quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Yabadabadoo

 

Yabadabadoo

 

Terminada a apuração, houve uma campeã e uma rebaixada. De minha parte, passo recibo: terei outro ano até o Carnaval vindouro.

Sinto-me vencedor, pois ficarei trabalhando.

Por trabalhar em casa, vou me concentrar. Sei que darei trabalho. No afã de manter a produção em dia, cobrarei de mim outra vitória que seja possível: nada de espiar quem se enxuga depois do banho.

Se cumprir a meta de ficar longe da janela no horarinho de sempre, quero dobrá-la: para que o cachorrinho da vizinha possa brincar com o meu, vou me puxar pela coleira.

Vigiando meus sorrisos e controlando a minha língua, não abrirei a lista de contatos do telefone. Só não atenderei chamada alguma.

Com o dobro alcançado, serei indulgente.

Vou à barbearia para minha barba ser feita por mãos profissionais, cujas habilidades produzirão um rostinho sem cortes.

Pessoa que se envaidece das boas obras realizadas, recapitulo as graças: sem cheiro de extravagâncias, brinquei o carnaval molhando o lenço com as lágrimas de alegria pela Portela; depois do banho do fim de tarde, deixei a cortina aberta só para que pernilongos entrassem; e pus papel higiênico para estancar o sangue na carinha de bebê só uma vez, na Terça-Feira Gorda.

Putisgrila! Fiz a trifeta.

Acho que sim.

O que não significa que está lançada a minha candidatura ao posto de brasileiro padrão. Tenho um ano pela frente. Manter o pé no chão é demonstração ajuizada de que há muito que fazer.

Como chefe, supervisor e empregador de mim mesmo, embora eu seja mão de vaca quando me pedem esmolas, estou certo de que viver é batalhar por regalias.

Já que a vanglória faz acreditar que mereço uns trocados por fora, vou à janela. E confirma-se, há um mundo de gente a circular.

Luisinho grita que eu vá atendê-lo.

O tetracampeonato está no papo: não pergunto se tomou banho ou se pagou para que lhe fizessem a barba.

Elogio os novos óculos de aro de tartaruga. Acrescento que parece mais novo, com o cabelo repartido e aqueles óculos. Lembra mesmo o adolescente que se sentava na frente. Aquele CDF que era o primeirão a chutar a resposta. Nas vezes que era gol, nem olhava para trás.

Luisinho pede para eu deixar de bobagem. Precisamos ir até a casa da Dona Cremilda. O Zeca, o Domingos, ele e eu vamos dizer o quanto é gostosa a torta de banana que Dona Cremilda fez pra gente.

Agora, sim. Eis o salto tão aguardado.

À mesa, a vizinha. A dona do cachorrinho que brinca com o meu. A mulher que se enxuga de cortina aberta. A fêmea da espécie que não se chama Eva, Maria nem Madalena.

ꟷ Já conhece a sobrinha da Magali?

É claro que não me seguro. Abano o rabo. Finjo de morto. Rolo no chão. Latindo que nem bobo, hidrófobo de tanto entusiasmo: eu como, como a torta que nem percebo que é com a mão que eu como.

Pedrita!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de fevereiro de 2026.

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