Um
quarto atrasado
Ele não se preocupa com bobagens. Sabe
que os amigos seguem ocupadíssimos com a vacina dos cães. Ele e os amigos
guardam um intervalo para suas pulgas metafísicas: a feijoada de quarta.
Sem falta, toda quarta-feira: estão à
mesa.
Dispostos a mordidas distraídas, abrem a
boca. Pelo prazer dos pequenos discursos, divertem-se naturalmente.
Este papo dificilmente sensibilizaria oradores
bem calibrados, pois profissionais da palavra bem-posta têm o dever da
prudência.
Ao achar o fiapinho que roçará o ouvido
de outrem, calam-se. Já a diversão coçando a própria língua, pigarreiam.
Na feijoada de quarta, os confrades riem.
Como parece que à feijoada desta quarta ele
chegará atrasado, rir seria a maior evidência de que está comprometido.
Ora, nós é que queremos mostrá-lo
cauteloso...
Pouco antes das onze foi à casa de Dona
Cremilda. Levara o livro prometido. A sua permanência não podia ser maior que
os minutinhos que calculara. Houve, entretanto, o cafezinho.
Dona Cremilda...
Mares Interiores, a obra entregue assim
que o sorriso da amiga o fez ver-se sentado para aquela broazinha recém-saída
do forno, traz a correspondência trocada por dois autores que muito preza.
Otto Lara Resende e Murilo Rubião em
cartas? Excelente!
Já que não traz no pulso nenhum relógio,
ele achou desrespeitoso morder a broa a pensar em paio e língua.
Uma vez explícita a tendência de
minimizá-lo como ser humano a trotar feito pangaré, voltemos ao compromisso
anterior.
Naturalmente, entre dez e dez e dez e
quarenta e cinco, mostrou tão somente a parte externa da sua casa. Ele ainda era
prudente.
O pintor e ele eram conhecidos.
Estudaram juntos.
A vida era simples: para cada aula de
religião, uma pelada.
Os dois até se lembraram das aulas de
ginástica. Entre as flexões e os polichinelos, não se esquivaram daquele nome:
Maria Emília.
Por conta da Mãe de Deus, Maria.
Pelo Sítio do Picapau Amarelo, Emília.
Valia a pena esperar pela educação
física das meninas?
Ele teve que correr.
Já que a farmácia fica aberta as 24
horas de cada dia, achou bom ir cedo pegar os trinta comprimidos do seu
ansiolítico.
Antes das oito já estava livre para
fazer o supermercado.
E ele foi num pé.
Pôde examinar a banana e cheirar a couve. Pediu moído um quilo de patinho, que passou duzentos gramas e tralalá ― e tudo bem.
O que haveria de querer quando acordou?
Com o ânimo para não peitar o mundo,
acordou que nem precisou calcular o quanto era positivo o tanto que dormira.
Espreguiçou-se. Bocejou. Espreguiçou-se.
Ainda que fossem cinco para as sete de
quarta-feira?
Tudo nos conformes. Tudo merece uma bela
espreguiçada.
Aliás, Dona Cremilda, coisa boba é achar
que cinco pras sete seja um bom momento de ir deitar-se na própria cama.
Ele não correu.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de janeiro de 2026.
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