quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Um quarto atrasado

 

Um quarto atrasado

 

Ele não se preocupa com bobagens. Sabe que os amigos seguem ocupadíssimos com a vacina dos cães. Ele e os amigos guardam um intervalo para suas pulgas metafísicas: a feijoada de quarta.

Sem falta, toda quarta-feira: estão à mesa.

Dispostos a mordidas distraídas, abrem a boca. Pelo prazer dos pequenos discursos, divertem-se naturalmente.

Este papo dificilmente sensibilizaria oradores bem calibrados, pois profissionais da palavra bem-posta têm o dever da prudência.

Ao achar o fiapinho que roçará o ouvido de outrem, calam-se. Já a diversão coçando a própria língua, pigarreiam.

Na feijoada de quarta, os confrades riem.

Como parece que à feijoada desta quarta ele chegará atrasado, rir seria a maior evidência de que está comprometido.

Ora, nós é que queremos mostrá-lo cauteloso...

Pouco antes das onze foi à casa de Dona Cremilda. Levara o livro prometido. A sua permanência não podia ser maior que os minutinhos que calculara. Houve, entretanto, o cafezinho.

Dona Cremilda...

Mares Interiores, a obra entregue assim que o sorriso da amiga o fez ver-se sentado para aquela broazinha recém-saída do forno, traz a correspondência trocada por dois autores que muito preza.

Otto Lara Resende e Murilo Rubião em cartas? Excelente!

Já que não traz no pulso nenhum relógio, ele achou desrespeitoso morder a broa a pensar em paio e língua.

Uma vez explícita a tendência de minimizá-lo como ser humano a trotar feito pangaré, voltemos ao compromisso anterior.

Naturalmente, entre dez e dez e dez e quarenta e cinco, mostrou tão somente a parte externa da sua casa. Ele ainda era prudente.

O pintor e ele eram conhecidos. Estudaram juntos.

A vida era simples: para cada aula de religião, uma pelada.

Os dois até se lembraram das aulas de ginástica. Entre as flexões e os polichinelos, não se esquivaram daquele nome: Maria Emília.

Por conta da Mãe de Deus, Maria.

Pelo Sítio do Picapau Amarelo, Emília.

Valia a pena esperar pela educação física das meninas?

Ele teve que correr.

Já que a farmácia fica aberta as 24 horas de cada dia, achou bom ir cedo pegar os trinta comprimidos do seu ansiolítico.

Antes das oito já estava livre para fazer o supermercado.

E ele foi num pé.

Pôde examinar a banana e cheirar a couve. Pediu moído um quilo de patinho, que passou duzentos gramas e tralalá ― e tudo bem.

O que haveria de querer quando acordou?

Com o ânimo para não peitar o mundo, acordou que nem precisou calcular o quanto era positivo o tanto que dormira.

Espreguiçou-se. Bocejou. Espreguiçou-se.

Ainda que fossem cinco para as sete de quarta-feira?

Tudo nos conformes. Tudo merece uma bela espreguiçada.

Aliás, Dona Cremilda, coisa boba é achar que cinco pras sete seja um bom momento de ir deitar-se na própria cama.

Ele não correu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de janeiro de 2026.

Nenhum comentário:

Postar um comentário