Chamada
a cobrar
De crachá no peito, a pessoa acredita
que, por estar uniformizada, tem o direito de opinar sobre deus, o diabo e a
ordem do mundo.
Às ordens do mundo está a funcionária,
cuja função na empresa é atender os clientes e os colegas, sem que haja
emperramentos.
Não basta bom-humor, é preciso
malemolência.
Esta ginga de quadril não é para tirar o
corpo fora, é para manter a máquina rodando sem rangidos. Até porque gerente e
segurança não têm subordinação hierárquica.
Na vida, é preciso respeitar o quadrado
alheio. Não é de bom-tom meter o bedelho na cumbuca de terceiros. Sem permissão
para tanto, o bicho pega. E a coisa azeda.
Nos comércios do mundo, convém não haver
desperdício.
Um gerente é uma banana. Um segurança é
um abacaxi. A firma é liquidificador. Para a vitamina ser servida ao público: a
energia tem que vir de cada um dos ingredientes.
Para que a vitamina não passe do ponto,
é recomendável que as colheres de açúcar sejam suficientes para adoçar.
Quando é preciso mascarar o gosto pronunciado daquele ou deste fruto, não basta seguir a receita ― fundamental é ser criativo.
Já que o tópico é criatividade: crianças
são proficientes.
Nos meus tempos de menino, uma das
minhas especialidades era fazer o que os adultos faziam. E como eu gostava.
Passar trote, por exemplo.
Se adultos telefonavam para bombeiro
salvar gatinho encurralado a três metros do chão, eu era o menino preocupado
com a segurança da esposa do vizinho.
E as chamas da minha infância ainda ensinam:
para se defender, a gata nem precisava arranhar as costas do seu bombeiro.
Dito de outro modo: viver é fogo.
Agora que estou crescido, passei a
receber telefonemas de gente que não fala nada. Que coisa mais sem graça, ficar
muda. Eu atendo, e nada. Fica aquele silêncio. Nem para imitar gente ofegando.
É coisa de marmanjo acuado pela infância.
Se não ligam para inspirar sonhos
eróticos, procurem quem queira comprar o silêncio broxante que têm para
oferecer.
Embora as minhas costas andem carecendo
de ser massageadas, não tenho escada Magirus. Aliás, nem telefone fixo.
O jeito é espiar pela janela. Pode ser
que algum vizinho precise de uma mãozinha. Pode ser que eu ache quem tope me
acudir.
Pelas barbas do profeta! É carnaval.
Com as luzes acesas, ficarei em casa. Como
é da vida encontrar o que a gente desistiu de encontrar, a lista telefônica dos
meus tempos de garoto aparecerá. Nela encontrarei nome e endereço. A casa onde
morei vai ter novamente as luzes acesas.
É da vida que nem voltem a brilhar. E
elas brilham.
Saberei esperar que a mulher do vizinho
erre o número. Farei uma voz tranquila, segura. Esperto o bastante para não
cair num trote, hei de ser o homem responsável que tenho fé que sou.
Uma vez que não jogo areia para cobrir
as minhas necessidades, visto a fantasia. Não rasgo nem ponho de molho, envergo-a.
Digo ao Rei Momo que, em casa, ficarei. Quando
o telefone tocar, vou atender. Quando o bloco passar, aplaudirei. Depois de
dormir, aí, apagarei. Dormindo, sonharei. No melhor dos sonhos, vou acordar.
E na hora agá, seja em que hora for, eu te
acudarei:
― Bombeiro tartamudo, miau!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de fevereiro de 2026.
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