quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Chamada a cobrar

 

Chamada a cobrar

 

De crachá no peito, a pessoa acredita que, por estar uniformizada, tem o direito de opinar sobre deus, o diabo e a ordem do mundo.

Às ordens do mundo está a funcionária, cuja função na empresa é atender os clientes e os colegas, sem que haja emperramentos.

Não basta bom-humor, é preciso malemolência.

Esta ginga de quadril não é para tirar o corpo fora, é para manter a máquina rodando sem rangidos. Até porque gerente e segurança não têm subordinação hierárquica.

Na vida, é preciso respeitar o quadrado alheio. Não é de bom-tom meter o bedelho na cumbuca de terceiros. Sem permissão para tanto, o bicho pega. E a coisa azeda.

Nos comércios do mundo, convém não haver desperdício.

Um gerente é uma banana. Um segurança é um abacaxi. A firma é liquidificador. Para a vitamina ser servida ao público: a energia tem que vir de cada um dos ingredientes.

Para que a vitamina não passe do ponto, é recomendável que as colheres de açúcar sejam suficientes para adoçar.

Quando é preciso mascarar o gosto pronunciado daquele ou deste fruto, não basta seguir a receita ― fundamental é ser criativo.

Já que o tópico é criatividade: crianças são proficientes.

Nos meus tempos de menino, uma das minhas especialidades era fazer o que os adultos faziam. E como eu gostava.

Passar trote, por exemplo.

Se adultos telefonavam para bombeiro salvar gatinho encurralado a três metros do chão, eu era o menino preocupado com a segurança da esposa do vizinho.

E as chamas da minha infância ainda ensinam: para se defender, a gata nem precisava arranhar as costas do seu bombeiro.

Dito de outro modo: viver é fogo.

Agora que estou crescido, passei a receber telefonemas de gente que não fala nada. Que coisa mais sem graça, ficar muda. Eu atendo, e nada. Fica aquele silêncio. Nem para imitar gente ofegando. É coisa de marmanjo acuado pela infância.

Se não ligam para inspirar sonhos eróticos, procurem quem queira comprar o silêncio broxante que têm para oferecer.

Embora as minhas costas andem carecendo de ser massageadas, não tenho escada Magirus. Aliás, nem telefone fixo.

O jeito é espiar pela janela. Pode ser que algum vizinho precise de uma mãozinha. Pode ser que eu ache quem tope me acudir.

Pelas barbas do profeta! É carnaval.

Com as luzes acesas, ficarei em casa. Como é da vida encontrar o que a gente desistiu de encontrar, a lista telefônica dos meus tempos de garoto aparecerá. Nela encontrarei nome e endereço. A casa onde morei vai ter novamente as luzes acesas.

É da vida que nem voltem a brilhar. E elas brilham.

Saberei esperar que a mulher do vizinho erre o número. Farei uma voz tranquila, segura. Esperto o bastante para não cair num trote, hei de ser o homem responsável que tenho fé que sou.

Uma vez que não jogo areia para cobrir as minhas necessidades, visto a fantasia. Não rasgo nem ponho de molho, envergo-a.

Digo ao Rei Momo que, em casa, ficarei. Quando o telefone tocar, vou atender. Quando o bloco passar, aplaudirei. Depois de dormir, aí, apagarei. Dormindo, sonharei. No melhor dos sonhos, vou acordar.

E na hora agá, seja em que hora for, eu te acudarei:

― Bombeiro tartamudo, miau!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de fevereiro de 2026.

Nenhum comentário:

Postar um comentário