Nota
10
Na versão oficial, hoje é o último dia
de Carnaval. Para o povo, não há razões para alarde: a festa dura o quanto a
gente queira.
A carne é forte. O seu poder é tanto,
profundo, vital, que não é nada simples o corpo dizer adeus ao que o torna
humano.
A parte fraca da gente suspira, fala
baixo quase o tempo todo, acha que vai gritar quando o espinho tira sangue.
Enquanto a mágoa é na pele e nos
músculos, dá para suportar. Só não é razoável garantir à vida que vivemos bem,
agimos direito, ainda que sejamos panela no fogo.
É preciso ― precisamos ― que haja
escape.
Compreendemos: o ano não seria bem-sucedido
se não houvesse críticas, censuras ou castrações.
Não somos idiotas para não sacar por que
será que não nos deixam fazer o que queremos. Desejamos, mas não cantamos, não
dançamos, sequer transamos o corpo numa boa.
Positivamente, redundamos castos.
Como mamíferos de sangue quente, a
matéria de que somos feitos tem direito a gozar das liberdades que os trezentos
e sessenta e dois dias do ano capacita-nos para a explosão.
Evoé! Explodimos de alegria.
No lugar do pão integral, outro gole de cerveja.
Pijama é o ramerrão, tatuagens aquecem mais gostoso. A melhor resposta ao mundo
é, na quarta-feira, acordar com mil sabores na boca.
Entretanto: passado o Carnaval?
Já não há plumas nem paetês, temos
óculos.
Quando o olho cobiça o patê de atum, a
mão que segura o pote de margarina coloca-o de volta na geladeira.
A gente sempre soube: é preciso ler os
rótulos.
E não compra o produto com gordura
trans. Deixa na gôndola o que vai vencer na semana que vem. E deveria ter cobrado
o repositor que coisa vencida tem que ser trocada.
Como gostamos de ser valorizados,
disfarçamos. Mas é bom ouvir o quanto somos bons profissionais, bons amigos,
bons pais.
Com o cotidiano ditado pelo despertador,
voltamos a viver para dar o melhor. E acreditamos mesmo no melhor da gente.
Para não decepcionar as pessoas que
suspiram quando nos ouvem dizer: levantamos na hora certa, tomamos banho na
hora certa, vamos dormir na hora certa.
E tudo certo.
Como não é todo dia que uso margarina no
pão, faço um sanduíche com a muçarela que tem menos sal e menos gordura.
Tomo cuidado pra não morder a língua. Mastigo
o sanduba. Já que aproveito pra colocar as notícias em dia, mastigo devagar.
Leio que ninguém proibiu o desfile
daquela escola de samba. Dizem que teria havido uma homenagem emocionante.
Reiteram que não vão precisar de averiguações. Extasiado, o homenageado sambou,
suou e chorou. Juram: Ney Matogrosso não se conteve.
Não sendo jurado para dar nota a quem samba
para ser notado, eu assovio e bato palmas: o tempo todo, faz muito bem o Ney
Matogrosso ser ele próprio.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de fevereiro de 2026.
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