundo. Sem noção de que deixo as pessoas mais tristes depois de me encontrarem, talvez eu vá por aí sugerindo que elas verifiquem se o bolso não está furado.

Sintomaticamente, suspiro.

Não vou parar. Estagnação é morte. Vida é rio. Rio estagnado vira limo. A água fica verde. E começa a feder.

Para não feder, eu ando. Movimento-me. Me agito.

Só que agito com muita intensidade, ou por tempo demasiado, vai dar no contrário do desejado. Aí a gente fica pê da vida.

Pra não trotar ou sair em desabalada carreira, o melhor a se fazer é diminuir a marcha. Enquanto é marcha.

Sabendo que pode merecer punição, a pessoa que pratica marcha atlética respeita esta regra básica: um dos pés sempre tem que tocar o chão. Já os desobedientes, esses ganham a desclassificação.

Como não quero ser tirado do páreo, faço bom uso das narinas: o desodorante não está vencido.

Já que me sinto apresentável, posso pensar.

Ressabiado, leio no dicionário que “raiva” é uma palavra latina que significa “doença”. Como a gente fica furiosa, frenética e violenta, não se cura a raiva com chá verde.

Não creio que me falte coragem para experimentar o chá verde. A erva pode ser orgânica, a internet pode multiplicar seus benefícios, só que, como aprendi ainda menino, vou de mate.

Valorizo o chá mate que eu bebo. A erva nem precisa ser orgânica para me convencer a cultivar a fidelidade a este chá, que tanto me fez bebê-lo há seis décadas.

Os maledicentes dirão que uma criança criada à base de chá mate está condicionada. E sempre se bandeará para o lado dos bebedores dessa infusão maléfica.

É aqui que as raízes têm que ser esmiuçadas.

Há que se revolver o chão onde a erva cresce. Sem o veneno dos ofensivos, as mãos que preparam a terra são humanas. No trato com o planeta, as alegrias e as tristezas têm unhas e dedão. As enxadas ou tratores são instrumentos para que a lavoura cresça, seja colhida e eu beba o meu chá.

Diabinho que jamais morde a língua: mate é só outro chá.

Tomado o chá, a alma dá parabéns pela decisão. Ele me satisfaz, me acalenta, me faz sentir que tem ação imediata.

Que escolha feliz!

Da próxima vez, quando eu passar em frente de loja onde cantem Parabéns a Você, ou alguma música conhecida, também quero sorrir, bater palmas e cantar junto.

Vacinado, feito querubim boa-praça, vou dar petelecos nas minhas bochechas, nas rosadas bochechas de cidadão que controla a raiva.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de fevereiro de 2026.

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