terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Moto aérea

 

Moto aérea

 

Houve uma era em que o esquecimento podia ser remediado com o número do telefone, a ficha e o equipamento na esquina ― dava pra ligar para casa pedindo que tirassem a lasanha do forno.

Naqueles dias, o telefone público parecia uma orelha humana. Por isso, o apelido pegou, e foi uma justiça poética: orelhão.

Dizer “vou usar aquele troço” soaria antipático.

Como fui garoto carente de respostas às minhas perturbações, o mundo era estranho. E essa estranheza ganhava corpo com aquelas aberrações: com uma orelha daquele tamanho, já pensou o tamanho do umbigo do gigante?

Ao juntar orelha gigante, bocarra e fome monstruosa, o resultado não podia ser outro que não este: Gargântua.

Entende por que eu achava espetacular o umbigo?

Mesmo Gargântua sendo tão assombroso, pra eu ficar empolgado de verdade, ele tinha que ter braços, pernas e uma barrigona sempre a exigir mais e mais pizzas.

Com uma gruta colossal na pança, seria extraordinário o tanto de pizzas que ali eu assaria.

Eu ficaria extraordinariamente rico; tanto que as pessoas saberiam de cor o número do telefone do meu quarto.

Nessa minha infância, rico para valer tinha que ter telefone ao lado da cama. Para, imediatamente, atender quem fosse.

Claro! Rico tinha que cobrar pelo atendimento. E o preço era alto: quanto mais pizzas, melhor a atenção dispensada. Naturalmente.

Hoje, a ordem é outra: os fregueses trazem o orelhão no celular, e a maior qualidade da pizza está no baixo custo.

Todo mundo sabe: ainda que o forno arda a bairros da sua boca, mande um zap quando quiser, e os nossos motoboys a entregarão, o mais tardar, em quinze minutos.

Pelo que sei, já que eu aprendi a ser honesto com a realidade do mundo: ninguém perdoa atraso maior do que cinco minutos.

Some cinco aos quinze, noves fora: adeus, pizzaria.

Este tempo é pra cair no esquecimento: a pizza fria, como ontem, é a próxima pizza. Agorinha mesmo.

Como sugeri há pouco, a ordem do dia é esta: vem um áudio.

Por ser mensagem gravada, o futuro não sabe esperar. Responda no ato. Prometa celeridade. Prove ser célere.

Ou seja: você pede pizza, ela chega quente.

Já os entregadores...

Sempre haverá motoqueiro pra cavar corredor aéreo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de janeiro de 2026.

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