terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Nota 10

 

Nota 10

 

Na versão oficial, hoje é o último dia de Carnaval. Para o povo, não há razões para alarde: a festa dura o quanto a gente queira.

A carne é forte. O seu poder é tanto, profundo, vital, que não é nada simples o corpo dizer adeus ao que o torna humano.

A parte fraca da gente suspira, fala baixo quase o tempo todo, acha que vai gritar quando o espinho tira sangue.

Enquanto a mágoa é na pele e nos músculos, dá para suportar. Só não é razoável garantir à vida que vivemos bem, agimos direito, ainda que sejamos panela no fogo.

É preciso ― precisamos ― que haja escape.

Compreendemos: o ano não seria bem-sucedido se não houvesse críticas, censuras ou castrações.

Não somos idiotas para não sacar por que será que não nos deixam fazer o que queremos. Desejamos, mas não cantamos, não dançamos, sequer transamos o corpo numa boa.

Positivamente, redundamos castos.

Como mamíferos de sangue quente, a matéria de que somos feitos tem direito a gozar das liberdades que os trezentos e sessenta e dois dias do ano capacita-nos para a explosão.

Evoé! Explodimos de alegria.

No lugar do pão integral, outro gole de cerveja. Pijama é o ramerrão, tatuagens aquecem mais gostoso. A melhor resposta ao mundo é, na quarta-feira, acordar com mil sabores na boca.

Entretanto: passado o Carnaval?

Já não há plumas nem paetês, temos óculos.

Quando o olho cobiça o patê de atum, a mão que segura o pote de margarina coloca-o de volta na geladeira.

A gente sempre soube: é preciso ler os rótulos.

E não compra o produto com gordura trans. Deixa na gôndola o que vai vencer na semana que vem. E deveria ter cobrado o repositor que coisa vencida tem que ser trocada.

Como gostamos de ser valorizados, disfarçamos. Mas é bom ouvir o quanto somos bons profissionais, bons amigos, bons pais.

Com o cotidiano ditado pelo despertador, voltamos a viver para dar o melhor. E acreditamos mesmo no melhor da gente.

Para não decepcionar as pessoas que suspiram quando nos ouvem dizer: levantamos na hora certa, tomamos banho na hora certa, vamos dormir na hora certa.

E tudo certo.

Como não é todo dia que uso margarina no pão, faço um sanduíche com a muçarela que tem menos sal e menos gordura.

Tomo cuidado pra não morder a língua. Mastigo o sanduba. Já que aproveito pra colocar as notícias em dia, mastigo devagar.

Leio que ninguém proibiu o desfile daquela escola de samba. Dizem que teria havido uma homenagem emocionante. Reiteram que não vão precisar de averiguações. Extasiado, o homenageado sambou, suou e chorou. Juram: Ney Matogrosso não se conteve.

Não sendo jurado para dar nota a quem samba para ser notado, eu assovio e bato palmas: o tempo todo, faz muito bem o Ney Matogrosso ser ele próprio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de fevereiro de 2026.

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